As Vantagens e os Limites do Capitalismo

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No geral, o sistema capitalista representa uma forma de coordenação e cooperação tão válida quanto qualquer outra ao longo da História da humanidade. Por mais que tenha a competitividade e a busca por ganhos individuais em sua base, esse sistema oferece mecanismos de troca e de produção de riqueza que evitam grandes conflitos e grandes ineficiências na distribuição de recursos. Porém, nos últimos anos, os mesmos mecanismos que o tornaram bem-sucedido estão levando a uma corrosão interna desse sistema, independente das críticas e da oposição oferecidas pelas ideologias de esquerda.

homem bem vestido diante do horizonte de xangai

Homem diante do horizonte da cidade de Xangai. Fonte: Pexels.

Historicamente, a busca pelo lucro leva empreendedores a desenvolverem novos produtos e a oferecerem novos serviços. Em um ambiente de livre concorrência, isso incentiva a inovação e o barateamento dos preços, de acordo com a lei da oferta e demanda. Obviamente, esse sistema só funciona de forma saudável e equilibrada se os produtores e distribuidores não recorrerem a práticas de concorrência desleal.

Tanto o consumo quanto o trabalho assalariado podem ser considerados trocas voluntárias que trazem benefícios para os dois lados. O produtor/vendedor oferece produtos e serviços pelos quais ele é pago, o que representa um retorno por seu investimento e por seu risco; por outro lado, o consumidor que pagou pelo produto ou serviço pode usufruir de sua aquisição. De forma análoga, o empregador paga pela força de trabalho do empregado, que, por sua vez, faz uso de seu salário para consumir produtos e serviços.

Apesar de ainda sofrer com altos índices de desigualdade, o capitalismo também representou ganhos em termos de mobilidade social e possibilitou o surgimento da chamada classe média. As pessoas nesse nível não são nem ricas e nem pobres, tendo poder aquisitivo suficiente para ir além da própria subsistência e para consumir produtos e experiências voltados à cultura e ao lazer. Pelos mais diversos motivos, isso nem sempre foi possível ao longo da História da humanidade.

Porém, os mecanismos econômicos característicos do capitalismo podem ser empregados de forma predatória, como quando pessoas se tornam dependentes de produtos viciantes. Por exemplo, tanto a cocaína quanto anestésicos baseados em opioides foram desenvolvidos pela indústria farmacêutica e divulgados como remédios seguros para serem utilizados de forma quase indiscriminada. Uma vez que o potencial viciante foi descoberto, organizações criminosas passaram a oferecer esses produtos nas ruas.

Há também o recente caso das apostas online, que podem ter efeitos questionáveis mesmo quando as pessoas não se tornam patologicamente viciadas. Enquanto em outras relações comerciais ocorre uma troca de produtos ou serviços, no caso das apostas as empresas estão simplesmente convencendo os “clientes” a lhe entregarem dinheiro a troco de nada. O jogador pode até ter a ilusão de que aquilo é um investimento ou de que um dia aquelas apostas vão compensar, mas os mecanismos por trás dessas transações foram feitos para garantir o lucro das empresas, e não os ganhos das vítimas.

Talvez a questão seja que a mesma competitividade que leva empreendedores a desenvolverem novos produtos e a tentarem oferecer preços mais baixos acabe levando a distorções no sistema capitalista com o passar do tempo. Vários exemplos disso podem ser observados nas últimas décadas, especialmente nas distorções causadas pelo mercado de ações e pelos fundos de capital privado.

A ideia do mercado de ações é que pequenos e grandes investidores possam comprar pequenas partes de grandes empresas, se tornando “sócios” delas. Dessa forma, as empresas conseguem levantar mais capital para desenvolver novos produtos ou expandir sua operação, enquanto os investidores podem receber como retorno uma fatia dos lucros obtidos. Consequentemente, o valor de cada ação unitária pode flutuar de acordo com o interesse do mercado nela (mais uma vez, a lei da oferta e demanda), enquanto o valor de mercado da empresa como um todo pode flutuar de acordo com a flutuação das ações.

Isso significa que o CEO e outros líderes precisam gerenciar não apenas os fatores internos das operações das empresas, mas também a imagem da organização diante do público. Notícias ruins podem diminuir o interesse nas ações, o que diminui o valor de mercado da companhia.

Esse mecanismo pode gerar distorções quando a liderança gasta mais energia gerenciando a imagem pública da empresa do que a operação da empresa em si.

