Crítica – Hope: O Primeiro Impacto
Hopeu, Coreia do Sul, 2026
Trailer · Letterboxd · IMDB · RottenTomatoes
★★★★☆
É possível passar algum tempo apenas reclamando dos defeitos que Hope: O Primeiro Impacto possui: o filme é longo demais (2h40m), muitos dos efeitos especiais são bem questionáveis, a trama não mantém um tom consistente e nem sempre a edição está preocupada em manter a continuidade, apenas para citar os problemas mais gritantes. Porém, o filme supera todos esses percalços com momentos de ação, suspense, terror e humor que o tornam uma das experiências cinematográficas mais intensas do ano, pelo menos para quem conseguir se manter imerso nesse estranho universo. Em vários sentidos, esse não é um filme super sério e está mais próximo de uma lógica de anime, e só deve agradar a quem aceitar de coração aberto as suas imperfeições e a sua maluquice.
Quando começamos a acompanhar o delegado Beom Seok (Hwang Jung-min) e seu primo caçador Sung Ki (Zo In-sung) no pequeno vilarejo pesqueiro de Hope Harbour (em português, Porto da Esperança) as coisas rapidamente começam a ficar estranhas. Já nos primeiros minutos de filme, a manhã deles começa com a investigação de um bovino morto, que parece ter sido atacado por um grande animal selvagem, como um tigre ou um urso, apesar das marcas serem bem maiores do que as que poderiam ter sido deixadas por esses animais. Enquanto Sung Ki se junta a outros caçadores para procurar o predador na floresta, Beom Seok volta para a cidade para tentar encontrar reforços.
Beom Seok imediatamente percebe que algo está errado, e então o acompanhamos por um bom tempo (talvez uns 30 ou 40 minutos) enquanto ele corre pelas ruas tentando encontrar a criatura que está atacando os residentes e destruindo partes da cidade. Tanto ele quanto o espectador ficam curiosos para finalmente dar uma olhada no “monstro”, mas ele só consegue ver os estragos e as marcas que vão sendo deixados, além dos carros e outros grandes objetos que estão sendo arremessados. Isso cria um incrível clima de terror e suspense, potencializado por uma incrível cenografia e por um ótimo trabalho de câmera.
Quando ele finalmente vê a primeira criatura, o que se segue é uma longa e eletrizante cena de ação, marcada por uma perseguição que começa a pé e termina de carro. Também é durante essa sequência de ação que Sung Ae (Hoyeon) é introduzida de forma inesquecível, “farmando” muita “aura”. Nesse ponto, os efeitos especiais da criatura e as inconsistências em seu movimento (a animação a mostra extremamente rápida, mas de alguma forma ela nunca consegue alcançar os humanos) podem começar a incomodar o espectador, mas a coisa toda é intensa e divertida demais para nos preocuparmos com isso.
O que fica claro é que o diretor Na Hong-jin investiu tudo o que podia em cenografia, trabalho de câmera e dublês, injetando o máximo possível de energia cinética nas cenas de ação. Esses esforço é complementado com as ótimas atuações do elenco, que transmitem muito bem todo o desespero dos personagens nos momentos de alta tensão. Junte a tudo isso alguns ótimos momentos de comédia (com direito a um monólogo extremamente escatológico, no sentido mais fisiológico da palavra) e Hope consegue superar sem maiores dificuldades todos os defeitos citados no primeiro parágrafo.
Depois da eletrizante primeira hora, a trama de Hope fica bem mais calma, focando na busca por explicações, nos momentos de humor e na preparação para o ato final. Essa parte do filme, que deve se estender por quase uma hora, pode testar a paciência do espectador que estiver interessado apenas na ação, mas ainda assim tem seus próprios méritos. Os personagens secundários apresentados e parcialmente desenvolvidos são até interessantes, mas não colaboram de forma consistente para a narrativa. Para quem estiver assistindo ao filme no cinema, esse é o momento perfeito para ir ao banheiro, por exemplo.
Mas a espera vale a pena graças a um confronto final que é uma outra longa cena de perseguição. Dessa vez, um dos grandes destaques são as perseguições à cavalo, algo que já não é tão comum no cinema de ação dos dias atuais. Não se trata apenas do ótimo trabalho dos dublês, mas também das formas fantásticas e imersivas com as quais as câmeras se movem ao redor da ação. Por aproximadamente quarenta minutos, a narrativa consegue sustentar um constante senso de urgência, escala e adrenalina, em uma sequência que chega a lembrar Furiosa: Uma Saga Mad Max.
Tematicamente, o conflito no centro de Hope serve como um paralelo para os conflitos da vida real, com os humanos e os alienígenas engajando em violência antes de qualquer tentativa de comunicação. Se os moradores do vilarejo estão muito bem armados é porque o povoado está localizado na Zona Desmilitarizada da Coreia, uma faixa de terra que separa a Coreia do Sul da Coreia do Norte e na qual as tensões estão sempre altas, inclusive com campos minados. Em determinado ponto, fica claro que o conflito com as criaturas foi desencadeado por um ato de violência inconsequente e sem sentido, algo que não é raro no mundo real.
Porém, assim como outros aspectos de Hope, essa temática não é bem desenvolvida e serve apenas como pano de fundo para o espetáculo. Por algum motivo, a trama também tenta desenvolver o lore das criaturas, reservando os momentos finais para um diálogo altamente expositivo que prepara o caminho para uma continuação bem diferente do filme atual. É algo meio “aleatório” que não se encaixa muito bem na produção, mas isso só colabora para o senso de maluquice da coisa toda.
Com um acabamento mais refinado e mais enxuto, Hope: O Primeiro Impacto poderia facilmente ser um dos melhores filmes do ano. Ainda assim, a produção é mais do que satisfatória para quem aceitar a sua fantasia, o seu humor e sua falta de medo de abraçar o ridículo, deixando-a ao lado de The Furious no quesito fantasia de ação em 2026. Além do já citado Furiosa, esse é um filme que invoca os elementos de franquias como as dos filmes Um Lugar Silencioso: Dia Um, Invasão Zumbi, Alien: Romulus , Predador: Terras Selvagens e até mesmo Transformers. A combinação em si de todos esses elementos não é perfeita, mas com certeza é divertida e alucinante.

