Crítica: Cara-De-Barro

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Clayface, EUA, 2026



Trailer · Letterboxd · IMDB · RottenTomatoes

★★★★☆


Apesar do aclamado Coringa ainda ser respeitado por boa parte do público, eu preferiria que aquele filme tivesse ficado mais próximo do que foi feito nesse Cara-De-Barro. Ao invés de uma pegada demasiadamente dramática e de um comentário supostamente social, esse novo filme sobre um vilão do Batman vai direto ao ponto para contar uma história sombria, nojenta e perturbadora. Além de se manter fiel à essência desse vilão, a trama faz um fantástico uso de seus “poderes” e de sua transformação, resultando em momentos memoráveis tanto de ação quanto de terror, especialmente no quesito body horror.

Um aspecto que poderia ser melhor desenvolvido em Cara-De-Barro é a velocidade com a qual passamos pelo drama vivido pelo ator Matt Hagen (Tom Rhys Harries), que inicialmente é um pouco acelerada. Em um ponto alto de sua carreira cinematográfica em Coast City, ele vê seu mundo desabar quando o mafioso Markos Szabo (David Dencik) o ataca brutalmente em Gotham e deixa seu rosto desfigurado. Szabo utiliza toda a sua influência para escapar de condenações pelo ataque nas esferas criminal e civil, além de financiar uma campanha de rumores e notícias negativas que afetam a imagem pública de Hagen.

O filme poderia ir mais fundo nesse aspecto, já que Szabo desfigura não apenas o rosto mas também o caráter de Hagen, tirando dele as imagens física e midiática que ele havia construído ao longo dos anos. A trama também poderia explorar o fato de que sem essas imagens Hagen perde toda a sua respeitabilidade e até a sua carreira, o que aproxima a história da temática de A Substância. Supostamente, ele é um ator respeitado por causa de seu talento; porém, agora que tem cicatrizes profundas em seu rosto, seu talento parece não ter valor por si só.

Similar à protagonista de A Substância, Hagen fica desesperado o suficiente para se oferecer como cobaia humana para a pesquisa da Dra. Caitlyn Corr (Naomi Ackie), que trabalha com uma nanotecnologia controlada por inteligência artificial para tentar recuperar tecidos biológicos danificados. Os resultados iniciais são promissores, mas uma overdose provoca efeitos colaterais, tanto físicos quanto psicológicos, que nem Hagen e nem Corr poderiam imaginar.

É a segunda metade de Cara-De-Barro que realmente faz o filme valer à pena. Inicialmente, Hagen não está em busca de vingança, mas apenas de compensação pelo o que foi tirado dele. Porém, ele vai deixando se levar pelas circunstâncias e vai tomando decisões que o afastam cada vez mais de sua própria identidade. Tanto o seu corpo quanto a sua personalidade vão se tornando disformes, e ele vai ficando cada vez menos preocupado com os limites morais ou legais de suas ações.

Esse poderia ser um simples e facilmente esquecível filme de vingança: um homem é injustiçado e então decide fazer justiça com as próprias mãos. Porém, o que vemos aqui é o terror de uma tragédia pessoal que mergulha um homem em um pesadelo de sofrimento físico e psicológico. A violência aqui pode ser brutal, mas não é mostrada apenas como espetáculo. Conforme vai conseguindo a sua vingança, o protagonista vai se tornando algo cada vez mais repugnante, tanto fisicamente quanto moralmente.

Talvez a sua transformação final realmente ocorra no fantástico clímax em uma boate lotada, durante o qual Hagen mostra ter total controle sobre sua capacidade de emular a aparência, a voz e os trejeitos de outras pessoas. Suas habilidades como ator facilitam essa transição, tornando-o um perfeito cameleão ao tentar escapar de seus perseguidores e ao atacar as suas vítimas.

Nesses e em outros momentos, os aspectos de body horror jamais decepcionam, com os departamentos de maquiagem e de efeitos especiais caprichando nas caracterizações das estranhas transformações e deformações sofridas pelo protagonista. Esse não é um triunfo apenas técnico, mas também em termos de criatividade. O roteiro de Mike Flanagan e de Hossein Amini e a direção de James Watkins conseguem fazer um ótimo proveito desse personagem dos quadrinhos em um contexto cinematográfico, explorando muito bem algumas das possibilidades mais grotescas de sua fisicalidade.

Assim como na minissérie Pinguim, a trama de Cara-De-Barro não tenta estabelecer o personagem titular como um anti-herói. Há sim uma grande tragédia pessoal e ele é sim vítima de uma grande injustiça, mas no final é ele quem acaba se transformando em um terrível monstro. Tudo isso faz desse filme uma das experiências mais propositalmente desagradáveis do ano, com o terror psicológico e o terror corporal podendo surpreender os espectadores que esperavam apenas um filme de super-heróis.


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