Assim Caminha a Humanidade
O que são 1000 anos? Como podemos processar a passagem do tempo nessa escala?
Foi há aproximadamente 300 mil anos que a espécie humana surgiu no continente africano. Resultado de milhões de anos de evolução, essa nova espécie ainda representa o ápice no uso de ferramentas, na cooperação em massa e na capacidade de raciocínio abstrato. Nós somos capazes de planejar as nossas ações e de projetar as nossas obras antes de concretizá-las, seja por meio de esforços individuais ou de grandes esforços coletivos. Isso nos deu inúmeras vantagens evolutivas, permitindo que superássemos as muitas dificuldades que enfrentamos ao longo do caminho.
A nossa incrível capacidade adaptativa nos permitiu sair do continente africano e nos especializarmos em diferentes tipos de climas e de vegetações. Ao contrário do que muitos pensam, a seleção natural não é uma questão de “sobrevivência do mais forte”, mas sim uma questão de sobrevivência do melhor adaptado.
Um exemplo disso está na relação dos seres humanos com os cães, que são descendentes de lobos. Nos primórdios desse relacionamento (há aproximadamente 100 mil anos), os lobos mais mansos e amigáveis foram beneficiados com a amizade da espécie mais inteligente do planeta. Posteriormente, os lobos que se acostumaram com a companhia humana passaram por um processo de seleção artificial, já que os humanos beneficiavam aqueles que eram os mais úteis (na caça, no pastoreio, etc.) ou os mais “fofinhos” e “bonitinhos”. Por outro lado, os lobos mais ferozes e agressivos foram amplamente caçados por seres humanos e chegaram a ficar à beira da extinção no Século 20.
Também há o exemplo da relação da humanidade com os vegetais, que foram modificados pelo consumo e pelo cultivo ao longo de muitos séculos, especialmente depois da Revolução Agrícola que ocorreu há 12.500 anos. As versões selvagens de frutas como a banana e a maçã eram bem diferentes das versões que encontramos hoje nas feiras e nos supermercados. As cenouras eram brancas ou roxas, enquanto as melancias tinham a polpa amarela. Tanto o milho (originário das Américas) quanto o trigo (originário do Oriente Médio) eram apenas gramíneas selvagens quando os seres humanos os encontraram e passaram a selecionar as variedades mais convenientes para o consumo humano, resultando nas características que conhecemos hoje.
Além disso, estudos realizados nas últimas décadas indicam que a Floresta Amazônica não é tão “selvagem” quanto se achava, já que há nela uma predominância de plantas parcialmente ou totalmente domesticadas pelos seres humanos. Atualmente, acredita-se que a floresta tenha sido a morada de vários milhões de pessoas antes da chegada dos europeus.
Conforme se espalhava pelo planeta, a humanidade moldava os ambientes que ocupava e também era moldada por eles. Ao longo dessa trajetória, também precisamos sobreviver a eventos cataclismáticos e a diferentes tipos de crises. As grandes inundações causadas por lagos glaciais (entre 15000 e 13000 anos atrás) como o Bonneville, o Missoula e o Agassiz (todos na América do Norte) podem ter afetado os humanos que já estavam na região. Acredita-se que os mitos sobre dilúvios que existiam em várias culturas antigas estejam parcialmente relacionados com enchentes como essas, ocorridas quando as espessas camadas de gelo que cobriam partes da América do Norte, da Europa e da Ásia entraram em processo de derretimento. Seriam eventos similares à inundação glacial ocorrida recentemente no Nepal e no Tibete, mas ainda maiores e mais destruidores.
Outras origens para os mitos dos dilúvios podem ter sido tsunamis pré-históricos, causadas por terremotos, erupções vulcânicas ou meteoros, cujos efeitos ficaram registrados apenas na cultura oral das populações que sobreviveram a eles. Por exemplo, um tsunami pré-histórico causado pelo segundo deslizamento de Storegga (há aproximadamente 8.000 anos) teve um importante papel na total submersão da terra de Doggerland, uma planície ocupada por humanos e que era uma conexão por terra entre a Grã-Bretanha e o continente europeu. Estima-se que o evento pode ter custado as vidas de um quarto da população da ilha britânica.
Depois do último período glacial (entre 12500 e 11500 anos atrás), a humanidade começou a erguer as primeiras cidades e as grandes civilizações das quais temos conhecimento. Oficialmente, a Pré-História termina e a História tem início com o desenvolvimento dos primeiros sistemas de escrita, o que nos permite ler hoje informações que foram registradas há milênios. O primeiro “escritor” da História da humanidade foi a princesa e sacerdotisa acadiana Enheduana (que viveu no Século 23 a.C., há aproximadamente 4300 anos), já que seus hinos religiosos (sobre divindades da antiga religião mesopotâmica) são os textos mais antigos cuja autoria é conhecida.
