Crítica: A Odisseia
The Odyssey, EUA/Reino Unido, 2026
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★★★★★
Era de se esperar que o diretor Christopher Nolan tentaria transformar o poema épico Odisseia em um grande espetáculo de ação e suspense, e é exatamente isso o que ele faz aqui. Porém, o diretor vai além ao investir em uma narrativa ainda mais não-linear e ao tornar a temática da história ainda mais relevante para os dias atuais. Ao fim, é possível perceber o motivo pelo qual a história da jornada de Odisseu (Matt Damon) ao tentar voltar para casa inspirou e ainda inspira muitas outras histórias, seja na literatura, na televisão ou no cinema. Filmes tão diferentes quanto Gladiador, Thor e O Homem do Norte possuem elementos que já existiam há mais de três mil anos nessa canção, que por vários séculos foi transmitida apenas de forma oral até ser fixada em texto escrito.
A Odisseia começa estabelecendo a tensão dramática ao mostrar a situação de Penélope (Anne Hathaway) e de seu filho Telêmaco (Tom Holland), que estão há vinte anos esperando o retorno de Odisseu da Guerra de Troia. Há uma crescente pressão sobre eles, já que os agressivos pretendentes de Penélope se aproveitam da hospitalidade que os gregos são incentivados a mostrar a vizinhos e a estrangeiros, tentando forçá-la a escolher um deles como esposo. Pelo costume da xênia, chamada no filme de Lei de Zeus, os gregos tinham a obrigação moral de oferecer uma boa hospitalidade, já que qualquer estranho poderia ser um deus disfarçado andando entre eles.
Mãe e filho já haviam escutado a impressionante história da vitória de Odisseu sobre os troianos por meio da inesperada artimanha do Cavalo de Troia. Para eles e para os demais habitantes de Ítaca, aquela é uma história sobre como seus valentes guerreiros superaram grandes dificuldades e derrotaram com sagacidade e persistência os grandes inimigos que pareciam insuperáveis. Porém, por trás da suposta glória e grandiosidade, aquela era uma história que escondia a brutalidade e a desonra com as quais Odisseu teve que lidar.
Nessa adaptação, Odisseu desrespeita os deuses não apenas por soberba, mas também por ter um considerável sentimento de culpa. Os crimes de guerra que ele e que seus homens cometeram em Troia traumatizaram não apenas as vítimas, mas também os executores. Isso causa uma certa dualidade e um certo ímpeto autodestrutivo: ele quer voltar para casa, mas ele também quer ser punido por seus crimes.
Uma outra forma de colocar isso é: Odisseu quer voltar para casa, mas ele sabe que isso não pode acontecer, pois Odisseu não existe mais. O Odisseu que venceu a Guerra de Troia e que foi impiedoso com seus habitantes não é digno da esposa e do filho que o Odisseu que partiu de Ítaca deixou para trás.
Para os moradores de Troia, a história da grande vitória de Odisseu é sobre como um exército sedento de sangue invadiu a cidade para matar, pilhar, violentar e destruir. E isso foi feito por meio da oferenda de um cavalo de madeira para o templo da deusa Atena (Zendaya), presente que escondia alguns dos homens que trariam morte e destruição para a cidade. De uma só vez, Odisseu desrespeitou a Lei de Zeus, o templo de Atena e suas próprias ideias de honra e justiça. O homem que antes alertava os animais antes de caçá-los (para tornar a caçada mais justa), havia agora implementado uma artimanha que se aproveitava das crenças e da civilidade de seus inimigos para atacar a soldados e a civis na calada de uma noite sem lua.
Assim, Odisseu é um rei guerreiro que está perdido não apenas em sua jornada de volta para casa, mas também em sua própria identidade. Esse é um drama pessoal que, em A Odisseia, também se torna um drama civilizacional. Na trama, a grande história da vitória de Odisseu sobre os troianos serve como inspiração para que outros homens desrespeitem a reverência aos deuses e façam uso de artimanhas desleais para atingirem seus objetivos. Isso faz com que as ações de Odisseu tenham efeitos negativos sobre Penélope e sobre Ítaca muito antes de seu retorno.
Para reforçar essa temática, Nolan combina a trama da Odisseia com os eventos históricos do Colapso da Idade do Bronze e com os misteriosos navegadores que atualmente são conhecidos como os Povos do Mar. O argumento do filme é que as civilizações entram em declínio não por causa de grandes derrotas, mas sim por causa de grandes e inescrupulosas vitórias. É a obsessão por um militarismo sem limites e sem honra que corroí o tecido social e as bases da civilização. Isso lembra uma das teses centrais do filme Megalópolis, quando o narrador diz:
Quando um império morre? Ele colapsa em um único momento terrível? Não, não… Mas chega o momento no qual seu povo já não acredita nele.
Dessa forma, A Odisseia também serve como um alerta para as nossas atuais civilizações. Cegas pelo ódio, pelo ressentimento ou pela ganância, muitas pessoas podem recorrer a artimanhas cruéis, antiéticas ou criminosas para obterem ganhos rápidos e significativos. Quando paramos de acreditar na civilização que estamos construindo, podemos acabar nos entregando a uma mediocridade e a um niilismo que nos levam ao declínio.
Mesmo explorando todas essas temáticas, A Odisseia não abre mão de grandes cenas de ação, de terror e de suspense. Os elementos de terror chegam a surpreender, especialmente quando Odisseu e seus homens precisam enfrentar o ciclope Polifemo (Bill Irwin) e a feiticeira Circe (Samantha Morton). Há também o assombroso momento no qual Odisseu vai até o domínio de Hades e invoca os mortos para consultar o falecido profeta Tirésias (James Remar). O que ele não esperava é que também seria confrontado pelos falecidos Sinon (Elliot Page) e Agamenon (Benny Safdie), além dos muitos soldados que perderam suas vidas em suas guerras.
O filme também conta com grandes momentos de tirar o fôlego, especialmente quando Odisseu consegue voltar para casa e vai sendo progressivamente reconhecido pelos servos e por seus familiares. Mesmo diante de toda a ação e de todos os temas abordados, a trama consegue manter um potente centro emocional no núcleo familiar formado por Penélope, Odisseu e Telêmaco. Diante da grandiosidade da jornada, tanto a física quanto a emocional, os momentos mais íntimos ficam ainda mais intensos e emocionantes. O espectador sente todo o impacto dos momentos nos quais o guerreiro perdido finalmente chega de volta ao seu domínio; quando uma esposa desesperada finalmente reencontra o seu marido; e quando um filho finalmente conhece o seu pai e vê que ele é tão lendário quanto as histórias que o antecederam.
Por mais que tenha algumas escolhas estéticas menos inspiradas e alguns problemas na edição, A Odisseia nos mostra que o diretor Christopher Nolan ainda é capaz de nos surpreender, mesmo quando está adaptando uma história que permaneceu extremamente influente e popular ao longo dos últimos três milênios. Por meio de uma intensa experiência cinematográfica e com a ajuda de algumas poucas novidades, ele evidencia que a Odisseia segue sendo tão relevante hoje quanto era na época em que foi composta. Aparentemente, nós estamos sempre precisando reaprender as lições essas lições de três mil anos atrás.

