Copa do Mundo: 8 Acontecimentos que marcaram a História do torneio
Em ano de Copa do Mundo da FIFA, é sempre bom dar uma revisitada na história da tradicional competição. Nessa curta lista, vamos ver como acidentes, fenômenos naturais, acontecimentos políticos e polêmicas em geral afetaram algumas das edições do torneio.
1. 1930: Um começo conturbado e uma Grande Depressão
Apesar de ter precursores em jogos da antiguidade e do período medieval, o futebol moderno teve seu nascimento oficial com a fundação da Football Association na Inglaterra de 1863.
Porém, a FIFA foi fundada em 1904 sem a participação da Inglaterra, que só se juntaria à associação internacional em 1906. Os países do Reino Unido (Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte) teriam uma relação conturbada com a FIFA, e sairiam da associação duas vezes. A segunda saída foi a mais longa, durando de 1928 a 1946, o que impediu a participação deles nas primeiras edições da Copa do Mundo.
Poucas seleções europeias participaram da primeira edição, a Copa do Mundo de 1930, sediada no Uruguai. O país foi escolhido como sede por ter conquistado a medalha de ouro de futebol nas duas edições anteriores das Olimpíadas de Verão, em 1924 e 1928, que também foram as primeiras vezes nas quais o torneio olímpico foi organizado pela FIFA.
Em 1930, a grande maioria das seleções europeias se recusou a cruzar o Atlântico para jogar no Uruguai, especialmente devido ao tempo necessário para as viagens de navio e aos altos custos que seriam necessários, já que o mundo estava no meio da Grande Depressão.
Como retaliação, o Uruguai, que havia sido campeão em 1930, se recusou a participar da Copa do Mundo de 1934, sediada na Itália.
2. 1942: Segunda Guerra Mundial
Devido à eclosão da Segunda Guerra Mundial, as edições de 1942 e 1946 da Copa do Mundo não ocorreram.
Em 1938, a Alemanha anexou a Áustria e incorporou vários dos jogadores da superior seleção austríaca à seleção alemã. Isso gerou tensões nos vestiários, já que os austríacos estavam mais interessados em defender o próprio país ao invés da seleção de uma potência invasora. Isso pode ter influenciado a performance dessa versão da seleção alemã, que foi eliminada ainda na primeira fase da Copa do Mundo de 1938, sediada na França.
Ainda em 1938, três países haviam se candidatado para sediar a Copa do Mundo de 1942: Alemanha, Argentina e Brasil. Esses dois últimos argumentavam que o torneio deveria voltar para a América do Sul depois de duas edições na Europa. A volta para a América do Sul ficou ainda mais provável depois da eclosão da guerra em 1939, com a Argentina chegando a fazer uma proposta de sediamento em conjunto com o Brasil. Porém, em março de 1941, o presidente da FIFA Jules Rimet confirmou o cancelamento da edição de 1942.
Com o fim da guerra em 1945, a FIFA não teve tempo hábil para organizar uma edição em 1946, e o torneio só voltaria em 1950.
3. 1950: Um desastre aéreo

Time que ficou conhecido como Grande Torino
Sediada no Brasil, a Copa do Mundo de 1950 teve um gosto amargo não apenas para o país sede (que sofreu com o Maracanaço) mas também para a seleção da Itália.
Em 3 de maio de 1949, o desastre aéreo de Superga custaria a vida de toda a delegação do time italiano Torino, que voltava de um amistoso contra o time português Benfica. Essa versão do Torino, que ficaria conhecida como Grande Torino, era a base da seleção italiana. Desde 1946, a seleção era formada por pelo menos cinco jogadores do Torino. Em 1947, em um jogo contra a Hungria, a seleção italiana chegou a incluir dez jogadores do time.
A tragédia provocou uma grande comoção nacional e levou a nova seleção italiana a viajar de navio para o Brasil, afastando o medo de um novo desastre aéreo.
4. 1962: Um terremoto

Moradores de Valdivia observam uma enorme rachadura aberta pelo terremoto
Em 1960, dois anos antes de sediar a Copa do Mundo de 1962, o Chile seria atingido pelo grande Terremoto de Valdivia, que ainda é considerado o mais forte terremoto já registrado na História.
O sismo obrigou a FIFA a rever completamente o calendário de jogos, já que vários estádios não poderiam mais ser utilizados, seja porque foram seriamente danificados ou porque as cidades onde estavam se recusaram a arcar com os custos necessários. Ao fim, o torneio ocorreu em apenas quatro estádios, inclusive um emprestado por uma empresa mineradora. Como estava focado na reconstrução, o governo do Chile teve uma participação mínima no apoio ao evento.