A escrita também nos permitiu conhecer a mais antiga reclamação de cliente da história, a famosa placa de reclamação a Ea-nasir (feita em 1750 a.C., há 3750 anos). Nela, o autor Nanni, que havia comprado cobre com o comerciante Ea-nasir, reclama da petulância do vendedor, que não quer devolver o dinheiro depois de tentar entregar cobre de baixa qualidade.
Mas essas civilizações também encontraram dificuldades. O Colapso da Idade do Bronze (há 3200 anos), durante o qual diversas civilizações entraram em declínio, pode ter sido causado por uma combinação de fatores climáticos e fatores sociais. Uma grande seca ou alguma outra disrupção climática, talvez causadas por atividades vulcânicas, pode ter dado origem a grandes movimentos migratórios e de pirataria no Mar Mediterrâneo, com seus participantes sendo conhecidos hoje pelo termo Povos do Mar. O tema ainda é envolto em mistérios e especulações.
Já o declínio do Império Romano do Ocidente (de 376 a 476) foi muito bem documentado e nos oferece um bom entendimento sobre como poderosos impérios perdem o seu poder e a sua influência. Sessenta anos depois de 476, a humanidade viveria aquele que é conhecido como o pior ano da História: 536. No início daquele ano, a erupção de um vulcão na Islândia mergulhou partes da Europa, do Oriente Médio e da Ásia na escuridão de um inverno vulcânico que pode ter durado até 18 meses.
A partir daí, nos últimos 1500 anos, muitos eventos bem conhecidos marcaram a História da humanidade: a Era Viking (de 800 a 1050), os duzentos anos de Cruzadas (de 1095 a 1291), as Grandes Navegações (de 1419 a 1644), a Reforma Protestante (1517), a Independência dos EUA (1776), a Revolução Francesa (de 1789 a 1799), a Independência do Brasil (1822) e a Primeira Revolução Industrial (de 1760 a 1840).
No final dessa Primeira Revolução Industrial, um outro tipo de revolução teria início, provocada por uma invenção que hoje nos é muito antiquada: o telégrafo elétrico, que também representou um importante passo em nosso domínio da eletricidade. Durante a maior parte da trajetória da humanidade, não era possível simplesmente apertar um botão na parede para “acender a luz”.
É possível dizer que, até a primeira metade do Século 19, uma das melhores maneiras de se transmitir uma mensagem a longa distância era por meio de um mensageiro montado em um cavalo bem rápido. Existiam outras formas de transmissão que podiam ser mais rápidas, mas elas tinham as suas limitações. Sistemas de telégrafo visual, como redes de torre de visualização ou sinais de fumaça, dependiam de visada direta e de condições meteorológicas favoráveis para funcionar apropriadamente. Havia também, desde 5000 anos atrás, a comunicação via pombo-correio, mas ela só podia ocorrer em uma direção, pois dependia do instinto que essas aves têm de sempre voltar para casa.
Já o telégrafo elétrico permitia uma comunicação quase em tempo real entre postos separados por muitos quilômetros de distância, geralmente utilizando-se o código Morse. Em 1854, o primeiro cabo entre continentes foi instalado no Oceano Atlântico, conectando os Estados Unidos à Irlanda. Porém, essa linha só começou a ser operada em 1858 e a qualidade era muito baixa. Para completar, a linha acabou sendo destruída três semanas após o início da operação, quando um operador tentou aplicar mais voltagem para aumentar a velocidade e a qualidade da transmissão.
Uma linha transatlântica 100% operacional só foi instalada na terceira tentativa, em 1866. Com o slogan “De Duas Semanas para Dois Minutos”, a operação revolucionou a comunicação entre continentes e, graças aos ganhos em eficiência, representou significativos ganhos econômicos no comércio exterior.
Paralelamente, outros grandes avanços que ocorreram ao longo do Século 19 foi o desenvolvimento da fotografia e do fonógrafo, mecanismos que permitiam a gravação e a reprodução de imagens e de sons, respectivamente. O desenvolvimento da fotografia também envolveu vários experimentos com imagens em movimento, mas foi apenas a partir do final do Século 19 e início do Século 20 que o cinema realmente começou a se desenvolver de forma comercial.
