The Pitt: O Abismo Olha de Volta

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* Contém SPOILERS da segunda temporada de The Pitt

E se você olhar por tempo demais para dentro de um abismo, o abismo também olhará para dentro de você.

Friedrich Nietzsche, Além do Bem e do Mal (1886)

Ao invés de ser marcada por algum grande acontecimento dramático, a segunda temporada de The Pitt está muito mais interessada em ir acumulando a pressão sobre os personagens até o ponto no qual vários deles chegam aos seus limites. Dessa forma, a série vai além de mostrar os personagens tendo atitudes heroicas em momentos de crise, ressaltando o que a falta de saúde mental e o cansaço são capazes de fazer com pessoas que normalmente se comportariam de formas extremamente profissionais.

Essa nova abordagem eleva a qualidade do drama e, na minha opinião, torna essa segunda temporada superior à primeira. Ao invés de serem testados por um grande evento exterior, como o tiroteio em massa que marcou a primeira, dessa vez são as questões internas e pessoais que desafiam a maioria dos personagens. Infelizmente, uma grande parte (ou uma parte mais barulhenta) da audiência torceu o nariz para essa abordagem, já que ela não oferece as “recompensas” e resoluções convencionais que se espera de outros tipos de narrativa.

Obviamente, The Pitt é assistida por pessoas com diferentes níveis de maturidade. Para algumas delas, ainda é impossível assistir a uma série ou a um filme sem escolher personagens favoritos, sem torcer por prováveis (ou improváveis) casais ou sem escolher um “vilão” para odiar ou um inimigo para derrotar. Dessa forma, enquanto a série tenta realçar a complexidade das relações interpessoais entre pessoas altamente maduras em um ambiente altamente estressante, parte do público está mais preocupada com quem deveria namorar com quem ou com quem é o “vilão” da história.

Isso é algo que vai além da empatia que é comum que o espectador sinta pelos personagens, se tornando muito mais uma projeção de sua própria psique sobre eles. Assim, parte do trabalho realizado pelos roteiristas, pelos diretores e pelos atores acaba sendo ignorado por essa parte do público, que está menos interessada nas questões sociais, políticas e psicológicas levantadas pela trama e mais focada em ter seus anseios pessoais atendidos e suas fantasias alimentadas.

Quando uma série como The Pitt tenta mostrar seres humanos de forma realista, com suas qualidades e defeitos e seus bons e maus momentos, então essa parte do público pode ficar confusa e até se sentir traída pela trama ou pelos personagens. Esses espectadores também querem resoluções bem amarradas para cada uma das subtramas apresentadas, apesar da estrutura da série praticamente inviabilizar isso. Os quinze episódios da temporada cobrem um intervalo de quinze horas, sendo que a maioria dos problemas e casos médicos apresentados só terão algum tipo de desfecho ao longo de dias, semanas ou meses.

Essa é uma narrativa que se encaixa no estilo slice of life, no qual a história se limita a apresentar uma determinada janela de acontecimentos e simplesmente deixa de mostrá-los em determinado ponto. Exemplares disso podem ser vistos em filmes como O Chef e Dias Perfeitos. Geralmente, não há um gran finale ou um grande momento de superação, mas apenas a certeza de que, de alguma forma, a vida segue em frente.

O grande candidato a “vilão” dessa temporada de The Pitt é o protagonista Dr. Michael Robinavitch/Robby (Noah Wyle). Prestes a sair em um período sabático de três meses, ele é desde a primeira temporada uma referência de profissionalismo, experiência e liderança, conduzindo o dia a dia do pronto socorro de forma tão eficiente quanto empática. Porém, dessa vez, seu comportamento vai ficando cada vez mais impaciente e agressivo ao longo dos episódios, ficando claro tanto para o espectador quanto para os outros personagens que algo não está bem com ele.

Essa instabilidade na pessoa que está na liderança do ambiente de trabalho acaba sendo cascateada para as pessoas que ela lidera, se tornando mais um ponto de pressão sobre trabalhadores que já se sentem pressionados o suficiente. Por exemplo, a estudante Victoria Javadi (Shabana Azeez) e a doutora Samira Mohan (Supriya Ganesh) já sofrem com as pressões vindas de suas famílias e da necessidade de decidirem quais caminhos traçarem no futuro. Em determinados pontos, as formas com as quais Robby lida com elas ficam bem abaixo do ideal.

Já a doutora Mel King (Taylor Dearden) precisa depor em um processo aberto contra o hospital e também precisa lidar com uma grande mudança na dinâmica do relacionamento com sua irmã, que tem necessidades especiais. Por sua vez, o doutor Frank Langdon (Patrick Ball) está de volta ao hospital depois de ter sido demitido devido ao seu vício em analgésicos, que agora parece estar sob controle. A volta de Langdon e a chegada da doutora Baran Al-Hashimi (Sepideh Moafi), futura substituta de Robby, colocam uma pressão extra sobre a doutora Trinity Santos (Isa Briones), que preferiria não ter que lidar com nenhum dos dois.

