Eleições 2026: Um Voto pelas Garantias que Ainda Temos
No dia 4 de novembro de 2003, o então deputado estadual do Rio de Janeiro Flávio Bolsonaro homenageou nove policiais militares do estado, apontando a “dedicação, brilhantismo e galhardia” com a qual eles serviam a população. Dentre eles estavam Adriano da Nóbrega e Fabricio Queiroz, figuras que seriam protagonistas de grandes escândalos quinze anos depois.
Questionado sobre isso recentemente na sabatina da Rede Globo, o agora candidato a Presidência da República Flávio Bolsonaro afirmou que homenageou Adriano em um momento no qual não havia nada contra o policial, que seria um profissional exemplar na condução de sua função. Porém, o grupo do qual Adriano fazia parte já era conhecido como a “guarnição do mal” e seria preso logo após a homenagem. Segundo essa matéria de 2020 do jornal O Globo:
Após a homenagem, num período de cerca de um mês, Adriano e os mesmos colegas do Grupamento de Ações Táticas (GAT) se envolveram no sequestro, tortura e extorsão de três jovens da favela de Parada de Lucas, na Zona Norte. Até que, em 27 de novembro daquele ano, eles foram apontados como os executores do morador Leandro dos Santos Silva, de 24 anos. (…)
Mesmo diante da prisão dos policiais, dias depois das moções, Flávio Bolsonaro não sustou as homenagens. No dia 24 de outubro de 2005, os PMs foram condenados em primeira instância. Quatro dias depois, o presidente Jair Bolsonaro, então deputado federal, discursou na Câmara em defesa de Adriano — descrito como “um brilhante oficial”.
Posteriormente, o júri que condenou os policiais foi anulado, e eles acabaram absolvidos, mesmo diante de provas técnicas apresentadas pelo Ministério Público.
Esse foi apenas o início de uma grande maré de azar vivida por Flávio, já que vários dos policiais que ele homenageou acabariam sendo presos posteriormente. Um levantamento feito pela revista Piauí em 2019 revelou que:
Entre 2003 e 2018, o filho mais velho do presidente Jair Bolsonaro aprovou moções e medalhas para pelo menos 23 policiais e militares que são réus na Justiça ou foram condenados por crimes diversos, que vão do homicídio à lavagem de dinheiro, organização criminosa ou fraudes em licitações. São dezenove policiais militares, três policiais civis e um tenente-coronel da reserva do Exército. Desses, seis foram condenados, e dois estão presos. (…) Na maioria dos casos, os indiciamentos e as punições ocorreram depois de os policiais terem sido homenageados por Flávio Bolsonaro.
Enquanto Flávio era “vítima” dessa série de coincidências, os dois primeiros mandatos do presidente Luís Inácio Lula da Silva representaram um marco divisor de águas no desenvolvimento social do Brasil. Programas como o Fome Zero e o Bolsa Família mudaram a realidade de uma parte da população que se encontrava desde os tempos coloniais em um inexorável ciclo de pobreza.
Porém, esses governos de Lula também seriam marcados por grandes escândalos de corrupção, sendo o principal deles o Mensalão. Posteriormente, o petista também seria investigado e condenado por ter relações inapropriadas com grandes construtoras do país, das quais teria recebido propina na forma de um triplex no Guarujá e da reforma de um sítio em Atibaia. Posteriormente, sua condenação foi anulada devido a problemas processuais e à suspeição do então juiz Sergio Moro.
Ao invés de permanecer acima de qualquer suspeita, Moro tomou decisões que inviabilizaram a participação de Lula na Eleição de 2018 e se tornaria ministro do vencedor Jair Bolsonaro já em 2019. Moro ainda era Ministro da Justiça quando Bolsonaro começou a tomar medidas para enfraquecer e encerrar a Operação Lava Jato.
No final de 2018, o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) identificou movimentações suspeitas por parte do ex-policial militar Fabricio Queiroz, que foi um dos homenageados por Flávio Bolsonaro. Queiroz era então motorista de Flávio, que também empregava outros membros da família do ex-policial. Isso deu início a uma série de revelações sobre a vida financeira de Flávio e da família Bolsonaro.
Por exemplo, a família pagou parcialmente ou totalmente em dinheiro vivo por 51 imóveis, de um total de 107 transações imobiliárias realizadas ao longo de 30 anos. Além disso, o Ministério Público do Rio de Janeiro suspeitava que Flávio utilizou o dinheiro de rachadinha para financiar prédios erguidos pela milícia no estado.
