The Boys: O Complexo de Deus e a Inevitabilidade do Fim

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Talvez o motivo pelo qual muitos espectadores tenham ficado decepcionados com a temporada final de The Boys é que eles esperavam algo mais convencional. Porém, desde o seu primeiro episódio, a série está muito mais interessada em satirizar não apenas a ideia de super-heróis, mas também a realidade política e econômica dos EUA e do mundo em geral.

Na distópica ambientação da trama, a existência de super-heróis se mistura com a cultura de celebridades, com o consumismo desenfreado e com a influência política e midiática vinda de corporações e de figuras extremistas.

Dessa forma, me parece estranho que parte do público esperava que a temporada final seria uma série de intensas batalhas, épicas e grandiosas, dignas dos filmes dos Vingadores ou da Liga da Justiça. Ou seja, essa parte do público esperava que a série fosse mais parecida justamente com o tipo de história que ela está tentando satirizar.

Mesmo que as expectativas fossem mais próximas da HQ O Cavaleiro das Trevas (na qual um engenhoso Batman consegue derrotar um corrompido Superman), isso ainda ficaria próximo demais da lógica convencional dos quadrinhos.

Assim, ao invés de se espelhar nas histórias que está tentando satirizar, a temporada final de The Boys se espelha mais uma vez no mundo real. O que a série nos mostra aqui é um regime autoritário que vai se destruindo de dentro para fora e um grupo de “rebeldes” que corre o risco de ir longe demais e se tornar genocida.

A ascensão de Homelander/Capitão Pátria (Antony Starr) ao poder no final da quarta temporada preparou o caminho para que ele atingisse a sua forma final: a de um poderoso ditador que se considera uma figura divina andando sobre a Terra. No mundo real, além das culturas que consideravam os seus monarcas divindades, vários ditadores já estabeleceram cultos de personalidade e chegaram a desenvolver o chamado complexo de deus.

O artigo intitulado O Complexo de Deus e a Construção Ditatorial, que analisa o fenômeno com base no ditador africano representado no filme O Último Rei da Escócia, afirma que:

Os sentimentos de impotência, baixa autoestima ou problemas não resolvidos da infância podem resultar na superestimação das próprias capacidades, criando assim a distorção psicológica do chamado “complexo de Deus”. Este fenômeno leva ao dogmatismo das opiniões e à ilusão de infalibilidade, como se o próprio ponto de vista fosse o único correto. Essa postura impede o desenvolvimento do autoconhecimento e da autocompreensão. Uma convivência equilibrada com os outros promove uma avaliação realista de nossas capacidades e limites, em contraste com uma identidade baseada em projeções idealizadas de si mesmo.

Mais adiante, o artigo fala especificamente sobre o ditador:

A decisão de expulsar sumariamente 40 mil asiáticos, sob a justificativa de que “Deus lhe havia ordenado” transformar o país numa nação de homens negros, revela um comportamento típico de líderes acometidos pelo complexo de Deus. Tal complexo implica uma autopercepção inflada, quase divina, na qual o governante acredita estar acima da lei, da moral comum e até mesmo da racionalidade política.

Os dois trechos acima também servem para descrever a situação psicológica de Homelander, um “super-herói” que sofreu com dolorosos experimentos enquanto crescia em um laboratório científico. A ausência de uma figura paterna e de uma figura materna prejudicaram o seu desenvolvimento emocional, deixando-o com cicatrizes psicológicas que o tornariam um superpoderoso e sanguinário narcisista maligno.

Recentemente, mecanismos psicológicos similares puderam ser vistos no caso do presidente dos EUA que se comparou com Jesus Cristo e no presidente brasileiro que afirmou ser “imorrível”, “imbrochável” e “incomível”.

the boys

Homelander também segue a cartilha dos ditadores ao exigir lealdade total de seus subalternos e da população em geral. Suas severas inseguranças e seu vazio em termos de identidade própria não permitem que ele aceite a ideia de que alguém ache que ele está errado ou que prefira outra pessoa no comando do país. Extremamente paranoico, ele está disposto a matar todas as pessoas que não acreditem em sua divindade, o que tem paralelos com o Grande Expurgo que ocorreu na União Soviética ou a chamada Guerra Suja na Argentina, por exemplo.