Por 300 mil anos, se você queria ver o rosto de uma pessoa, você tinha que estar bem diante dela. Posteriormente, artistas podiam desenhar ou pintar rostos realistas, mas nada que se aproximasse do realismo das fotografias. O mesmo vale para a invenção do fonógrafo: antes, se você queria ouvir uma música ou a voz de alguém, você teria que estar no mesmo ambiente no qual as pessoas estavam tocando, cantando ou falando. Assim como a escrita havia permitido a comunicação de palavras e de ideias através do tempo, agora até as imagens e os sons poderiam perdurar após as pessoas que os produziram perecerem. Esse mesmo raciocínio se aplica ao cinema.
Os entusiastas e pesquisadores dessas tecnologias de comunicação também estavam em busca do chamado “telégrafo sem fio”, algo que viria a ser conhecido como rádio. Em 1895, os primeiros sinais de código Morse foram transmitidos por ondas de rádio. Na primeira década do Século 20, as primeiras transmissões experimentais e amadoras de voz e de música foram feitas. Essas transmissões amadoras continuaram, enquanto a primeira transmissão de rádio comercial ocorreu em 1920, nos Estados Unidos.
Imagine então o impacto vivido pelas pessoas nessa época, que é parcialmente mostrado no filme Sonhos de Trem. Você poderia ter 50 anos de idade e passado a vida inteira escutando apenas as vozes das pessoas ao seu redor. De repente, alguém lhe mostra um aparelho (um fonógrafo ou um rádio) que produz vozes humanas, como se houvesse pessoas dentro da máquina. Mas, naquele momento em que você está escutando, não há pessoas; há apenas a máquina reproduzindo sons que foram gravados no passado ou que estão chegando pelo ar, via “ondas invisíveis”.
O mesmo pode ser dito sobre a popularização do telefone. De repente, conversas que você só poderia ter pessoalmente podiam ocorrer a muitos quilômetros de distância. Quem estava acostumado a ter apenas conversas “cara a cara” teve que se acostumar a conversar com a voz abstrata que saía do aparelho telefônico. Foi preciso aprender a conversar sem depender de sinais visuais (expressões faciais, linguagem corporal, etc.) e focando apenas nos sons emitidos pelas outras pessoas.
Podemos estender essa mesma lógica à popularização dos televisores. Transmissões já eram feitas desde a década de 1920, mas a popularização em si só começou de verdade na década de 1950. Agora, as pessoas já não precisavam ir ao cinema para verem imagens em movimento, já que poderiam passar horas olhando passivamente para tela do televisor em suas salas de estar.
Isso nos leva a notar a diferença nas experiências com essas tecnologias. No caso das comunicações via rádio e via telefone, as pessoas tiveram que se adaptar a uma nova forma de manter uma conversa. No caso dos receptores de rádio e de transmissões televisivas, as pessoas não conseguem interagir com o outro lado, se tornando agentes passivos nessa nova forma de transmissão da informação. E assim nasceu a mídia de massa.
Por mais que nós tivemos que nos acostumar com essas novas formas de comunicação, os nossos cérebros ainda são, essencialmente, os mesmos cérebros que desenvolvemos há 300 mil anos. Esse órgão é “programado” para processar de uma determinada forma as informações que recebemos, e não é nada fácil mudar essa “programação”. Por exemplo, se todos os dias nós vemos uma mesma pessoa na televisão (um ator, um apresentador de jornal, um político, etc.), nós sabemos que aquela pessoa é apenas alguém que acompanhamos na mídia; porém, internamente, o seu cérebro pode interpretar que aquela é uma pessoa de seu convívio diário e que é importante para a sua sobrevivência reconhecer rapidamente o rosto, a voz e até o nome dela.
Foi isso o que alguns pesquisadores descobriram por acidente em 2005. A comunidade da neurociência já conhecia o conceito da Célula da Avó, que faz referência a neurônios dedicados ao reconhecimento de pessoas específicas, como seus familiares ou outros tipos de entes queridos. A novidade de 2005 é que foi descoberto que a grande maioria das pessoas que participavam de um determinado estudo possuíam “Células da Avó” dedicadas para a atriz Jennifer Aniston, conhecida pela popular série Friends. Ou seja, uma grande parte da população possui grupos de neurônios que só são ativados quando a pessoa vê uma imagem ou escuta a voz (ou apenas o nome) dessa atriz, como se ela fosse um membro de seu círculo pessoal de familiares e amigos.
