Crítica – Backrooms: Um Não-Lugar

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Backrooms, EUA, 2026



Trailer · Letterboxd · IMDB · RottenTomatoes

★★★★☆


Há vários elementos de terror e de ficção científica bem familiares em Backrooms: Um Não-Lugar, mas ainda assim o filme consegue estabelecer a sua própria identidade. A ideia de uma dimensão misteriosa e inquietante composta por salas sem fim, que surgiu em 2019 em fóruns online, é recheada com terrores inspirados na psicologia humana. Combinados com uma ambientação nos anos 1990, esses elementos maximizam o desconforto do espectador enquanto nos remetem para alguns dos cantos escuros das nossas próprias mentes.

backrooms protagonista de costas andando em um corredor amarelo com uma seção escura

Na prática, o primeiro espaço liminar ou não-lugar mostrado em Backrooms é o da loja de móveis pertencente a Clark (Chiwetel Ejiofor). Com suas salas de estar, cozinhas e quartos pré-montados, o ambiente da loja contrasta a frieza e o distanciamento de um galpão de armazenamento com a familiaridade de ambientes decorados para parecerem intimistas e aconchegantes. Para que aquelas salas e quartos espalhadas pela loja realmente se tornem salas e quartos, os clientes precisam imaginá-las em outros lugares, completando-as com as próprias ideias e projetando nelas as suas próprias experiências.

Paralelamente, as reflexões da terapeuta Mary (Renate Reinsve) e suas consultas com Clark vão desde o início estabelecendo a temática central do filme. Em suas fitas K7 de auto-ajuda, ela fala sobre o fato de que nós estamos sempre presos nos ciclos de mentalidade e comportamento que são estabelecidos conforme nós amadurecemos. Assim, enquanto estamos sempre tentando repetir as experiências positivas do passado, nós acabamos recorrendo ou recaindo nas mesmas escolhas e nos mesmos comportamentos que nos trouxeram até o momento atual. É apenas quando enxergamos o ciclo e fazemos um esforço real no sentido de interrompê-lo que conseguimos viver novas experiências e verdadeiramente superar o passado.

Essa temática pode nos remeter aos comentários filosóficos feitos pelo personagem Rust Cohle (Matthew McConaughey) na primeira temporada de True Detective, fazendo referência à “sala trancada” na qual todos nós vivemos. Sobre isso, o criador da série comentou em uma entrevista:

[O episódio] se refere ao tipo de mistério que parece, em sua superfície, não possuir solução. E essa definição da sala trancada se traduz nas digressões metafísicas de Cohle, que diz que a sua vida são as coisas pela qual você passa, e, mais do que isso, é o que você pensa sobre essas coisas. E isso acontece dentro da sua cabeça, e a sua cabeça é uma sala trancada. Ninguém nunca vai entrar nessa cabeça, ou morar nessa sala, ou ver as coisas que essa pessoa vê.

Pode-se dizer que é justamente essa “sala trancada” que os personagens de Backrooms projetam nos ambientes e corredores vazios da inexplicável dimensão que eles encontram por acidente. Ali, suas memórias são concretizadas com toda a imprecisão e distorção inerentes ao funcionamento do nosso cérebro, dando origem a um labirinto formado por lugares e por rostos parcialmente lembrados e que estão sendo consumidos pelas forças do esquecimento.

backrooms um não-lugar renate

Na dimensão apresentada em Backrooms, os personagens também são confrontados com os aspectos mais tóxicos e problemáticos de suas psiques. No caso de Clark, ele encontra o “monstro” que representa a sua raiva acumulada e a sua tendência a não se responsabilizar pelos acontecimentos em sua vida. Para ele, a culpa sempre é dos outros, como se as escolhas que ele fez e ainda faz não tivessem influência sobre a sua atual situação. Dessa forma, ele sempre encontra vilões para culpar pelos problemas e pelas frustrações em sua vida, e nunca precisa refletir sobre as consequências das próprias ações ou reconsiderar o próprio comportamento.

Porém, quando fica preso nessa dimensão inexplicável, Clark não pode mais ignorar o “monstro” que existia apenas em sua “sala trancada”. Ele até tenta manter a ilusão de que está no controle e de que pode negociar com a criatura, mas a realidade não é tão simples. Depois de passar a vida inteira tentando escapar de si próprio, Clark de repente está diante de uma manifestação física de seu lado mais sombrio.

No mais, a estética e a abordagem de Backrooms nos remete a séries como Black Mirror e Arquivo 81, enquanto seu clima de pesadelo real nos lembra filmes sobre o mundo dos sonhos, como A Cela e A Origem. Também é possível encontrar paralelos com filmes de terror e ficção científica como O Enigma do Horizonte, Esfera, Cubo e Triângulo do Medo. Mesmo com todas essas referências, o filme não é um mero derivado, mas sim um novo item nessa lista de terrores psicológicos.

Vale notar que, com apenas 20 anos de idade, o diretor Kane Parsons mostra uma mão firme e um estilo promissor. Mesmo que tenha tido a ajuda de vários de seus produtores e assistentes de direção, o resultado final evidencia a sua capacidade de concretizar em longa-metragem uma visão que começou em fóruns da Internet e em vídeos do YouTube. Com a experiência acumulada nesse primeiro trabalho, ele já pode pensar em alçar voos ainda mais ousados e em refinar ainda mais a sua voz autoral.

Por fim, a temática de Backrooms: Um Não-Lugar mais uma vez me leva para o inesquecível monólogo de abertura da segunda temporada de Legion, que combina muito bem com o filme:

Há um labirinto no deserto, construído na areia e na pedra. Um vasto labirinto de caminhos e corredores com centenas de metros de comprimento e mais de mil metros de largura. Cheio de voltas e caminhos sem saída.

Imagine-o.

Um enigma pelo qual você pode andar. No fim desse labirinto, há um prêmio esperando para ser descoberto. Tudo o que você tem que fazer é chegar lá.

Você consegue enxergar o labirinto? Suas paredes, seu chão, suas voltas e curvas? Ótimo, pois o labirinto que você criou em sua mente também é, ele mesmo, um labirinto. Não há deserto, nem pedras ou areia. Existe apenas a ideia dele. Mas é uma ideia que vai dominar cada momento de sua vida. Você está dentro do labirinto agora. Não pode escapar.

Seja bem-vindo à loucura.


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