Crítica: Histórico Criminal – 2ª Temporada
Criminal Record, Reino Unido, 2024/2026
Apple TV · Trailer · Filmow · IMDB · RottenTomatoes
★★★★☆
Apesar de ainda ser essencialmente um drama policial, a segunda temporada de Histórico Criminal vem acompanhada de vários elementos mais comuns em tramas de espionagem. Com um agente infiltrado sendo o pivô de uma investigação anti-terrorista, a série chega a lembrar o trabalho do aclamado escritor de espionagem John Le Carré, especialmente em obras como O Homem Mais Procurado e O Gerente da Noite. Essa comparação fica ainda mais válida se levarmos em conta o tom tão realista quanto pessimista dessa temporada.
Como história de detetive, a segunda temporada de Histórico Criminal se assemelha a produções como The Fall e Millie Black, inclusive recorrendo a alguns dos mesmos clichês. O principal deles é do detetive problemático que não consegue conciliar sua alta eficácia no trabalho com sua vida pessoal, sendo incapaz de manter uma vida familiar ou amorosa saudável. Aqui, é a detetive June Lenker (Cush Jumbo) que se encaixa nesse padrão, já que seu foco no trabalho segue causando ainda mais desentendimentos com seu esposo e com seu filho adolescente.
Mesmo se encaixando em um clichê, a situação de Lenker ainda serve para refletir a pressão e o sentimento de culpa que podem afetar os agentes da lei que lidam com acontecimentos violentos e traumáticos em sua vida profissional.
Já o inspetor-chefe Daniel Hegarty (Peter Capaldi), que foi o principal antagonista de Lenker na primeira temporada, é caracterizado dessa vez como espécie de mestre-espião. Ele é o responsável por recrutar o jovem presidiário Billy Fielding (Luther Ford) para se infiltrar no grupo de extrema-direita liderado por Cosmo Thompson (Dustin Demri-Burns), um influencer que espalha teorias da conspiração e ideias racistas e xenófobas em plataformas online. A suspeita de Hegarty é que o grupo liderado pelo influencer está em posse de detonadores que podem ser utilizados em ataques terroristas.
A colaboração e a antipatia entre Lenker e Hegarty mais uma vez servem para que os ótimos roteiros explorem os limites legais e morais da atuação da polícia. Enquanto Lenker tenta se manter fiel aos preceitos da justiça e do processo legal, Hegarty mais uma vez faz uso de mentiras e manipulações para atingir seus objetivos, chegando a cometer injustiças no cumprimento de seu dever. Na prática, ele não se vê como um defensor da justiça, mas sim como um protetor da ordem e da segurança pública diante de ameaças que podem mergulhar a sociedade em um cenário de puro caos.
Assim, é extremamente apropriado que nessa temporada Lenker e Hegarty estejam diante de uma ameaça que realmente desafia as capacidades e os métodos dos defensores da lei. Mesmo antes de se tornar uma ameaça terrorista crível, o grupo liderado por Cosmo Thompson já provoca danos na ordem social ao incitar o racismo, a xenofobia e a desconfiança em relação ao poder público. Porém, ao tentar manter ou recuperar a confiança da população, o poder público também acaba cometendo erros que servem para alimentar teoristas da conspiração e outros tipos de oportunistas.
Desde a primeira temporada de Histórico Criminal fica claro que Hegarty entende que a ordem social emana, em parte, da percepção da sociedade de que existe uma ordem a ser mantida. É justamente essa percepção que Cosmo busca desgastar, investindo em um discurso preconceituoso e extremista para instaurar o caos e para obter ganhos de curto prazo. De forma similar ao que é feito pelos influencers mostrados no documentário Por Dentro da Machosfera, ele se aproveita da insatisfação e do desamparo de uma parte da população para culpar a outra parte por todos os problemas (ou pela suposta decadência) do país e da sociedade.
O discurso de Cosmo é tão sedutor que balança a convicção do próprio Billy, especialmente quando ele se sente abandonado pelas autoridades que o tiraram da prisão e o recrutaram para se infiltrar no pequeno grupo. Com essa situação, a trama tenta representar a realidade de muitos jovens que se sentem abandonados pelo sistema e que são “acolhidos” por grupos extremistas, sejam os de extrema direita, os de supremacismo racial ou os de radicalismo religioso (como o radicalismo islâmico).
Mas as motivações de Cosmo não são tão “políticas” quanto parece. Além dos ganhos financeiros obtidos por meio das plataformas online, ele demonstra estar sexualmente atraído por Billy. Esse aspecto pode parecer exagerado, mas ele é respaldado pelo comportamento de figuras semelhantes na vida real. Tanto os líderes de grupos extremistas quanto os de seitas abusivas tendem a utilizar a influência que possuem sobre os seus seguidores para obter vantagens financeiras e sexuais, utilizando ideologias políticas ou religiosas como meras ferramentas de controle e manipulação.
Coincidentemente, o último episódio dessa temporada de Histórico Criminal foi lançado na mesma semana em que grupos mascarados promoveram ataques violentos contra imigrantes em Belfast, na Irlanda do Norte. Utilizando como pretexto um crime brutal cometido por um imigrante sudanês, os “manifestantes” chegaram a apedrejar e a incendiar as casas e outras propriedades de imigrantes que não possuem nenhuma relação com o caso. Os ataques chegaram a lembrar os violentos pogroms sofridos principalmente por judeus ao longo da História.
Além disso, os ataques em Belfast foram incentivados nas mídias sociais por influencers que possuem várias semelhanças com o personagem da série.
De forma tão inteligente quanto eletrizante, os oito episódios da segunda temporada de Histórico Criminal conseguem equilibrar muito bem a abordagem desses temas e os dramas pessoais dos personagens. A trama sempre se preocupa em levantar questões relevantes na vida real e em manter um sóbrio senso de realismo, indo além do mero entretenimento e provocando reflexões profundas sobre a psicologia humana e o futuro das nossas sociedades.

