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Crítica: Bantú Mama

Bantú Mama, República Dominicana, 2021


Bantú Mama conta uma história poética e otimista que se passa em um ambiente violento e pessimista

★★★★☆


O primeiro ato de Bantú Mama é um thriller policial dirigido de forma magistral por Ivan Herrera. Fazendo um uso minimalista de diálogos e sem grandes explicações, ele mostra como a protagonista Emma (Clarisse Albrecht) sai de seu apartamento na França, passa alguns dias em um resort de luxo na República Dominicana e vai parar em um perigoso bairro periférico de Santo Domingo. É lá que a história principal se desenrola, com Emma entrando em contato com um estilo de vida bem diferente do seu, apesar de possuir em comum as raízes africanas.

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Ela, uma mulher independente e sem filhos, encontra os três filhos sem pais Tina (Scarlet Reyes), $hola (Arturo Perez) e Cuki (Euris Javiel) vivendo por conta própria. Resgatada por Tina e $hola, ela rapidamente, e sem maiores resistências, se torna uma figura maternal para os três irmãos. A naturalidade dos desenvolvimentos e da ambientação é uma das maiores qualidades de Bantú Mama, com um roteiro que não precisa recorrer ao melodrama para envolver e emocionar o espectador.

O filme foge do lugar comum ao contar uma história poética e otimista em um ambiente que geralmente é mostrado sob a ótica da miséria e da violência. Esse não é um filme sobre as violentas consequências das escolhas feitas por rapazes pobres e sem perspectivas, como no italiano Garotos Choram; e nem é um filme sobre as consequências dos traumas causados pela violência e pelo desespero, como no fantástico O Que Ficou Para Trás (crítica aqui). De certa forma, a violência e o trauma estão presentes na trama, mas é justamente por já serem tão conhecidas e representadas que elas não precisam aparecer explicitamente na tela.

Não é que a produção esteja tentando esconder ou mesmo romantizar a dura realidade dos três irmãos, mas sim mostrar que existem aspectos de suas vidas que não necessariamente envolvam miséria e sofrimento. Pode-se dizer que Bantú Mama é um filme sobre a vida dando um jeito de seguir em frente, com resiliência e algum otimismo. Esse também é um filme sobre resgates, com Emma e os irmãos resgatando uns aos outros; e também com o resgate das raízes africanas da população afro-descendente que vive hoje espalhada pelo mundo.

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Nesse sentido, Bantú Mama é comparável com a minissérie documental Escravidão: Uma História de Injustiça (resenha aqui), na qual o ator Samuel L. Jackson e outras pessoas tentam resgatar suas raízes africanas e entender como os nativos daquele continente foram escravizados pelos europeus. A diferença é que o filme o faz de uma forma muito mais intimista, sem precisar relacionar explicitamente a situação dos habitantes do bairro periférico com os séculos de escravidão que seus antepassados sofreram. Bantú Mama não está interessado em explicações sobre o passado, mas sim em oferecer uma visão sobre como os descendentes da diáspora africana têm potencial para ajudar uns aos outros no presente e no futuro.

Ancorado em uma fantástica atuação de Albrecht e na naturalidade dos jovens atores, Bantú Mama também impressiona pela cinematografia e pelos momentos mais introspectivos. É essa introspecção que revela o lado trágico da história, já que as decisões tomadas no ato final salvam algumas vidas e colocam outras em risco. Isso faz com que o filme termine com um otimismo de partir o coração, já que as cenas que mostram uma nova vida, com novas possibilidades, também são marcadas pela melancolia das vidas que ficaram para trás, encarceradas em uma “prisão social” construída há vários séculos.

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