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Mayor of Kingstown: As Prisões da História

A grande diferença entre Mayor of Kingstown e outras séries realistas sobre crime e corrupção, como The Wire e The Shield, é que ela tenta contextualizar a realidade apresentada diante da História de colonização e genocídio dos Estados Unidos da América. A trajetória do país é muito importante para revelar como a fictícia cidade de Kingstown, no estado do Michigan, se tornou completamente dependente da indústria carcerária. A grande pergunta é: como algumas das cidades do país mais rico do mundo se tornaram inteira ou parcialmente dependentes do “negócio” de encarcerar pessoas?

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Apesar de fictícia, Kingstown é inspirada em cidades reais, como Ionia e Jackson, ambas no Michigan. Mas a principal inspiração está mais ao norte, no Canadá. Um dos criadores de Mayor of Kingstown, Hugh Dillon, nasceu e cresceu em Kingston, na província de Ontário, cidade que possui um total de nove penitenciárias em sua região, sete delas dentro dos limites do município. Em entrevista, o ator e roteirista fala que os pais de seus amigos da infância e juventude eram funcionários ou internos do sistema prisional, que era o principal empregador da cidade.

Na série, Mitch McLusky (Kyle Chandler) e Mike McLusky (Jeremy Renner) são dois irmãos que operam como consultores e mediadores entre os vários lados envolvidos no sistema prisional, sejam as gangues criminosas, as famílias dos encarcerados, os guardas de prisão ou as forças policiais. O poder deles não vem do dinheiro, mas sim da confiança depositada neles. Ela permite que eles resolvam a maioria dos conflitos sem violência, o que é lucrativo para todos. Paralelamente, a mãe deles, Mariam (Dianne Wiest), dá aulas de História em uma das penitenciárias e tenta se manter longe dos “negócios” dos filhos.

O outro criador de Mayor of Kingstown é Taylor Sheridan, conhecido por vários filmes de sucesso e pela série Yellowstone (resenha aqui). Ele já havia trabalhado com Jeremy Renner no ótimo Terra Selvagem (crítica aqui) e dirige o primeiro episódio da série. Sheridan mais uma vez aborda os vários temas sociais comuns em sua filmografia, inclusive a temática indígena, enquanto conta uma história cheia de suspense e violência. Essa já é praticamente a marca registrada do autor.

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Em um dos vídeos de divulgação da série, Sheridan afirma que essa história é “uma maneira fascinante de se olhar para um sistema ineficaz e quebrado”. Além disso, pode-se enxergar em Mayor of Kingstown os ecos de ideologias supremacistas e do passado escravocrata do mundo ocidental, lembrando produções como a minissérie Extermine Todos os Brutos (crítica aqui) e o filme 7 Prisioneiros (crítica aqui). Isso significa que a trama entende que os eventos mostrados não são resultantes apenas de um sistema falido ou de escolhas individuais, mas também de uma trajetória histórica que jamais reservou um tratamento digno para negros, indígenas e pobres em geral.

É possível argumentar que os crimes seriam cometidos independente da exploração econômica do encarceramento, mas a realidade também mostra o efeito de retroalimentação que o encarceramento sem reabilitação tem sobre a criminalidade, com prisões que se tornam “universidades do crime”. A privatização do sistema carcerário é outra situação preocupante, já que quanto mais pessoas forem presas (e por mais tempo), maior é o lucro dos proprietários. Esse problema ficou claro com a eclosão do escândalo Kids for Cash, que resultou na prisão de dois juízes por receberam propinas para sentenciar milhares de crianças e adolescentes a longas penas de encarceramento por pequenos delitos. As vítimas eram sentenciadas a anos de prisão por “crimes” como mostrar o dedo do meio para a polícia ou fazer comentários ofensivos em redes sociais.

Parte do segundo episódio de Mayor of Kingstown é dedicado ao “ritual macabro” da execução de um prisioneiro condenado à pena de morte. Mike tenta dar algum conforto à família do executado, mas ele mesmo se vê refletindo sobre a vida e a morte após a “cerimônia”. Ele e o traficante Bunny (Tobi Bamtefa) refletem especificamente sobre as vidas que eles levaram e o quão diferentes elas são das vidas “normais”. Por que enquanto algumas pessoas estão tentando decidir onde passar o feriado, outras estão tentando apenas sobreviver a mais um dia de uma vida de sofrimento? Por que tanta diferença se, no fim das contas, todas as vidas acabam chegando no mesmo lugar?

As pessoas estão presas na História e a História está presa nelas.
James Baldwin

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