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Crítica: A Cidade é Nossa

We Own This City, EUA, 2022


HBO Max · Trailer · Filmow · IMDB · RottenTomatoes

★★★★☆


Em 1º de março de 2017, o policial Wayne Jenkins (Jon Bernthal) e seis outros foram presos pelo FBI na cidade de Baltimore. Os acontecimentos que levaram até esse momento e alguns dos desdobramentos resultantes dele são dramatizados em A Cidade é Nossa, minissérie da HBO que destrincha as políticas públicas e as mentalidades que provocaram essa situação. Com uma abordagem quase jornalística e contada sob o ponto de vista dos investigadores, a minissérie não é indicada para quem estiver interessado em ação e suspense, mas sim para quem quiser entender como uma força policial pode se tornar parte do problema que ela foi criada para resolver.

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A falta de linearidade pode deixar a narrativa de A Cidade é Nossa um pouco confusa, já que a trama pula quase que indiscriminadamente entre os anos de 2015, quando as investigações começaram, e 2017, quando as prisões ocorreram e os suspeitos estavam sendo interrogados. Ainda assim, fica claro que as atividades criminosas conduzidas pela Força Tarefa de Rastreamento de Armas, então comandada por Jenkins, representavam apenas o sintoma mais óbvio de uma doença muito mais grave na polícia de Baltimore. Há flashbacks até o ano de 2003, quando Jenkins foi admitido na força policial e começou a absorver a cultura de abuso de poder e corrupção presente na instituição.

Mais de dez anos depois, os resultados eram notáveis. Uma das evidências mais claras era a dificuldade que as cortes tinham para formar júris populares: devido ao alto número de cidadãos de Baltimore que já haviam sido vítimas da polícia, eram necessárias semanas para encontrar doze pessoas que se consideravam capazes de acreditar no testemunho de um policial. Paralelamente, cada vez mais policiais acreditavam que era impossível fazer o trabalho deles sem infringir as leis.

Essa mentalidade levava os superiores a ignorarem os excessos cometidos. Enquanto as estatísticas estivessem sob controle, os policiais eram protegidos de quaisquer consequências mais sérias de suas ações. Além disso, partia-se do pressuposto de que se a polícia prendeu ou agrediu uma pessoa, então ela provavelmente era culpada de alguma coisa ou fez alguma coisa para merecer. Por outro lado, Jenkins partia do pressuposto de que qualquer homem adulto com uma mochila nas costas era um traficante de drogas. Mesmo quando nada era encontrado, policiais como Thomas Allers (Bobby J. Brown) e Daniel Hersl (Josh Charles) aproveitavam a situação para roubar quaisquer dinheiro e objetos de valor que estivessem com a pessoa abordada.

Talvez Jenkins acreditasse que os fins justificam os meios e que apenas criminosos foram falsamente incriminados, agredidos ou roubados por ele. Porém, isso não explicaria a grande quantidade de drogas que ele desviou para que o ex-fiador Donald Stepp (Seth Hurwitz) vendesse para outros traficantes. Nessa matéria, Jenkins tenta explicar que seus crimes não foram tão graves e troca acusações com Stepp, que colaborou com a polícia e forneceu provas contra Jenkins. Libertado depois de cumprir uma curta pena, Stepp foi contratado como consultor para as filmagens de A Cidade é Nossa.

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O que a minissérie deixa claro é que os muitos anos de impunidade deixaram Jenkins e muitos outros policiais se sentindo intocáveis. Se inicialmente eles acreditam que as ilegalidades são justificáveis em nome da segurança pública, posteriormente eles cometem crimes simplesmente porque podem cometer. É como se eles acreditassem que as coisas certas que eles fazem (se é que ainda havia alguma) os desse o direito de fazer as coisas erradas. E uma vez que jamais sofreram grandes consequências negativas, eles passam a desconsiderar os limites morais e legais de suas ações.

Esse tipo de situação já foi muitas vezes ilustrado na ficção. Por exemplo, tanto a graphic novel quanto a minissérie Watchmen lidam com essa temática. Mais recentemente, a primeira temporada da série Mayor of Kingstown se inspirou em casos reais para retratar a situação de uma cidade cuja principal atividade econômica é o encarceramento de pessoas. Nela, as péssimas decisões de policiais e agentes carcerários vão saindo de controle e têm consequências fatais. Algo semelhante acontece no filme Bronx, que mostra um esquadrão de elite da polícia francesa sendo engolido pela própria corrupção.

Mas a vida real também tem seus exemplos. No Brasil, o problema da violência policial é endêmico. Só nessa última semana, é possível ver casos aqui, aqui e aqui. Nas Filipinas, a situação atingiu níveis de tragicomédia: em 2016, o presidente Rodrigo Duterte começou seu governo com uma dura política anti-drogas, oferecendo recompensas financeiras para policiais que matassem tanto os traficantes quanto os usuários; pouco tempo depois, ficou claro que havia policiais assassinando pessoas inocentes para coletar as recompensas ou assassinando traficantes para assumir seus “negócios”; a resposta do presidente foi oferecer recompensas pela morte ou captura desses policiais, com o valor sendo bem mais alto se o policial fosse entregue morto.

Com uma história chocante e um elenco muito bem caracterizado (veja aqui a comparação entre os atores e as pessoas reais), A Cidade é Nossa serve como um documento do que pode acontecer quando policiais corruptos não sofrem consequências e ficam à vontade para espalhar uma cultura tóxica e criminosa. Sob a influência da questionável Guerra contra as Drogas, o sistema mostrado na minissérie recompensa os policiais ruins enquanto deixa os bons policiais na berlinda.

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