Lioness: A Última Palavra em Paranoia e Autossabotagem
Os jogos de espionagem estão ainda mais afiados na terceira temporada de Operação Lioness (ou apenas Lioness, como o Paramount+ está divulgando a série agora), com uma trama que mais uma vez ressalta algumas das técnicas reais utilizadas nesse mundo de segredos e manipulações. Porém, enquanto as cenas de ação continuam de primeira linha, o conteúdo ideológico dá uma guinada em uma direção tão inesperada quanto anacrônica. Talvez o criador Taylor Sheridan esteja perdido na ideologia, ou talvez ele utilize um enquadramento que seja familiar para seu público-alvo, com o intuito de entregar uma mensagem bem mais importante.
Assim como a segunda temporada de Operação Lioness tem início com um episódio focado na ação, a terceira começa com um episódio que é praticamente um filme de guerra. A trama tenta colocar o espectador na linha de frente da Guerra da Ucrânia, mostrando uma realidade que combina as trincheiras típicas da Primeira Guerra Mundial com as tecnologias avançadas do Século 21, especialmente no que diz respeito ao uso de imagens de satélite e de drones controlados remotamente. Esse é um episódio que realça tanto a adrenalina quanto o terror desse novo tipo de conflito.
Os eventos desse primeiro episódio vão reverberar pelo restante da temporada, que se passa em duas linhas do tempo separadas. Logo após a ação na Ucrânia, a protagonista Joe (Zoe Saldaña) é atacada em sua casa por dois agentes que parecem desconhecer a sua real posição como agente de campo, o que resulta na morte deles e no início de uma implacável caçada a espiões estrangeiros em solo americano. Com a ajuda da agente dupla ucraniana Oleksandra Balakin (Elizaveta Neretin), a equipe de Joe desmonta uma ampla rede de espionagem que havia sido montada pela inteligência russa.
Na outra linha do tempo, ambientada seis meses depois da ação na Ucrânia, Joe mais uma vez é atacada em sua casa, resultando em seu sequestro por operadores altamente treinados e com muitos recursos a sua disposição. Essa linha narrativa é focada na corrida contra o tempo para localizarem Joe antes que ela seja transportada para fora do país e tenha um destino infernal nas mãos de algum dos vários adversários dos Estados Unidos.
Ao longo dos episódios, o espectador acompanha não apenas a ação, mas também as conversas estratégicas que ocorrem nos altos escalões do poder nos EUA. É aí que Sheridan, que é o roteirista dos oito episódios, revela os cenários de ameaça com os quais ele parece estar preocupado na vida real. Um grande problema nesse sentido é que ele enquadra essas ameaças de acordo com uma lógica anticomunista, como se adversários como a Rússia, a China e o Irã estivessem tentando impor um determinado modelo sócioeconômico nos EUA.
Em determinado ponto, Joe explica para sua família que ela está lutando pelo “estilo de vida” dos EUA, como se o país ainda estivesse lidando com a estratégia expansionista do comunismo da União Soviética. Porém, a realidade é que países como a Rússia e a China já estão bem afastados daquele modelo, enquanto o Irã está muito mais interessado em ser uma potência regional do que uma potência mundial. Esses três países possuem governos autoritários, mas mesmo o “comunismo” da China já está muito mais próximo de um capitalismo de Estado.
Para esses países, é muito mais interessante diminuir o poder e a influência dos EUA no cenário global do que influenciar o “estilo de vida” do cidadão americano. Para a China, por exemplo, é importante que a lógica consumista dos EUA se mantenha, já que o país é um dos grandes mercados de destino para os produtos chineses. Para a Rússia e para o Irã é muito mais interessante que as autoridades americanas fiquem tão preocupadas com os problemas internos do país que deixem de lado as influências que exerce externamente, abrindo espaço para essas outras potências ampliarem suas áreas de influência sem a oposição dos Estados Unidos.
Produções como o documentário Agentes do Caos e a série A Fronteira Oriental mostram um pouco de como a Rússia atua nesse sentido, desestabilizando internamente os países sobre os quais ela quer exercer influência. A técnica, é claro, já foi amplamente utilizada pela CIA durante a Guerra Fria, quando a agência ajudou a instalar inúmeros governos ditatoriais que seriam obedientes às doutrinas dos EUA.
Além disso, o “estilo de vida” que Joe afirma estar defendendo é extremamente questionável para uma grande quantidade de americanos. De acordo com dados de 2024, mais de 10% da população do país vive abaixo da linha da pobreza. Historicamente, o país tem os índices de pobreza mais altos dentre os países desenvolvidos. Para preservar o famoso “estilo de vida” dos EUA, faria mais sentido Joe e o governos do país combaterem os fatores que causam essa situação e garantir que todos os cidadãos têm motivos reais para defender a nação, já que esse desequilíbrio social apenas facilita os esforços de desestabilização de agentes estrangeiros.
Porém, ao invés de chamar a atenção para essa situação, Joe fica extremamente irritada com um professor universitário de esquerda que está colaborando com os adversários do país. Ao apontar a hipocrisia do acadêmico, que acumula alguns milhões de dólares em bens móveis e imóveis, ela tenta caracterizar toda a esquerda do país como um grupo tão privilegiado quanto ingrato ao sistema capitalista. O que não fica claro é a posição dela (ou a posição de Sheridan) sobre os milhões de pessoas que estão na pobreza ou que podem cair nela a qualquer momento.
No mundo real, é possível dizer que as principais ameaças ao posicionamento dos EUA no cenário global vêm de fatores internos. Ao impor tarifas arbitrárias a produtos estrangeiros, perseguir imigrantes ilegais (e até legais) como se todos fossem criminosos e começar um conflito armado inexplicável contra o Irã, o atual governo de Donald Trump mostra que não sabe fazer uso de todo poderio militar, econômico e cultural que o país acumulou ao longo dos últimos 100 anos.
