Demolidor: Renascido e Politicamente Angustiante

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A segunda temporada de Demolidor: Renascido aperta o cerco ao redor do protagonista de uma forma que chega a ser perturbadora. Ao invés de se limitar a mostrar um herói tentando derrotar um vilão, a trama serve como uma alegoria para eventos do mundo real, continuando com o forte elemento político estabelecido na primeira temporada. Consequentemente, essa é uma série que pode ser muito mais “estressante” do que “divertida” para uma boa parte do público.

cena de demolidor renascido com vários personagens em uma sala

Se tivesse sido lançada até o início dos anos 2010, Demolidor: Renascido seria considerada uma série distópica, pessimista e até mesmo exagerada, imaginando um futuro sombrio para uma Nova York gerenciada por um prefeito autoritário e de natureza fascista. Porém, os elementos de autoritarismo colocados na tela representam um mero reflexo do noticiário nacional dos Estados Unidos do segundo governo Trump.

Assim como o ICE na vida real, a “Força Tarefa Anti-Vigilantes” (AVTF) criada pelo prefeito Wilson Fisk (Vincent D’Onofrio) age à revelia da lei e sob a suposta autoridade de um altamente questionável tribunal de exceção.

O fortalecimento do ICE sob Trump ocorreu sob a justificativa de que imigrantes ilegais estavam espalhando o crime pelo país. Porém, a organização passou a perseguir imigrantes ilegais em geral e até mesmo pessoas que estavam passando pelo processo de legalização. Segundo o próprio governo, mais de 100 mil vistos estudantis e green cards foram revogados desde o início do atual mandato. Muitos americanos esperavam que essas medidas afetassem apenas imigrantes com antecedentes criminais, mas as novas medidas também afetaram pessoas que cometeram pequenos delitos ou que criticaram a política externa dos EUA ou de Israel.

Há também os vários casos de turistas que estão tentando entrar ou sair do país e acabam passando várias semanas presos nos centros de detenção do ICE. Enquanto isso, publicações oficiais do governo Trump nas redes sociais ecoam mensagens supremacistas brancas.

Em Demolidor: Renascido, a AVTF é enviada para prender ou matar não apenas vigilantes, mas também qualquer pessoa que se oponha ou que represente uma ameaça ao poder autoritário do prefeito. Fisk afirma amar a cidade de Nova York e querer vê-la prosperar, o que pode ser perfeitamente verdade. O problema é que, por causa de suas boas intenções combinadas com suas tendências autoritárias, ele se acha no direito de utilizar a máquina pública para atacar os seus inimigos e para acobertar esquemas de corrupção que o deixam pessoalmente mais rico.

Na vida real, estima-se que Donaldo Trump ficou vários bilhões de dólares mais rico ao longo de seus dois mandatos presidenciais, conforme artigos aqui e aqui.

Assim, o que poderia ser uma escapista fantasia de super-heróis ou uma pessimista previsão para o futuro acaba sendo uma história que lembra o espectador de alguns dos terrores políticos da vida real. As semelhanças entre Fisk e Trump já foram apontadas em diversos vídeos e publicações, como aqui e aqui (em inglês).

demolidor renascido

O que também torna a segunda temporada de Demolidor: Renascido angustiante é o fato de que, aparentemente, não há muito o que Matt Murdock/Demolidor (Charlie Cox) possa fazer, seja como advogado criminalista ou como herói mascarado. Com o aparato estatal e com parte da opinião pública contra ele e seus aliados, o espectador pode ficar com a impressão de que Murdock está travando uma batalha perdida. Dessa vez, nem seus argumentos legais e nem as suas incríveis habilidades em artes marciais parecem ser suficientes contra um status quo que quer vê-lo destruído.

Talvez esse incômodo seja causado pela percepção de que, no mundo real, a resistência montada e liderada por Murdock e Karen (Deborah Ann Woll) não teria chances realistas de fazer alguma diferença. O objetivo dos personagens é expor a corrupção por trás do discurso moralista e focado em segurança pública com o qual Fisk conquista o apoio de parte da população. Porém, eles correm o risco de que, mesmo que a corrupção de Fisk seja exposta, parte de seus apoiadores leais irão continuar adorando-o de forma irracional.

Um exemplo disso está na terapeuta Heather Glenn (Margarita Levieva), uma personagem traumatizada que busca um refúgio no círculo interno de apoiadores do prefeito. Depois de ser atacada por um serial killer mascarado na primeira temporada, ela encontra no discurso de Fisk uma sensação de proteção e segurança. Isso está em pleno acordo com a lógica fascista, na qual pessoas adultas, assustadas e desamparadas buscam apoiar figuras protetoras e autoritárias, que se assemelham ao papel paterno na vida de uma criança.

Ainda assim, o roteiro do episódio final da segunda temporada encontra uma saída amparada no estado de direito para a complicada situação dos personagens. Graças a um sacrifício pessoal feito por Murdock e a pressões externas vindas de autoridades estaduais e federais, tanto o tribunal de exceção criado por Fisk quanto sua posição como prefeito se tornam politicamente insustentáveis. Além disso, a parte da população que não está sob o “encanto” do prefeito protagoniza grandes protestos de rua, chegando a lembrar alguns do momentos mais marcantes do filme V de Vingança.

Na vida real, grandes protestos já ocorreram contra Trump, mas a oposição vinda do Partido Democrata parece não ter a capacidade ou o intuito de realmente se opor ao atual poder executivo.

Além da temática política, Demolidor: Renascido também conta com fantásticas cenas de ação e com envolventes dramas pessoais. Em meio a tudo isso, Matt Murdock ainda precisa controlar os seus impulsos e mostrar clemência e perdão pelo vilão Mercenário/Benjamin Poindexter (Wilson Bethel), um criminoso cruel que assassinou o seu melhor amigo. Com a fé cristã sendo uma das bases de sua criação, Murdock se mantém íntegro ao não abandonar seus valores de justiça, compaixão e misericórdia, características que também servem para combater a lógica fascista de impiedade, senso de superioridade e desumanização.


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