Essa edição também foi marcada pela infame Batalha de Santiago, que foi uma partida entre Chile e Itália que ainda é considerada o jogo mais violento de todas as Copas. A violência em campo nesse dia é considerada uma das motivações para a FIFA adotar o uso de cartões amarelo e vermelho a partir da Copa do Mundo de 1970.
As agressões foram motivadas por artigos publicados na imprensa italiana que descreviam o Chile como um país miserável, disfuncional e decadente. Isso acirrou os ânimos na sociedade chilena, levando a população a hostilizar a delegação italiana em vários momentos. As hostilidades continuaram em campo, com jogadores dos dois times protagonizando cenas de agressão física desde os primeiros minutos de jogo.
5. 1966: Apartheid

Seleção de Portugal de 1966, que terminou em terceiro lugar e teve a melhor participação do país em Copas. Foi liderada pelo lendário Eusébio (centro, linha inferior), jogador nascido em Moçambique e que é considerado um dos melhores da História.
Dentre outras controvérsias, a Copa do Mundo de 1966, sediada na Inglaterra, ficou marcada por embates entre a FIFA e a Confederação Africana de Futebol (CAF). Um dos resultados foi que os países africanos boicotaram as eliminatórias para a competição.
Um dos motivos foi a exigência de que os países africanos classificados nas Eliminatórias da Copa promovidas pela CAF ainda precisariam disputar as vagas com seleções da Ásia, como se a classificação na disputa africana não fosse suficiente. O boicote fez a FIFA multar a CAF. A regra não mudou para a Copa de 1970, mas a FIFA concordou em garantir pelo menos uma vaga para uma nação africana nessa edição e nas edições seguintes, o que levou ao fim do boicote.
O outro motivo para o boicote foi a readmissão da África do Sul na FIFA em 1963. O país havia sido expulso em 1961 devido à política de segregação racial do Apartheid, com a associação de futebol do país insistindo em realizar jogos só com jogadores brancos ou só com jogadores negros. Depois da readmissão em 1963, o país foi mais uma vez expulso ao propor o envio de uma seleção só com jogadores brancos para a Copa de 1966 e uma só com jogadores negros para a Copa de 1970, se recusando a enviar uma seleção com jogadores brancos e negros. O país só seria aceito novamente na FIFA em 1992.
Antes mesmo da FIFA tomar uma atitude, um time brasileiro teve que lidar com a segregação na África do Sul. Em 1959, a Portuguesa Santista fazia uma excursão pela África, com jogos planejados em Moçambique, em Angola e na África do Sul. Porém, em uma das partidas na África do Sul, as autoridades locais afirmaram que os três jogadores negros do time não poderiam entrar em campo, devido ao regime de segregação racial. O time preferiu não jogar a atender a absurda demanda das autoridades sul-africanas.
6. 1986: Os custos de uma Copa do Mundo
Em 1974, a Colômbia foi escolhida para ser a sede da Copa do Mundo de 1986. Porém, a escolha gerou polêmicas internas no país devido ao alto custo provocado pelas exigências da FIFA. A situação ficou ainda mais grave quando a FIFA aumentou o número de seleções participantes a partir da Copa do Mundo de 1982, com o formato mais longo colocando ainda mais pressão financeira no governo colombiano. Em outubro de 1982, o governo anunciou que não poderia sediar o evento, afirmando não haver sequer tempo para atender às “extravagâncias” da FIFA.
As absurdas exigências da FIFA eram:
- 12 estádios com capacidade de 40 mil pessoas para a primeira fase
- 4 estádios com capacidade de 60 mil pessoas para a segunda fase
- 2 estádios com capacidade de 80 mil pessoas para a primeira e para a última partida
- Instalação de uma torre de comunicação em Bogotá
- Congelamento de todas tarifas de hotéis a partir de 01/01/1986
- Legalização da circulação de moeda estrangeira no país
- Uma frota de limusines à disposição dos executivos da FIFA
- Uma rede de transporte ferroviária entre as cidades sede
- Aeroportos com a capacidade de aceitar pousos de jatos em todas as sedes
- Uma rede de estradas que permita o fácil deslocamento dos fãs
Essa situação deu início às discussões públicas sobre as polêmicas exigências da FIFA, especialmente no que diz respeito à construção de estádios que serão utilizados poucas vezes e que não têm como ser mantidos por times ou outras entidades. Ao fim, a Copa de 1986 foi realizada no México, mas essa polêmica segue até os dias atuais. O assunto voltou a ser tratado na Copa do Mundo de 2010 e na Copa do Mundo de 2014, sediadas na África do Sul e no Brasil, países que poderiam ter outras prioridades em termos de investimento público.