Esse “neurônio Jennifer Aniston”, como ele passou a ser conhecido, ajuda a explicar os relacionamentos parassociais que muitas pessoas desenvolvem com as celebridades, tratando-as como se fossem entes queridos ou amigos pessoais. A celebridade sabe que os fãs existem e pode até ser grata a eles, mas não tem como responder a essas projeções de relacionamentos íntimos e pessoais feitas por milhares ou milhões de pessoas. Do outro lado, as expectativas criadas pelos fãs, que nutrem pelos ídolos os mesmos sentimentos que nutrem por entes queridos, podem levá-los a comportamentos cada vez mais disfuncionais, obsessivos ou até mesmo perigosos.
Atualmente, essa situação possui duas camadas extras de preocupação.
A Internet das redes sociais está repleta de grandes e pequenos influenciadores, sobre os quais os seguidores mais fanáticos podem projetar níveis preocupantes tanto de amor quanto de ódio. Agora, com bilhões de pessoas produzindo e consumindo altas quantidades de informação (ou “conteúdo”), nossos cérebros de 300 mil anos atrás podem ficar ainda mais confusos sobre quais relacionamentos são reais e quais são apenas projeções feitas por meio de redes sociais. O que era para ser apenas uma forma de entretenimento, pode acabar sendo tratado como uma questão de sobrevivência pelos nossos antigos mecanismos mentais.
A outra preocupação extra é que muitas pessoas passaram a buscar acolhimento e compreensão em chats com ferramentas de inteligência artificial, o que também pode confundir o nosso cérebro. Assim como tivemos que nos adaptar às conversas por telefone, nós nos adaptamos rapidamente às conversas por meio de curtas mensagens de texto ou de áudio via diferentes tipos de chats. Com os chats de IA, as pessoas podem ter uma experiência semelhante, com a grande diferença de que não há absolutamente ninguém do outro lado. Há apenas os sentimentos que o usuário está projetando sobre uma entidade que ele imagina que existe, mas que, de fato, não está lá.
Para piorar, ainda há quem acredite que, se as IAs conseguem responder de forma convincente, então elas realmente estão “vivas” e possuem sentimentos pelos usuários. O que muita gente não entende é que essas ferramentas estão apenas calculando respostas com base em métodos matemáticos e paradigmas computacionais. Ferramentas como o ChatGPT, que já estão levando algumas pessoas a desenvolverem psicoses religiosas, não estão “pensando em respostas”, mas apenas “calculando resultados plausíveis e sintaticamente corretos” para os questionamentos do usuário. Mais uma vez, nossos cérebros primitivos não estão preparados para lidar com essas ilusões.
Ao longo da História, a humanidade já acreditou várias vezes que o mundo ia acabar ou que estávamos prestes a sermos extintos. A Wikipedia até possui uma lista de datas previstas para eventos apocalípticos. Sendo assim, por mais que o atual pessimismo em relação ao nosso futuro tenha fundamentos convincentes, o mais provável ainda é que, de um jeito ou de outro, a humanidade vai seguir em frente.
Mesmo momentos como o colapso da Era do Bronze e o declínio do Império Romano foram menos dramáticos do que parece, ocorrendo ao longo de décadas ou de séculos. Porém, é possível dizer que o mundo realmente “acabou” para as muitas vítimas de guerras e de genocídios, ou para pessoas que foram diretamente afetadas por erupções vulcânicas ou eventos climáticos extremos, como secas prolongadas ou grandes inundações. Essas sim deveriam ser as nossas preocupações no que diz respeito ao nosso futuro.
Se há algo que o nosso passado nos ensina, é que nós somos capazes de coisas muito grandes, especialmente quando colocamos em prática a nossa gigantesca capacidade de cooperação.
Agora, depois de milhares de anos de História e de Pré-História, você está aqui lendo esse texto na tela de um smartphone, de um tablet ou de um computador, ou mesmo em um papel impresso. Ou talvez você esteja escutando essas palavras conforme elas estão sendo reproduzidas em um alto falante, após serem lidas e gravadas por uma pessoa real ou sendo lidas por um agente de software que consegue decifrar as palavras, transformá-las em sons e simular a voz de uma pessoa real. Parte dessas tecnologias só se tornaram viáveis devido aos avanços realizados nesses últimos 200 anos da História da humanidade.
Mas o que são 200 anos diante da trajetória que começamos a percorrer há 300 mil anos?
Pode ser que dessa vez nós realmente estamos muito próximos do fim. Ou pode ser que esse seja apenas o começo de uma nova fase da aventura humana na Terra.