Por exemplo, um fator que manteve o regime teocrático do Irã em xeque ao longo das últimas décadas foi a ameaça de uma ação militar direta dos EUA; porém, agora que essa ação já se concretizou e que os EUA não conseguiram obter uma vitória inquestionável, o regime de Teerã acabou ficando ainda mais ousado do que antes. Além disso, os ataques dos EUA fazem com que mesmo os opositores internos do regime apoiem, ainda que temporariamente, as ações dos aiatolás.
O caso da China é ainda mais gritante, já que a grande ascensão econômica do país ao longo das últimas décadas ocorreu em grande parte devido às decisões tomadas pelo setor privado dos EUA. Em busca de mão de obra mais barata e de um ambiente sem sindicatos independentes (todos os sindicatos da China são afiliados a uma única central sindical, que responde ao Partido Comunista Chinês e pode ter líderes indicados pelas empresas), o empresariado dos EUA passou décadas transferindo empregos para a China e enfraquecendo a capacidade produtiva local.
Agora, as autoridades dos EUA tratam a China como uma potência hostil, quando na realidade os chineses estão apenas fazendo uso do poder que lhes foi entregue ao longo das últimas décadas. O documentário Indústria Americana evidencia alguns dos conflitos econômicos e culturais causados por esse deslocamento de poder econômico. É verdade que a China emprega técnicas de espionagem para obter segredos industriais das empresas dos EUA, mas ela está longe de ser o “bicho-papão” que essa e outras séries tentam representar.
Indo além, é possível dizer que a equipe de Joe e seus superiores também colaboram para a corrosão da estabilidade interna do país. Ao agirem cada vez mais às margens da lei e sempre contando com exceções legais que os deixam em áreas cinzentas, as medidas tomadas por eles vão ganhando contornos cada vez mais autoritários. Ao utilizar a brutalidade e arbitrariedade de seus opositores para justificar a brutalidade e a arbitrariedade de suas próprias ações, eles deixam de lado os valores e as regras que eles dizem estar defendendo.
Em determinado ponto da terceira temporada de Operação Lioness, um agente americano executa um agente russo já rendido em solo americano. Isso deixa os demais membros da equipe extremamente preocupados com as consequências de uma possível investigação policial. Eles estão acostumados a fazerem esse tipo de coisa em zonas de combate ao redor do mundo, onde dificilmente têm que se preocupar com as leis locais. Agora, eles estão trazendo as ilegalidades comumente cometidas no exterior de volta para casa, o que é um tema comum nas obras de Sheridan.
Em séries como Yellowstone e 1923 e em filmes como A Qualquer Custo e Aqueles que me Desejam a Morte, os roteiros de Taylor Sheridan apresentam forças de natureza capitalista como as grandes vilãs que precisam ser superadas. Não é que sejam histórias mais “à esquerda”, mas sim tramas que reconhecem o lado mais problemático e insustentável de pessoas ou de instituições que priorizam o lucro em detrimento da natureza e da vida humana.
Agora, a terceira temporada de Operação Lioness prefere adotar a já mencionada abordagem “anticomunista”, apresentando os grandes oponentes dos EUA no Século 21 como se fossem forças de esquerda. Para completar, a protagonista repete mais de uma vez para sua família que eles jamais devem acreditar no noticiário, pois o que é mostrado ali é apenas propaganda criada ou pelo governo ou pelos donos das emissoras.
Existe a real possibilidade de Sheridan ter adotado essa abordagem para tentar estabelecer um diálogo com a parte do público americano que acredita cegamente em Donald Trump e na Fox News. Dado que as redes de espiões e de influência política mostradas nessa temporada provavelmente existem na vida real, a forma que ele encontrou para levar essa parte do público a se preocupar com isso foi caracterizando os oponentes como forças “comunistas”. Além disso, se essas redes de espionagem realmente existem, a trama também pode servir como um alerta para políticos e outros funcionários públicos que podem ser recrutados (ou “comprados”) por agentes estrangeiros.
Uma outra possibilidade (dentre muitas) é que Sheridan também esteja tendo dificuldades para entender a real natureza das ameaças que colocam o poderio dos EUA em xeque. Nesse caso, assim como as ações de Joe podem corroer a estabilidade do país, a trama de Operação Lioness pode acabar colaborando para aumentar a desconfiança do público nas próprias instituições.
Um exemplo disso é como a já mencionada desconfiança da imprensa (mesmo que seja a Fox News) pode acabar deixando parte do público cada vez mais à mercê de teorias da conspiração e de técnicas de manipulação presentes em fóruns online e em mídias sociais. Sem uma imprensa independente e razoavelmente confiável, em quem as pessoas deveriam acreditar? Nas teorias da conspiração? Nas versões oficiais contadas pelos governos? Nas versões contadas pelas oposições a esses governos? Apesar dos pesares (e não são poucos), as apurações jornalísticas deveriam continuar sendo uma das bases de sistemas verdadeiramente democráticos.
No geral, a terceira temporada de Operação Lioness entrega ação e suspense como nenhuma outra série no momento, além de ser uma incrível história de espionagem. Porém, seu lado ideológico ainda pode ser considerado ambíguo ou inconsistente.
Por um lado, a trama pode ser considerada uma propaganda militarista, com personagens paranoicos que enxergam o mundo como uma eterna guerra, o que justificaria suas ações à revelia de quaisquer regras internacionais ou leis nacionais. Por outro lado, a trama pode ser considerada um alerta sobre como a abordagem militarista e paranoica pode acabar colaborando para a corrosão das bases do império americano, sejam elas as bases econômicas, militares ou morais.



