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Crítica: O Homem do Norte

The Northman, EUA, 2022


Trailer · Filmow · IMDB · RottenTomatoes

★★★★☆


Apesar de contar uma história sobre vingança e cheia de violência, O Homem do Norte é muito mais reflexivo e dramático do que se poderia esperar. A produção está muito mais próxima do pesadelo minimalista de O Guerreiro Misterioso (Valhalla Rising) do que das épicas batalhas da série Vikings e do filme O 13º Guerreiro. De acordo com o diretor Robert Eggers, seu principal objetivo era fazer uma representação fiel da cultura viking, incluindo seus costumes, seu folclore e sua brutalidade no campo de batalha.

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A história de Amleth (Alexander Skarsgård) é baseada no personagem nórdico que inspirou a peça Hamlet, apesar do filme divergir significativamente das versões originais. A trajetória do personagem em O Homem do Norte é bem mais parecida com a trajetória do protagonista de Gladiador do que com a versão mitológica. Ao invés de envolver outros reinos (como a Inglaterra) e intrigas palacianas, a trama coloca o personagem em diferentes situações no mundo viking: como um jovem príncipe, como um brutal guerreiro berserker e como uma pessoa escravizada.

Dessa forma, ao invés de mostrar os vikings apenas como um grande povo guerreiro, a história de O Homem do Norte tenta mostrar diversas facetas e complexidades daquela cultura. A fúria e invencibilidade dos berserkers está presente, assim como os assassinatos em massa de homens, mulheres e crianças promovidos por eles. Cenas de ação que poderiam ser apenas empolgantes e gloriosas acabam sendo também chocantes e aterradoras, não deixando o espectador esquecer de que aqueles formidáveis guerreiros também eram ladrões, estupradores e escravizadores.

Outro aspecto da cultura viking que se destaca no filme é a religiosidade. A crença em deuses e espíritos guia a maior parte das decisões tomadas pelos personagens, que acreditam que seus destinos já foram “alinhavados” pelas nornas. Sob o efeito de alucinógenos, os guerreiros berserkers realmente acreditam que se transformam em animais durante as batalhas, de forma semelhante a como os católicos acreditam na transubstanciação durante as missas.

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Essas crenças e as visões que vêm com elas dão a Eggers a oportunidade de combinar sons e imagens para criar momentos dignos de sonhos e de pesadelos em O Homem do Norte. A simplicidade da história permite que o diretor foque em fornecer uma imersiva experiência cinematográfica, mergulhando o espectador em alucinantes visuais e intensas sonoridades. Além disso, a estranheza e o desconforto causados pelos rituais representados em tela nos lembram desses mesmos ingredientes nas obras anteriores do diretor, os filmes A Bruxa e O Farol.

Ao final de uma sessão de O Homem do Norte, é bem mais provável que o espectador se encontre em um silêncio reflexivo do que em uma empolgada excitação. Diante da trajetória do protagonista e das revelações feitas no ato final, a vingança alcançada por ele é muito mais trágica do que satisfatória. A combinação das cenas de ação com os conflitos internos de Amleth fazem do filme mais uma obra sobre cultura e violência, mostrando como o simplista e quase infantil desejo de vingança do protagonista o deixa cego para os muitos detalhes e complexidades do mundo dos adultos.

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