Também surgiu o caso da misteriosa loja de chocolates de propriedade de Flávio, que entre 2015 e 2018 recebeu uma grande quantidade de depósitos em dinheiro, fracionados de uma forma que não levantariam as suspeitas dos órgãos monitoradores do sistema financeiro. Também chamou a atenção do Ministério Público o fato de que os valores recebidos pela loja não variavam da forma esperada na época da Páscoa:
O Ministério Público do Rio (MP-RJ) identificou um aspecto inusitado na movimentação financeira da loja de chocolates, que tem Flavio Bolsonaro como sócio: as vendas da Páscoa não influenciaram no valor dos depósitos em espécie. Apesar do período mencionado representar o pico das vendas do segmento de chocolates, segundo o MP, este aumento não refletiu sobre os depósitos em dinheiro. Os registros indicam inclusive que, em outros meses, as quantias chegaram a ser maiores do que no período da Páscoa.
Flávio também empregou familiares do então miliciano Adriano da Nóbrega, conforme é comentado no vídeo abaixo, de 22 de janeiro de 2019:
As revelações feitas sobre Flávio levaram o então Presidente da República Jair Bolsonaro a enfraquecer o Coaf, o que, segundo Sergio Moro, ocorreu porque o governo tinha medo de outras descobertas que o órgão poderia fazer. O órgão só voltou a sua estrutura anterior no início do terceiro mandato de Lula, em 2023, além de ter sido ampliado no início de 2026.
As descobertas feitas pelo órgão jamais resultaram em condenações contra Flávio Bolsonaro. Já o seu relacionamento com o miliciano Adriano da Nóbrega parece ter se tornado irrelevante depois da morte do criminoso em 2020.
Em seu terceiro mandato, Lula também deu início à regulamentação das empresas de apostas no país, as chamadas bets. Esse tipo de operação foi legalizada em dezembro de 2018, no último mês do governo de Michel Temer.
Durante os quatro anos do governo de Jair Bolsonaro, nenhuma medida foi tomada no sentido da regulamentação e as bets cresceram de forma desordenada e predatória no país. Muitos milhares de pessoas passaram a apostar de forma impulsiva, resultando em histórias trágicas e em muitos casos do transtorno conhecido como ludopatia. Durante o governo Lula, 56 mil sites ilegais de bets já saíram do ar e foi lançada a ferramenta de autoexclusão, que permite que os usuários bloqueiem o próprio acesso nas plataformas legalizadas.
Esse mais recente mandato de Lula também resultou em quedas expressivas nos índices de desmatamento da Amazônia e de outros biomas nacionais. O governo anterior, de Jair Bolsonaro, havia enfraquecido significativamente a defesa do meio ambiente e atingido níveis historicamente altos de desmatamento.
Enquanto o governo Lula realizava essas conquistas, Flávio Bolsonaro e outros membros de sua família estavam ocupados tentando costurar alianças com o presidentes dos EUA Donald Trump. Flávio chegou a agradecer a Trump quando ele anunciou novas tarifas contra o Brasil em 2025.
Além disso, tanto Trump quanto outros membros do governo dos EUA já afirmaram que consideram o sistema de pagamentos Pix “injusto” com as empresas de cartão originárias do país, como a Visa e a Mastercard. Um relatório de 2026 chegou a propor mais tarifas contra produtos brasileiros utilizando a existência do Pix como justificativa.
Flávio Bolsonaro já se distanciou dessas medidas e tentou defender o sistema de pagamentos diante de Trump. Porém, o mais provável é que o presidente americano pressionará para que Flávio coloque “freios” no Pix caso seja eleito. Esses “freios” podem ser tanto a cobrança de taxas quanto a diminuição da disponibilidade dessa modalidade de pagamento pelos bancos que operam no país, o que hoje é obrigatório. Vale lembrar que, por enquanto, quaisquer mudanças no Pix não passam de especulação.
Recentemente, foi revelada a existência de um documento no qual aliados de Flávio Bolsonaro (ou talvez o próprio Flávio) propõem uma parceria com os EUA na exploração de minerais de terras raras no Brasil. A proposta em si não parece ser desvantajosa, mas revela que o candidato (ou seus aliados) já está fazendo ofertas secretas ao governo dos EUA, provavelmente para contar cada vez mais com o apoio de Trump durante a eleição de 2026.
Esse é o tipo de coisa que não inspira muito otimismo em relação ao futuro do Pix caso Flávio seja eleito presidente. Pessoalmente, eu não estou disposto a fazer essa “aposta”.
Diante de tudo isso, a possibilidade de um quarto governo Lula vai ficando cada vez mais lógica e mais desejável. Em condições normais, seria possível argumentar que Lula já deu tudo o que tinha para dar e que está na hora de algo diferente, apesar das conquistas alcançadas em seu terceiro mandato. Porém, se esse “diferente” for um político cujo maior mérito é ser filho do presidente anterior e que ao longo das últimas décadas colecionou estranhas conexões com milicianos e com o banqueiro Daniel Vorcaro, então é melhor ficar com a opção mais segura e garantida.
* Esse post representa a opinião do Blog Infinitividades e não recebeu nenhum tipo de financiamento.
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