Foi uma distorção como essa que provocou o declínio da fabricante de aviões Boeing, mostrado nos documentários da Netflix Queda Livre: A Tragédia do Caso Boeing e Queda Livre: As Consequências do Caso Boeing. Depois de anos construindo uma reputação de confiança, segurança e qualidade, a empresa foi comprada por pessoas que estavam mais interessadas em publicar números positivos para valorizar as ações (ou “maximizar o retorno para os acionistas”) do que em garantir lucros por meio de produtos e serviços de alta qualidade. A cultura de excelência em engenharia foi substituída por uma cultura de pressa e corte de custos, o que resultou nas mortes de centenas de pessoas em acidentes aéreos.

Já os fundos de capital privado estão se tornando infames por aplicar técnicas ainda mais agressivas e destruírem negócios de sucesso em prol de retornos volumosos no curto prazo. A promessa desses fundos é que eles estão comprando empresas para otimizar suas operações e melhorar o retorno para os investidores. Porém, é comum que eles adotem as práticas a seguir para obter lucros sem ter que gerenciar um negócio:

  • Depois de comprar uma empresa com a ajuda de um financiamento significativo, o fundo coloca essa dívida no balanço da empresa comprada. Consequentemente, a empresa imediatamente sofre a pressão dos pagamentos desse empréstimo, sendo obrigada a comprometer a sua própria saúde financeira.
  • Se houver a oportunidade de ganhos no curto prazo, o fundo também irá vender ativos valiosos da empresa e obrigá-la a depender de aluguel ou de ainda mais fornecedores para continuar operando. Há casos nos quais a empresa passa alugar o prédio que possuía ou a contratar um fornecedor que antes era uma parte da própria empresa (o que ocorreu com a Boeing).
  • Se o retorno da empresa não estiver satisfatório, o fundo comprador pode levá-la a fazer novos empréstimos, aumentando ainda mais a pressão sobre o caixa da companhia. Esses empréstimos não são utilizados para investir no crescimento ou na operação, mas sim para pagar dividendos aos investidores, como se fossem lucros, o que deixa a empresa em uma situação ainda mais complicada.
  • Além disso, o fundo ainda cobra taxas de consultoria ou de transação que drenam ainda mais o caixa da empresa comprada, independente da performance estar boa ou ruim.
  • Nesse ponto, o fundo começa a cortar custos de forma tão agressiva quanto insustentável, demitindo pessoas e reduzindo significativamente a qualidade dos produtos ou dos serviços oferecidos. Isso causa um artificial aumento da lucratividade, enquanto a reputação da empresa diante dos clientes vai ficando cada vez pior.

O fundo ainda pode abrir o capital da empresa (ou seja, colocá-la no mercado de ações) para tentar recuperar a situação, o que pode ser dificultado pelas perdas de reputação e de credibilidade. O mais comum é que a empresa declare falência e o fundo fique com os ganhos obtidos no curto prazo. Enquanto isso, funcionários e clientes que dependiam da operação da companhia ficam a ver navios, nulificando a função social que empresa possuía.

Além disso, há indústrias que estão cada vez mais focadas em prover experiências premium para clientes privilegiados, enquanto se tornam inviáveis para a classe média e para outras classes que estão na base da pirâmide social. Uma das facetas dessa tendência é a da gentrificação, fenômeno que torna certas áreas urbanas caras demais para os tipos de famílias que viveram nelas por várias décadas. É possível que setores inteiros de várias economias passem por mudanças similares, o que deixaria milhões de pessoas sem condições de pagar pela própria moradia ou pela própria subsistência.

Essa é uma situação que está ficando cada vez mais grave tanto nos EUA quanto em muitos outros países, nos quais uma pessoa com um emprego razoável não é capaz de comprar um imóvel ou mesmo de pagar um aluguel para manter um teto sobre a sua cabeça. Na Europa, já ocorrem protestos contra o turismo de massa e contra os imigrantes abastados que encarecem o custo de vida para a população local.

Um exemplos disso é o advento do Airbnb, que significou estadias mais baratas para muitos turistas, mas que também significou a escassez e o encarecimento de imóveis que poderiam ser alugados pela população. Junto com a já existente especulação imobiliária, os imóveis estão cada vez mais sendo vistos como fonte de lucro do que como fonte de abrigo e de estabilidade, nos quais as famílias poderiam criar os seus filhos e viveriam momentos de felicidade.

Isso nos leva à pergunta: para onde o capitalismo vai se ele já não for capaz de prover uma vida decente para a maior parte da população? As liberdades econômicas providas por esse sistema só podem ter efeitos positivos se as pessoas agirem de forma ética e sustentável, enxergando os efeitos de suas decisões para além de ganhos pessoais no curto prazo. Tanto o capitalismo quanto quaisquer outros sistemas econômicos só são viáveis na medida em que as pessoas levem em conta não apenas os próprios ganhos, mas também os ganhos para as suas comunidades.


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