Crítica – Brasil 70: A Saga do Tri
Brasil 70: A Saga do Tri, Brasil, 2026
Netflix · Trailer · Letterboxd · IMDB · RottenTomatoes
★★★★★
Ao invés de um documentário, os realizadores da minissérie Brasil 70: A Saga do Tri escolheram recriar o drama, o suspense e até o terror da trajetória da seleção brasileira durante a Copa do Mundo de 1970. De forma quase inacreditável, a narrativa mistura História e ficção para recriar com sucesso e com intensidade a experiência de acompanhar aquela lendária equipe naquele inesquecível momento. Sem deixar de lado os aspectos políticos daquela trajetória, a obra acaba sendo não apenas uma homenagem, mas também um monumento para aqueles jogadores e para a relação do povo brasileiro com o futebol.
Um dos aspectos que mais impressionam nos cinco episódios de Brasil 70 é a atenção dada aos detalhes, seja na escalação de atores que se parecem com as pessoas reais, seja na recriação de lances lendários ou seja na recriação do Brasil e do México de 1970. Esse nível de fidelidade não é apenas um item de luxo, mas também um dos ingredientes fundamentais na reprodução das sensações e das emoções que cercaram aquela Copa do Mundo. Todos os aspectos cinematográficos (fotografia, edição, direção de som, trilho sonora, atuações, etc.) se combinam para proporcionar ao espectador uma experiência com cores vivas, sons inconfundíveis e uma ambientação absurdamente nostálgica.
Parte dessa recriação chega a lembrar filmes recentes como Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto, já que a trama também expõe os elementos políticos daquele evento esportivo. Enquanto a ditadura militar brasileira tentava utilizar a seleção como uma ferramenta de propaganda, o técnico e jornalista de esquerda João Saldanha (Rodrigo Santoro) tenta realçar que aquele time e aqueles símbolos não pertencem a um governo ou a um campo político, mas sim ao povo brasileiro. Impulsivo, esquentado e desbocado, Saldanha acaba sendo demitido da seleção e substituído pelo supersticioso Zagallo (Bruno Mazzeo), que foi quem conduziu o time ao tricampeonato mundial.
Brasil 70 também brilha ao representar o nível de pressão que os jogadores e que a comissão técnica precisavam suportar e gerenciar. Jogar contra outras seleções de primeira linha é uma coisa; mas jogar contra elas enquanto milhões e milhões de pessoas ao redor do mundo estão assistindo é algo muito mais intenso e amedrontador. Uma das escolhas mais ousadas e mais acertadas feitas pelos realizadores da minissérie foi a de utilizar elementos de terror e de eventos sobrenaturais para representar a pressão psicológica causada pelo “fantasma” do Maracanaço, algo que aterroriza alguns dos membros da comissão técnica antes de uma decisiva partida contra o Uruguai.
Enquanto em alguns momentos a narrativa mantém uma distância quase documental dos acontecimentos, em outros ela tenta mergulhar nas experiências pessoais dos jogadores e de outros envolvidos. É o caso, por exemplo, do goleiro Félix (Hugo Haddad), que precisa lidar com diferentes tipos de pressão, sejam as que vêm da comissão técnica, as que vêm do “fantasma” do Maracanaço ou as que vêm da sua família. Não se trata apenas da imagem que o país tem dele e de como ele entrará para a História, mas também da imagem que sua filha pequena está formando sobre o pai e de como isso afetará o relacionamento entre eles. É um nível de pressão quase indescritível.
Em termos de pressão, talvez nada supere a experiência vivida pelo Rei do Futebol, Pelé (Lucas Agrícola). O peso que ele sentia dentro de campo era apenas um pequeno componente da pressão geral que havia sobre ele. O regime militar, o cartola João Havelange (Nelson Baskeville), o ex-técnico João Saldanha, seus companheiros de equipe, sua família; todos depositam nele algum tipo de expectativa enquanto ele ainda está lidando com um trauma de infância e com os traumas de não ter conseguido jogar as Copas anteriores até o fim.
O documentário Pelé, lançado em 2021 pela Netflix, deixa clara a sua tendência de tentar agradar a todos e jamais contrariar ninguém, o que, paradoxalmente, faz com que ele desagrade a várias pessoas. Essa passividade o mantém longe de polêmicas e o torna um ótimo garoto propaganda para muitas marcas, levando-o a se tornar uma figura midiática de alcance global. Talvez foi por isso que ele aprendeu a navegar as muitas expectativas colocadas sobre ele, se mantendo longe de assuntos que pudessem prejudicar a sua marca pessoal e seus muitos contratos na área de publicidade.
Para efeito comparativo, vale a pena conferir o documentário Neymar: O Caos Perfeito, que mostra um pouco desse lado da carreira futebolística nos dias atuais. Recentemente, a marca Rei Pelé foi comprada pela NR Sports, empresa que gerencia a carreira e a imagem pública de Neymar.
Talvez Brasil 70 vá longe demais ao mostrar uma suposta reconciliação entre Pelé e João Saldanha, o que nunca ficou claro se realmente aconteceu na vida real. Publicamente, os dois se tratavam de forma profissional e chegaram a fazer comentários positivos um sobre o outro. Porém, Pelé ainda mostrava um pouco de ressentimento ao falar sobre Saldanha no documentário de 2021. O fato é que as cenas entre Saldanha e Pelé e entre Saldanha e Zagallo são algumas das mais inspiradoras da minissérie atual, servindo para capturar o espírito de garra e superação que a trama está tentando transmitir.
Assim, fica claro que o documentário Brasil 70: A Saga do Tri está muito mais interessado no mito da Copa de 1970 do que em detalhes que podem ou não ser verdade. Seja na trajetória de Saldanha durante o torneio ou seja no casal de torcedores que viaja para o México, a trama não está tentando transmitir meros fatos, mas sim reproduzir uma experiência coletiva ocorrida há quase sessenta anos. E ela é muito bem sucedida nisso, sendo capaz de deixar o espectador apreensivo e emocionado por lances, por jogos e por uma Copa do Mundo cujos desfechos nós já sabemos há várias décadas.
A abordagem nos lembra a famosa frase dita por um jornalista no final do faroeste O Homem que Matou o Facínora: “Quando a lenda se torna fato, publique-se a lenda”.


