Crítica: Invencível – 4ª Temporada
Invincible, EUA, 2021 –
Prime Video · Trailer · Filmow · IMDB · RottenTomatoes
★★★★☆
A guerra contra os viltrumitas finalmente chega durante a quarta temporada de Invencível, e ela não nos decepciona. Essa nova temporada contém alguns dos melhores episódios da série, seja em termos de ação, de construção de mundo ou de profundidade psicológica. Mesmo em meio a uma violência brutal, os dramas humanos ainda conseguem se sobressair. A grande diferença é que, dessa vez, o pessimismo prevalece mesmo diante das várias vitórias conquistadas pelos heróis.
Um dos grandes destaques das temporadas anteriores de Invencível é o processo de amadurecimento do protagonista Mark Grayson/Invencível (Steven Yeun), focando muito mais na formação da sua personalidade do que no progresso de sua força e de sua agilidade como super-herói. Porém, dessa vez, há muito menos aprendizado e muito mais traumas paralisantes na vida do personagem, causando uma progressiva deterioração de sua psique.
Nos episódios iniciais, ele ainda está lidando com as situações traumáticas que havia vivido na temporada anterior. Dados os muitos estragos e as muitas mortes causadas por um vilão que ele havia deixado sobreviver, Mark agora está disposto a ir até o fim e eliminar qualquer ameaça mais séria de forma definitiva. Mas essa nova disposição para matar seus adversários o deixa em um conflito moral e o faz questionar a própria identidade. Sua preocupação principal é que ele passe a enxergar a vida humana com a mesma indiferença que levou seu pai, Nolan (J.K. Simmons), a matar milhares de pessoas apenas para ilustrar um argumento no final da primeira temporada.
Mais uma vez, ele tem a percepção de que está se distanciando do herói que gostaria de ser. Além disso, ele começa a se sentir culpado pela própria existência, já que fica com a impressão de que nenhuma das grandes catástrofes que vêm acontecendo desde o início da série teriam ocorrido se ele não existisse e se não tivesse desenvolvido os mesmos superpoderes que o seu pai. Esse é um raciocínio que não faz sentido, pois ele não escolheu existir e nem pode se responsabilizar pelas escolhas de outras pessoas, mas isso ainda é algo que pesa em seu estado mental.
No final da quarta temporada, depois de encontros ainda mais traumáticos com os vilões Conquest (Jeffrey Dean Morgan) e Thragg (Lee Pace), Mark fica em um estado psicológico absurdamente fragilizado, com a culpa, o medo e a sensação de impotência provocando pequenos episódios de ataque de pânico e um claro quadro de estresse pós-traumático. O episódio final o deixa em uma situação impossível, na qual ele tem tudo a perder e não há nada que ele possa fazer para reverter a situação.
Como nas outras temporadas de Invencível, não há aqui grandes vitórias triunfantes ou grandes momentos de superação, mas apenas batalhas violentas e cruéis que têm resultados insatisfatórios tanto para os derrotados quanto para os vencedores. A diferença é que dessa vez também não há nenhum grande aprendizado, mas sim grandes cicatrizes psicológicas que alteram a natureza dos sobreviventes e que os obrigam a fazer escolhas que, até pouco tempo antes, pareciam inimagináveis.
A quarta temporada de Invencível também surpreende ao mostrar os viltrumitas como um povo marcado por grandes tragédias, todas elas causadas por suas aspirações imperialistas. Extremamente poderosos e tecnologicamente avançados, eles poderiam construir um império com base na diplomacia e na cooperação, beneficiando as populações de inúmeros planetas em sua zona de influência. Ao invés disso, eles preferem subjugar e escravizar inúmeros outros povos, se considerando superiores e no direito de determinar o destino de outras civilizações.
Sem esses impulsos imperialistas, várias tragédias não teriam ocorrido: o imperador Argall (Frank Welker) não teria sido assassinado por um dissidente que discordava da crueldade viltrumita; o Grande Expurgo não teria diminuído a população viltrumita drasticamente; o vírus do Flagelo não os teria deixado à beira da extinção; e, por fim, o planeta Viltrum não teria sido complemente destruído. Veja que todas essas tragédias são causadas por fatores internos ao império, sendo resultantes de decisões tomadas por viltrumitas fiéis ou opositores ao militarismo vigente.
Esse é um desenvolvimento que encontra paralelos na História da humanidade, já que grandes regimes autoritários geralmente acabam sendo consumidos pela própria incapacidade de funcionar de forma equilibrada e sustentável. O artigo intitulado The Paradox of Power: How Authoritarian Systems Self-Destruct Through Bad Leadership (O Paradoxo do Poder: Como Sistemas Autoritários se Autodestroem por Meio de Liderança Ruim) lista alguns fatores que levam a essa conclusão. Alguns deles são:
- Priorização da lealdade sobre a competência, com o líder autoritário priorizando a seleção de pessoas leais em detrimento de pessoas capacitadas para ajudá-lo na condução do país. No caso de Viltrum, o Grande Expurgo pode ter selecionado os mais fortes guerreiros, mas também pode ter eliminado os melhores estrategistas, cientistas e engenheiros dentre os viltrumitas.
- Liderança inquestionável, o que garante que qualquer decisão equivocada tomada pelo líder absoluto não seja corrigida e tenha seus efeitos negativos maximizados. Os liderados também podem ficar com medo de dar notícias ruins ou de apresentar dados que não estão alinhados com a visão do líder, o que pode deixá-lo cada vez mais desconectado da realidade.
- Ciclo de declínio, no qual a rigidez ideológica e a resistência à mudança fazem com que a sociedade autoritária se torne incapaz de se adaptar às circunstâncias e de realizar correções em sua trajetória. Em Invencível, é possível ver isso na liderança de Thragg, que parece estar há séculos preso na ideia de um imperialismo viltrumita, não estando disposto a enxergar outros futuros possíveis para o seu povo.
Dentre outros desenvolvimentos, essa acaba sendo a melhor temporada de Invencível até o momento, com as violentas batalhas se equilibrando muito bem com as temáticas abordadas na trama. Além disso, o final da temporada deixa o espectador ansioso pelo o que está por vir, já que a nova realidade apresentada abre as portas para temporadas bem diferentes das anteriores. O império viltrumita não é mais uma ameaça distante com a qual os personagens terão que se preocupar em algum ponto do futuro. Agora, os viltrumitas representam um perigo real e imediato que passará a fazer parte do dia a dia dos personagens.

