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Crítica: O Arsenal dos Espiões – 1ª Temporada

Spycraft, EUA, 2021


Série da Netflix é uma pequena enciclopédia sobre o mundo da espionagem – e algo mais

★★★☆☆


A informativa série documental O Arsenal dos Espiões faz um abrangente apanhado dos tipos de técnicas e ferramentas utilizadas no mundo da espionagem. Além disso, os especialistas entrevistados contam conhecidas histórias de espionagem do mundo real, falando de agentes que conquistaram tanto fama quanto infâmia. Porém, enquanto o espectador completamente leigo se surpreende com os casos e com as práticas reais apresentados, quem já conhece um pouco desse mundo vai estar mais interessado nas coisas que não estão sendo ditas e nos ângulos narrativos escolhidos pela produção.

Para começar, a série obviamente é apresentada sob o ponto de vista dos EUA. Esse aspecto é tão forte que a própria produção dá sinais de ser um artefato de espionagem. Seus oito episódios de aproximadamente trinta minutos podem ser utilizados tanto como vídeos de recrutamento quanto como uma introdução básica em treinamentos de agentes. Ela também pode servir como uma peça de propaganda. Uma técnica de inteligência que não é mencionada é a tentativa de se conquistar o apoio da população de um país adversário, comumente chamada de “ganhar corações e mentes“.

Outro aspecto que causa a impressão de O Arsenal dos Espiões ser um artefato de espionagem é o quanto os realizadores contaram com a colaboração da CIA e do FBI. Imagens de vigilância e de prisões parecem ter sido fornecidas diretamente pelas agências, que certamente não o fariam se a série fosse apresentá-las sob um ponto de vista negativo. Todos os entrevistados são ex-funcionários da área e, claramente, se atêm às versões oficiais dos acontecimentos. Isso fica evidente quando eles falam de Edward Snowden e do malware Stuxnet, que foram amplamente cobertos pela mídia sob diferentes pontos de vista. O caso Snowden já foi apresentado nos filmes Citizenfour e Snowden: Herói ou Traidor, enquanto há o documentário Zero Days (resenha aqui) sobre o Stuxnet.

Nada disso muda o fato de que o conteúdo apresentado é bem interessante e revelador. Há um episódio inteiramente dedicado aos casos e técnicas que eles chamam de sexpionagem, que permitem que agentes secretos recrutem e controlem fontes por meio de sexo e manipulação emocional. As fraquezas humanas também são exploradas no último episódio, que fala sobre as motivações que levam as pessoas a se tornarem espiãs: dinheiro, ideologia, chantagem e ego.

Também é interessante notar o impacto que o amplo acesso à tecnologia tem sobre essa área. Muito do desenvolvimento da computação ocorreu graças às necessidade de decodificação dos espiões da Segunda Guerra Mundial, mas as duas áreas mantiveram um relacionamento relativamente distante durante a Guerra Fria. Agora, é praticamente impossível falar de espionagem sem falar de computação, pois há um novo tipo de guerra sendo travada.

O Arsenal dos Espiões não vai muito fundo nos temas tratados, mas depois de assisti-la o espectador poderá entender melhor os acontecimentos mostrados em documentários como A Arma Perfeita (crítica aqui) e Agentes do Caos (crítica aqui), além do já citado Zero Days. A série também pode ampliar a compreensão de filmes de espionagem mais realistas, como O Homem Mais Procurado e O Espião Que Veio do Frio, além de séries como A Garota do Tambor (resenha aqui) e Condor (especialmente a segunda temporada).

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