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Succession: As Armadilhas da Autoimagem

Até agora, o tema principal da terceira temporada de Succession (resenha aqui) é o que acontece quando as pessoas vão longe demais em suas autoimagens. A distância entre como os personagens se veem e como o resto do mundo os enxergam parece estar sempre sob o escrutínio dos escritores da série. Os únicos que parecem não se encaixar nessa descrição são Greg Hirsch (Nicholas Braun) e Tom Wambsgans (Matthew Macfadyen), que estão muito mais preocupados em salvarem suas próprias peles do que em projetar imagens de poder.

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Nesse sentido, nenhum dos outros personagens se compara a Kendall Roy (Jeremy Strong), o herdeiro branco e rico que, de alguma forma, se considera o representante ideal de uma nova sociedade, mais diversa e mais justa. Enquanto se considera um “revolucionário”, ele não entende que sua ascensão ao “trono” faria dele apenas mais um homem branco e rico no controle de quantidades absurdas de poder econômico, por mais que esteja cheio de boas intenções. Ele realmente acredita representar uma nova geração, quando na realidade ele é, no máximo, uma versão repaginada de seu próprio pai, Logan Roy (Brian Cox).

Roman Roy (Kieran Culkin), por outro lado, não sofre desse tipo de ilusão. Ele acredita que tem o que precisa ter para ser igual ao pai, apesar de sua indecisão e sua necessidade de uma figura maternal indicarem o contrário. Seu estilo sarcástico e autoconfiante serve apenas para mascarar suas muitas inseguranças, apesar de ele ter bons instintos para os negócios. A questão é que não adianta você ter “bons instintos” se você nunca sabe se deve segui-los ou não.

À primeira vista, Siobhan Roy (Sarah Snook) parece não sofrer desses problemas de autoimagem e autoilusão, se vendo como uma mulher que realmente representaria uma novidade no comando do império midiático criado por seu pai. Porém, Shiv ainda não entende a verdadeira natureza do poder de Logan. Ela acha que esse poder é oriundo estritamente da posição oficial do pai, quando na realidade ele é muito mais complexo do que isso. Em outras palavras, ela acha que todo o poder emana da “coroa” e que ele pode ser simplesmente herdado, quando na realidade Logan passou décadas cultivando os mais diferentes tipos de respeito tanto de seus aliados quanto de seus oponentes.

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Kendall entende isso, e é por esse motivo que ele está sempre tentando projetar a imagem de um líder energético e inovador, na esperança de conquistar os corações e mentes de seus subordinados e do público em geral. O que ele não entende é que suas tentativas são vistas muito mais como desesperadas e embaraçosas do que como ousadas e inspiradoras. Além disso, sua imagem de um homem aberto e progressista cai por chão quando ele perde a calma ou quando se recusa a ouvir as muitas mulheres que mantém ao seu redor. Assim como seu pai, ele simplesmente faz o que quer e quando quer, deixando outras pessoas para arcarem com as consequências de suas ações.

No fim das contas, todos esses personagens estão interessados apenas em impressionar o patriarca e mostrar-lhe que são dignos de amor e admiração. Mas o próprio Logan cai nas armadilhas da autoimagem. Por um lado, ele realmente gostaria que pelo menos um de seus descendentes se mostrasse capaz de conduzir os negócios da família. Por outro, seu ego não permite que ele aceite os acertos de seus filhos, pois isso significaria que ele já não é tão único e insubstituível quanto ele acreditava.

O caso mais grave de ilusão por autoimagem é o de Connor Roy (Alan Ruck), que, apesar de jamais ter trabalhado e de não ter experiência prática em qualquer área, se considera plenamente capaz de governar os Estados Unidos da América. Sua desconexão não diz respeito apenas a sua própria imagem, mas à realidade em si, resultando em um perfeito caso de Efeito Dunning-Kruger. Porém, a História recente nos mostra que qualquer idiota rico e autoconfiante o suficiente pode se tornar presidente de um grande país. Basta ele encontrar apoiadores tão desconectados da realidade quanto ele próprio.

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