Também foi nesse mundial que Maradona fez o infame gol da Mão de Deus.
7. 1990: Duas questões de honestidade e fair play
A Copa do Mundo de 1990, sediada na Itália, ocorreu sem maiores problemas, mas o caminho até ela foi marcado por alguns eventos polêmicos.
Em 1988, foi descoberto que o México havia escalado pelo menos quatro jogadores acima da idade permitida no Campeonato da CONCACAF Sub-20 daquele ano. Esse é um torneio classificatório para o Mundial Sub-20, e o México havia conseguido conquistar uma das vagas. Porém, após a descoberta da fraude, a FIFA baniu todos os times do México de competições internacionais até 01/07/1990. Consequentemente, a seleção mexicana ficou de fora da Copa de 1990. O caso ficou conhecido como Escândalo dos Cachirules.
Já em 1989, o Brasil parou para assistir a uma importante partida das Eliminatórias da Copa. Valendo uma vaga na Copa de 1990, Brasil e Chile se enfrentavam no Maracanã, com o Chile tendo uma ligeira desvantagem devido ao saldo gols. Aos 22 minutos do segundo tempo, com o Chile perdendo de 1-0, o goleiro chileno Roberto Rojas fingiu ter sido atingido por um rojão lançado pela torcida brasileira e cortou o próprio rosto com lâmina de barbear que estava escondida em sua luva. O incidente ficou conhecido como o Caso Rojas e levou à desclassificação do Chile e ao banimento de Rojas do futebol profissional.
Seu banimento foi suspendido em 2001, quando voltou a atuar como treinador de goleiros e até como técnico do São Paulo.
Já a torcedora que lançou o rojão que foi parar a alguns metros de Rojas foi identificada e presa pela polícia, se tornando imediatamente famosa e chegando a posar nua para a Playboy naquele mesmo ano.
Para completar, esse jogo das eliminatórias no Brasil também pode ter contribuído para um desastre aéreo que deixou vários mortos. O acidente do voo Varig 254 foi causado por um erro quando um dos pilotos configurou um vetor incorreto na aeronave, tendo como causa raiz uma grafia ambígua de um valor no plano de voo fornecido pela companhia. Indo na direção errada e sem querer pedir ajuda da torre, os pilotos tentaram se guiar por rádios comerciais locais, mas todas elas transmitiam o jogo do Brasil.
8. 2018: Escolha um problema…
Em 2010, a Rússia foi escolhida como sede da Copa do Mundo de 2018, mas muitas polêmicas surgiriam nos anos seguintes à votação.
Para começar, houve questionamentos sobre a capacidade das autoridade de garantir a segurança dos fãs diante da cultura de racismo e homofobia presente no país. Em 2013, foi aprovada a chamada lei anti-gay, que proíbe a representação da comunidade LGBTQ+ como parte normal da sociedade russa. Além disso, havia preocupações em relação à liberdade de expressão e aos direitos humanos no país, com manifestantes pacíficos sendo reprimidos violentamente e presos de forma arbitrária.
Em 2014, a Rússia aproveitou um turbulento momento político da Ucrânia e anexou ilegalmente a região da Crimeia, o que foi amplamente condenado pela comunidade internacional. No mesmo ano, grupos terroristas islâmicos passaram a ameaçar a realização de ataques na Rússia, motivados pelo apoio do país ao presidente da Síria durante a Guerra Civil Síria, iniciada em 2011.
Já as denúncias de compra de votos para a escolha da Rússia como sede da Copa de 2018 e do Catar como sede da Copa do Mundo de 2022 fizeram eclodir um novo escândalo, levando a Football Association da Inglaterra a ameaçar um boicote ao torneio. Depois que várias investigações independentes foram criticadas por ignorar os fatos e não apontar irregularidades, uma investigação do FBI e de outras entidades legais dos Estados Unidos resultou em vários indiciamentos e condenações de membros da FIFA e de outros envolvidos.
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Agora, só nos resta esperar que dê tudo certo na Copa do Mundo de 2026 e que acidentes, eventos naturais e a situação geopolítica do mundo não ameace a Copa do Mundo de 2030, que marcará 100 anos da existência desse torneio internacional.




