Crítica – Louis Theroux: Por Dentro da Machosfera

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Louis Theroux: Inside the Manosphere, Reino Unido/EUA, 2026



Netflix · Trailer · Letterboxd · IMDB · RottenTomatoes

★★★★☆


O mergulho que o documentarista Louis Theroux faz na chamada “machosfera” pode não ser tão profundo quanto muitos gostariam, mas ainda assim consegue ser extremamente revelador. Os dois principais méritos de Louis Theroux: Por Dentro da Machosfera são 1) trazer para a superfície o tipo de conteúdo que muitas crianças e adolescentes estão consumindo na Internet e 2) mostrar o quão simples e previsível é o mecanismo por trás dessa aparente máquina de misoginia e radicalização.

Louis Theroux: Por Dentro da Machosfera

Em 2025, a série Adolescência surpreendeu muitos espectadores ao mostrar o quão devastadora a cultura online pode ser nas vidas de adolescentes e pré-adolescentes. Ainda assim, a trama abordou os conteúdos online apenas de relance, ficando mais focada nos dramas dos personagens envolvidos na história. Nesse documentário, Theroux vai em busca e entrevista algumas das figuras centrais do lado mais tóxico e radical desse ecossistema virtual.

Ao permitir que eles falem livremente ao longo das entrevistas, o apresentador também permite que o perfil de cada um desses influenciadores seja revelado por eles próprios. Figuras como HSTikkyTokky, Ed Matthews, Justin Waller, Sneako e Myron Gaines vão apresentando suas ideias e filosofias de forma relativamente eloquente e confiante, o que não impede que suas fragilidades e contradições fiquem à mostra.

O que encontramos por trás de toda a bravata, toda a ostentação e todo o discurso de ódio e superioridade são apenas homens traumatizados e inescrupulosos que encontraram uma forma de ganhar dinheiro na Internet. O extremismo e a misoginia não representam um objetivo final, mas são as ferramentas que eles encontraram para se diferenciar em um mercado repleto de influenciadores e de pessoas que estão tentando atingir algum tipo (ou qualquer tipo) de fama e reconhecimento.

As lógicas que eles apresentam não são muito diferentes das lógicas apresentadas por golpistas, por produtores de notícias falsas e por líderes de seitas, por exemplo. Eles oferecem conselhos de vida, oportunidades de investimento, informações privilegiadas e outros tipos de “salvação” que, de um jeito ou de outro, vão levar seus seguidores a lhes enviarem dinheiro ou lhes ajudar a ter outros tipos de renda.

Enquanto promovem questionáveis plataformas de investimento, eles embolsam dinheiro imediatamente por meio de comissões sobre os valores investidos, em um tipo de prática abusiva semelhante às mostradas no filme O Lobo de Wall Street. Para vários deles, a coisa toda é, antes de mais nada, uma performance. Eles falam tudo o que sua base de seguidores quer escutar e não se responsabilizam por quaisquer consequências negativas que isso possa ter.

Loius Theroux: Por Dentro da Machosfera HSTikkyTokky

Mas Loius Theroux: Por Dentro da Machosfera também mostra que esses influenciadores estão atendendo a uma demanda genuína que existe dentre muitos jovens que se sentem perdidos e desamparados. Assim como o terrorismo islâmico promete glória e salvação para seus “mártires” suicidas, a “machosfera” faz promessas de riqueza, respeito e dominação sobre mulheres para jovens homens que se sentem inseguros e deslocados em suas próprias vidas.

Pressões econômicas, convenções sociais restritivas e dramas pessoais (como frustrações amorosas) criam situações para as quais muitos jovens não estão preparados. Como não encontram apoio e orientação na vida familiar, na vida social ou em políticas públicas, eles acabam recorrendo a esses influenciadores digitais, que parecem ser as únicas pessoas que estão reconhecendo as suas aflições e oferecendo respostas para as suas atribulações. Enquanto parte da sociedade os repreende e os vilaniza, os influenciadores da “machosfera” se apresentam como libertadores e como modelos de masculinidade.

E assim, jovens inseguros e cheios de incertezas acabam seguindo conselhos de vida vindos de homens superficiais e imaturos, além de incrivelmente inescrupulosos. Os próprios influenciadores sabem que o conteúdo que eles produzem não deve ser levado tão a sério assim, mas também não se importam ou se responsabilizam com os efeitos que esse material pode ter sobre pessoas que estão passando por momentos formativos de suas personalidades ou lidando com situações que os deixam mentalmente fragilizados.

Pessoas mais maduras e experientes vão enxergar com facilidade que esses influenciadores não são inteligentes ou sofisticados, mas apenas “gênios” do marketing online que estão produzindo conteúdo para ganhar dinheiro. Isso também vale para várias das mulheres mostradas em Por Dentro da Machosfera, que “investem” em colaborações com esses influenciadores para tentar atrair seguidores e gerar engajamento em suas próprias redes sociais. Para todos eles, não parece haver limites no que estão dispostos a fazer na busca por engajamento.

No geral, apesar de movimentarem bastante dinheiro, nenhum deles está realmente produzindo algum tipo de riqueza ou colaborando para um verdadeiro desenvolvimento econômico. Ao seguirem seus conselhos, seus seguidores estão deixando de construir um futuro e abrindo mão de viver a vida de uma forma equilibrada e saudável.

Louis Theroux: Por Dentro da Machosfera

Também é curioso notar como esses influenciadores apresentam a sociedade em geral como uma “matrix” da qual os jovens homens precisam se libertar. Esse é um discurso de rebeldia que esconde uma realidade de conformismo e submissão, com muitos desses seguidores tentando se mostrar seguros e independentes ao se vestirem do mesmo jeito, terem os mesmos cortes de cabelo, consumirem os mesmos tipos de produtos e se comportarem da mesma forma em relação às mulheres.

A proposta de “rebeldia” desses influenciadores parece ser: sejam diferentes e façam exatamente o que eu disser para vocês fazerem; comprem os produtos que eu recomendo utilizando os links patrocinados ou os códigos promocionais que eu disponibilizo; engajem com o meu conteúdo e façam doações em minhas plataformas de crowdfunding. Ao fim, é semelhante ao modus operandi de seitas abusivas, que precisam afastar suas vítimas do mundo real para diminuírem suas capacidades de pensamento crítico e de questionarem o “mestre”.

No geral, toda essa situação apresentada em Louis Theroux: Por Dentro da Machosfera parece ser “apenas” mais um desdobramento dos alertas feitos no documentário O Dilema das Redes. A lógica da economia da atenção já faz estragos por meio da influência sobre eleições (documentário Privacidade Hackeada), do consumismo desenfreado (documentário A Conspiração Consumista) e do uso irresponsável de ferramentas de “inteligência artificial”, como nos casos em que algumas pessoas criaram “religiões” com o ChatGPT.

Dessa forma, a “machosfera” acaba sendo apenas mais uma faceta de um mundo que vai se transformando de forma imprevisível bem diante dos nossos olhos. Porém, vale lembrar que todos nós podemos ser agentes dessas mudanças e influenciadores do futuro que vai se desenhando.


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