Uma consequência dessas inseguranças é que Homelander não aceita aliados com base na competência que eles possuem, mas sim no nível de lealdade que eles demonstram. Isso o cerca de pessoas submissas e amedrontadas que jamais o questionam, o que serve para alimentar a sua ilusão de infalibilidade. Inclusive, é possível perceber como essa ilusão vai contribuindo para ele subestimar o grupo que dá título à série, o que acaba viabilizando a sua inevitável queda no episódio final.

A trama da temporada final de The Boys também chama a atenção para a situação dos fiéis seguidores de Homelander. Enquanto Sister Sage/Mana Sábia (Susan Heyward) tem seus próprios planos, figuras como The Deep/Profundo (Chace Crawford) e Firecracker/Espoleta (Valorie Curry) tentam se manter seguros contra os impulsos assassinos de Homelander, se submetendo completamente a suas vontades.

Para tal, eles abandonam as próprias crenças e traem as suas próprias identidades na esperança de que serão abundantemente recompensados por seus sacrifícios. É como se eles estivessem se tornando a “imagem e semelhança” de Homelander, que também é uma pessoa vazia e desprovida de amor-próprio. Ele tenta preencher esse vazio e essa ânsia com a validação vinda de outras pessoas, mesmo que ele tenha que forçá-las a elogiá-lo e a afirmar que ele é um poderoso deus.

O que The Deep e Firecracker não entendem é que não há como preencher esse vazio existente em Homelander. Nenhuma quantidade de poder, dinheiro ou falsa adoração será capaz de satisfazê-lo, pois o que falta para ele não pode ser tomado à força, comprado ou obrigado. A ilusão até pode durar algum tempo, mas eventualmente ele irá precisar de ainda mais reforço externo para continuar acreditando que é amado e respeitado.

As deficiências emocionais que Homelander possui não são culpa dele, mas isso não muda o fato de que ele precisa se responsabilizar por suas ações, especialmente durante a sua vida adulta. Ao invés de buscar amadurecimento e evolução, ele usa seus super-poderes como uma forma de se proteger de qualquer consequência ou aprendizado. E assim, quando seus poderes são removidos, tudo o que sobra é um homem fraco, medroso e despreparado para lidar com situações verdadeiramente adversas.

Do outro lado, a equipe que se autointitula “The Boys” precisa lidar com situações que desafiam a sua esperança e a sua vontade de continuar lutando contra inimigos muito mais poderosos. São momentos que lembram o nível de precariedade presente na segunda temporada de Demolidor: Renascido, que é outra série que combina uma história de super-heróis com uma trama política que reflete a vida real.

O líder (ou ex-líder) da equipe, Billy Butcher (Karl Urban), deixa claro que está disposto a cometer um genocídio para acabar com o “reinado” dos “super-heróis”, que são pessoas alteradas pelo Composto V. Isso deixa Hughie (Jack Quaid) e o restante da equipe em uma situação complicada. Eles também querem uma arma biológica (mais especificamente, um vírus) poderosa o suficiente para eliminar Homelander e outros vilões, mas não estão dispostos a dizimar parte da população do planeta nesse processo. Inclusive, alguns dos membros da equipe também possuem super-poderes causados pelo Composto V.

O que essa temporada de The Boys revela é que Butcher sempre foi violento e inconsequente. Assim como Homelander, ele também teve uma infância traumatizante e faz uso da violência para não ter que lidar com suas limitações emocionais. Por mais que esteja do lado certo desse conflito, seu comportamento vem se tornando cada vez mais extremo e preocupante desde, pelo menos, a terceira temporada.

Se realmente conseguisse realizar o genocídio que planejava, talvez ele seria confrontado com o fato de que aquilo não resolve nenhuma das suas pendências psicológicas e entraria em um ciclo de autodestruição; ou talvez ele iria adotar alguma outra grande causa (ou escolher outro grande inimigo) para continuar justificando a própria violência e não ter que enfrentar seus traumas. De um jeito ou de outro, ele apresentaria comportamentos problemáticos que causariam danos a si mesmo ou a outras pessoas.

A quinta temporada de The Boys pode ter sido decepcionante para quem vê a produção, acima de tudo, como uma série de ação com super-heróis. Porém, como uma sátira política e social sobre os nossos tempos, essa temporada oferece uma conclusão consistente e satisfatória, sendo bem superior à quarta temporada.

O que a série nos lembra é que se o fim de ditadores e de extremistas é inevitável é porque sempre há pessoas resistindo e lutando contra eles. E, por mais poderosos que eles sejam, mais cedo ou mais tarde, tudo passa.


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