Além disso, a temporada se passa durante o feriado de 4 de julho, um dia no qual é garantido que o hospital receberá casos de pessoas que se machucaram durante as comemorações da Independência dos EUA, o que envolve muitos fogos de artifício. Para completar, há inclusive uma indisponibilidade dos sistemas computacionais durante o dia, exigindo que a equipe volte a operar de forma completamente analógica, o que não deve acontecer há décadas.

Conforme o caos vai se acumulando ao longo desse plantão, a situação mental de todos os personagens vai se deteriorando, levando a vários momentos que podem surpreender o espectador. Essa é uma ótima forma de lembrar que nós seres humanos somos bem inconstantes; ninguém é uma máquina que funciona de forma consistente e previsível durante 100% do tempo; nós temos dias bons, dias ruins e algumas fases mais complicadas que outras; e, às vezes, mesmo a mais madura das pessoas pode ter atitudes imaturas.

Até a inabalável enfermeira-chefe Dana Evans (Katherine LaNasa) parece estar prestes a ceder sob a pressão, especialmente devido aos ataques sofridos por alguns de seus enfermeiros e por sua preocupação com o estado mental de Robby.

Seria fácil para a trama de The Pitt tentar explicar que os problemas de Robby são originários de um trauma específico que, de alguma forma, definiria o personagem. Ao invés disso, a trama exibe o seu comportamento problemático e vai revelando as várias camadas por trás dele. Também fica claro que esse não é um comportamento que começou exatamente nesse dia, com várias pessoas dando a entender que já faz um tempo que ele está diferente.

Não se trata apenas das cicatrizes psicológicas causadas pelo seu trabalho durante a pandemia de COVID-19, durante a qual ele perdeu seu querido mentor. Não é apenas a pressão causada pela impressão de que ele é um dos pilares daquele pronto socorro. Não são apenas as imensas responsabilidades que ele carrega e as decisões de vida ou morte que ele precisa tomar durante cada plantão. Não são apenas as muitas pessoas que ele viu morrer ao longo de sua carreira. E não é apenas a sua aparente dificuldade em se comprometer com um relacionamento de longo prazo.

É tudo isso combinado e acumulado ao longo dos anos. O trauma de abandono que ele revela nos momentos finais do último episódio da temporada pode explicar o seu estilo de apego evitativo e a sua facilidade em ser uma pessoa independente e autossuficiente. Dessa forma, é compreensível que ele esteja dentre o grande número de pessoas que nunca tiveram ou nunca conseguiram manter um relacionamento amoroso de longo prazo. Recentemente, escrevi sobre isso em um artigo sobre incels, solteironas e Eleanor Rigby.

Talvez o trabalho no pronto socorro tenha sido a sua grande escapatória dessas limitações pessoais, servindo não apenas como um propósito de vida, mas também como uma forma de se manter ocupado e de não lidar com suas próprias questões emocionais. O profissionalismo e o rigor ético do ambiente de trabalho o manteve engajado com outros seres humanos enquanto não exigia que ele rompesse as barreiras emocionais que havia criado enquanto crescia.

Agora, ele precisa de uma escapatória desse caótico ambiente de trabalho, mas não possui uma vida pessoal saudável para a qual escapar. É como se Robby tivesse criado uma armadilha para si próprio, ficando preso entre uma vida pessoal insatisfatória e um trabalho que ele ama mas que o traumatizou múltiplas vezes. É por isso que várias pessoas percebem que ele não pretende voltar do período sabático e não pretende sobreviver à longa viagem de moto que ele tem planejada.

E é aí que The Pitt aborda o tema da ideação do suicídio. Não é que Robby esteja anunciando que pretende se matar, mas seu comportamento vai dando sinais de alerta para as pessoas que o conhecem bem. Por exemplo, a cena inicial da segunda temporada o mostra chegando para trabalhar, de moto e sem capacete. Informalmente, nos EUA, muitos profissionais de saúde chamam as motos de “máquinas de doadores de órgãos”, pois é comum que os acidentes que envolvem esse tipo de veículo causem a morte cerebral de seus ocupantes enquanto a maior parte dos demais órgãos ficam intactos.

Ao invés de uma rota de fuga, Robby deveria estar em busca de um caminho para o equilíbrio. Ele é um médico extremamente talentoso e ainda pode fazer a diferença em muitas vidas, mas isso não quer dizer que ele precise ignorar, ou mesmo ressentir, as suas necessidades pessoais. Por mais que sua vida não tenha se tornado o que ele esperava, não adianta ficar em constante estado de luto pelas coisas que jamais aconteceram e pelos sonhos que jamais se concretizaram. Ao invés de permanecer olhando fixamente para o fundo do abismo, sua maior preocupação deveria estar no futuro que ele ainda pode construir.

Além das temáticas citadas anteriormente, o pronto socorro de The Pitt continua servindo como um reflexo das grandes questões políticas e sociais que moldam a realidade dos EUA no momento atual. Os problemas pessoais desses personagens não estão isolados das consequências dos altos custos da saúde no país, das tendências anticiência dos órgãos sanitários e das políticas de perseguição a imigrantes. Nesse contexto, e nesse feriado de 4 de julho em particular, a série tenta oferecer um pouco de luz e esperança em momento sombrio e pessimista.


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