Crítica: Cavalo Selvagem Nove

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Wild Horse Nine, Reino Unido/EUA/Chile, 2026



Trailer · Letterboxd · IMDB · RottenTomatoes

★★★★★


Algo que não fica claro no material de divulgação de Cavalo Selvagem Nove é que esse filme é, antes de mais nada, um thriller político. O diretor e roteirista Martin McDonagh repete aqui a fórmula que ele utilizou em produções como Na Mira do Chefe e Os Banshees de Inisherin, adicionando a ela fortes comentários sobre a atuação geopolítica dos Estados Unidos durante a Guerra Fria. Assim como os outros trabalhos do cineasta, o resultado certamente não é para todos os gostos, mas deve agradar a quem se interessar por uma específica mistura de humor negro, pessimismo, História e política.

A viagem que os protagonistas Chris (John Malkovich) e Lee (Sam Rockwell) fazem para a Ilha de Páscoa possui muitos paralelos com a viagem feita pelos protagonistas de Na Mira do Chefe, com a diferença de que ao invés de assassinos da máfia eles são agentes da CIA. E se naquele filme um deles está sentindo o peso moral de um crime em particular, em Cavalo Selvagem Nove um deles está sentindo o peso moral dos muitos assassinatos que cometeu e das muitas democracias que derrubou em nome dos interesses dos Estados Unidos ao redor do mundo.

Talvez Chris só esteja pensando em seu passado e no significado dos seus atos por estar sofrendo com uma doença terminal. Há também o fato de que eles estão no Chile de 1973, semanas antes do golpe de Estado de 11 de setembro. Enquanto está diante da própria morte, ele começa a encarar os horrores de seu passado e os horrores do futuro que está chegando. Seu inevitável fim se aproxima, mas ele tem a terrível certeza de que os tipos de crimes dos quais participou irão seguir em frente sem ele.

Em vão, ele busca algum tipo de redenção, apesar de ser tarde demais para as suas vítimas e até para as vítimas do regime ditatorial que está prestes a começar. Talvez muitos espectadores não gostem das dimensões humanas que o filme dá a seus dois protagonistas, já que seria muito mais fácil e moralmente simples mostrá-los apenas como vilões sem coração. Porém, McDonagh está parcialmente interessado justamente nas histórias que homens como esses contam para si próprios sobre os muitos crimes que cometeram. Em determinado ponto, Chris tenta se satisfazer com ideia de que, pelo menos, eles não são tão ruins quanto os nazistas.

O outro interesse do diretor está nas visões de mundo que homens como esses podem ter, especialmente por terem se aliado com figuras absurdamente autoritárias ao longo do caminho. Por mais que Cavalo Selvagem Nove seja composto principalmente por diálogos acalorados, cômicos e parcialmente filosóficos na tranquila ilha, a trama consegue transmitir muito bem o peso dos crimes cometidos pelos personagens. Não há sangue na tela, mas quem conhece a História dos acontecimentos aos quais eles se referem vão perceber que há sangue escorrendo de suas palavras.

Talvez Cavalo Selvagem Nove só seja um filme completo para o espectador que conhece a História do intervencionismo dos EUA ao redor do mundo ao longo dos últimos 100 anos. Inclusive, a trama pode muito bem ser contextualizada com a ajuda de muitos outros filmes e séries que abordam esses temas. Por exemplo, os recentes Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto mostram alguns desdobramentos da política global dos EUA no Brasil dos anos 1970.

Já produções como o filme No e a série documental Colônia Dignidade mostram um pouco da realidade do Chile em particular. Ainda na mesma temática, o aclamado documentário O Ato de Matar mostra o quão longe foram os horrores ocorridos na Indonésia, enquanto o filme O Segredo dos seus Olhos aborda o tema sob o ponto de vista argentino. Mais recentemente, a série de espionagem Lioness realça as consequências e as atuais versões do tipo de geopolítica praticada pelos EUA.

As ideias exploradas em Cavalo Selvagem Nove chegaram a me lembrar de filmes tão diferentes quanto O Conformista e Tropas Estelares, cujas tramas fazem diferentes “estudos” sobre a natureza do autoritarismo. Assim como Chris, o espectador precisa estar ciente de toda essa História para entender a profundidade da melancolia e do pessimismo de suas reflexões. Esse personagem se enxerga como uma parte importante do problema, mas também sabe que as tendências autoritárias de parte da humanidade existem independente dele.

Com a ajuda de ótimas atuações de Malkovich e Rockwell, Cavalo Selvagem Nove convida o espectador a encarar certos tipos de escuridão que sempre acompanharam a humanidade em sua trajetória. A temática é pessimista e o humor é sombrio, mas o filme também deixa claro que a escuridão precisa ser combatida. O otimismo é útil mas tem seus limites; a partir de determinado ponto, é preciso estar preparado para resistir aos horrores que uma parte da humanidade está pronta para infligir sobre a outra.


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