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Crítica: 1883

1883, EUA, 2021


Prime Video · Trailer · Filmow · IMDB · RottenTomatoes

★★★★★


Com 1883, o roteirista Taylor Sheridan se supera nos mais diversos aspectos. Se suas fantásticas habilidades como contador de histórias não ficam claras em filmes como Sem Remorso e Aqueles Que Me Desejam a Morte, elas aparecem em todo seu brutal e poético esplendor ao longo dessa fantástica série. O sétimo episódio de 1883 sozinho já seria digno de várias indicações ao Oscar e provavelmente levaria algumas estatuetas. Essa é uma poderosa história sobre esperança, tenacidade, tragédia e romance em uma terra dura e inóspita, marcada por um tipo de evento que praticamente se torna um coadjuvante da trama: a morte.

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Um dos aspectos que tornam a série tão especial é sua representação crua e impiedosa dos perigos que os imigrantes precisavam enfrentar no caminho para o oeste dos EUA. Vindos da Europa em busca de liberdade e prosperidade em terras vistas como virgens e intocadas (mesmo já sendo habitadas por inúmeros povos indígenas), a maioria deles não estava preparada para cruzar um impiedoso deserto, no qual suas vidas eram tão frágeis quanto as de quaisquer animais que rastejavam pelo chão. Doenças, acidentes (por exemplo, era muito comum as pessoas caírem das carroças e serem atropeladas pelas que vinham atrás), afogamentos, picadas de cobras, bandidos e conflitos com indígenas foram alguns dos perigos que custaram as vidas de muitos imigrantes e que são mostrados ao longo dos episódios de 1883.

Isso justifica o fato de que Elsa (Isabel May), em sua profunda e poética narração em off, passe a ver aquele ambiente como um antagonista, mesmo quando reconhece a estonteante beleza daquelas paisagens. A partir de determinado ponto, as dificuldades impostas pela terra parecem pessoais. Para ela, é como se aqueles obstáculos tivessem sido colocados ali com o propósito específico de impedir a passagem daqueles pioneiros, como se a terra se importasse. Mas ela também reconhece que aquela natureza já estava ali bem antes de existirem seres humanos, e que são eles que estão tendo a audácia de percorrer um “caminho” que não foi feito para eles percorrerem.

Mas percorrê-lo era necessário. A série também aponta para o desespero das pessoas que se atiravam naquela jornada, fugindo de sociedades nas quais elas dificilmente conseguiriam prosperar ou transitar para outras classes sociais. Porém, esses imigrantes conheciam apenas os rumores de oportunidade e riqueza, os casos de sucesso, e ignoravam o inferno que seria aquela jornada e os muitos corpos que ficariam pelo caminho para que uma minoria alcançasse o sonho. Eles buscavam liberdade, mas também tinham a equivocada ideia de que “liberdade” significa fazer o que eles bem querem e não ter que lidar com as consequências.

Eles aprendem do jeito difícil a diferença entre os erros cometidos nos centros urbanos e os erros cometidos naquela terra selvagem. Na civilização, as consequências geralmente são definidas por leis e normais sociais, podendo ocorrer punições; fora dela, as consequências são resultados diretos e inegociáveis de suas próprias ações. Por exemplo, se você tenta atravessar um rio com uma carroça abarrotada de pertences, o afogamento não é uma “punição”, mas sim um resultado direto das suas escolhas. Não há juízes ou outras autoridades fazendo julgamentos; é apenas você lidando diretamente com as forças da natureza.

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Diante disso, e de uma contagem de corpos que só aumenta, vários dos personagens começam a questionar se aquela viagem realmente vale a pena. Outros, como Elsa e Thomas (LaMonica Garrett), são transformados pela jornada e estão dispostos a ir até as últimas consequências para fazê-la valer a pena. Quando o último episódio chega, os personagens que restaram já estão quebrados e traumatizados, seja pelo sofrimento que passaram, seja pelo sofrimento pelo qual eles viram outras pessoas passando.

Esse episódio final é basicamente um velório para uma pessoa que está em seus últimos dias de vida e uma homenagem a todos os imigrantes que tentaram a sorte mas ficaram pelo caminho. Países como os EUA e o Brasil, cujas Histórias se assemelham em termos de tratamento a povos indígenas, uso de mão de obra escrava e atração de imigrantes, foram construídos por essas pessoas duras e traumatizadas, que tiveram que enfrentar tanto a impiedade da natureza quanto a impiedade das outras pessoas. Isso explica muitos aspectos dos atuais tecidos sociais desses países.

1883 supera Yellowstone sem maiores dificuldades e já pode ser considerada uma das melhores séries já feitas. Ela ainda romantiza parcialmente uma realidade que deve ter sido ainda mais dura do que a representada em tela, mas ainda assim transporta o espectador para um cenário mais fiel e menos mitológico sobre o caminho para o oeste. Pelo nível de autenticidade de algumas das cenas, pela qualidade das caracterizações e pela profundidade das atuações, é possível perceber que a produção desses dez episódios também deve ter deixado marcas físicas e psicológicas em muitos dos envolvidos na produção.

A boa notícia é que, dado o resultado final, essa foi uma jornada que valeu muito a pena.

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