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Coronavírus: Um Passeio Pela Montanha-russa da Dissonância Cognitiva

Como você se sente quando uma pessoa que você respeita questiona as coisas nas quais você acredita? E se, além de questionar, a pessoa também apresentar evidências extremamente convincentes, sejam elas científicas, religiosas ou históricas? E se você começa a perceber que os pontos de vista que você sempre defendeu sempre estiveram em discordância com a realidade, qual a sensação? Esse desconforto psicológico e emocional é chamado de dissonância cognitiva e nós fazemos o máximo possível para evitá-lo em nossas vidas.

Na maioria das vezes, isso significa que, diante das situações acima, você tende a questionar todas as outras variáveis exceto o seu próprio ponto de vista. Se alguém que você respeita questiona as coisas nas quais você acredita, você passa a questionar o seu respeito pela pessoa. Se ela apresenta evidências que normalmente seriam convincentes, você passa a questionar as evidências. Se seus pontos de vista parecem estar desalinhados com a realidade, você será capaz de dizer que a realidade é que está equivocada, ou que antes a realidade não era assim, ou que você jamais teve os pontos de vista em questão.

Todo esse esforço é realizado para evitar uma determinada forma de lidar com a dissonância cognitiva: reconhecer que talvez você esteja equivocado e revisar seu posicionamento. Para muitas pessoas, isso é inaceitável. Uma vez que nossos pontos de vista representam partes de nossas identidades, questioná-los é o mesmo que questionar quem nós somos. De certa forma, é quase uma ameaça existencial. Daí o esforço para restaurar o equilíbrio cognitivo e “fazer a conta fechar” sem colocar em jogo a imagem que temos de nós mesmos.

Nesse artigo, os autores fazem uma revisão da pesquisa sobre dissonância cognitiva e propõem um modelo para o estudo do fenômeno, listando seis tipos de estratégia que as pessoas aplicam para evitar esse desconforto: evasão (evitamento, distração, escapada e esquecimento), refutação (reforço do próprio ponto de vista, negação de responsabilidade e trivialização), autocomplacência (autoafirmação e autocompaixão), reestruturação (compartimentalização, diferenciação e transcendência), integração (mudança de atitude, justificação pelo esforço e alegação de falta de alternativas) e medidas comportamentais (racionalização das ações e mudança de comportamento). Veja que essas estratégias se assemelham aos mecanismos de defesa e aos mecanismos de enfrentamento.

Durante a pandemia de COVID-19, é possível ver vários desses mecanismos e estratégias sendo aplicados nas “trincheiras” que se formaram sobre como lidar com a crise sanitária. Para não terem que adequar a própria rotina (mudança de comportamento), as pessoas recorreram a atitudes como: minimizar a ameaça oferecida pela doença (trivialização), não ler ou assistir a jornais que falam sobre a pandemia (evitamento), afirmar que a economia seria prejudicada pelas medidas (transcendência, ou seja, alegar que há problemas maiores), afirmar que caixões e hospitais estão vazios (reforço do próprio ponto de vista) e defesa de “tratamentos precoces” que podem “curar” a doença (escapada, ou modificação da situação).

Diante disso, é inútil recorrer a fatos e evidências quando se trata de certos assuntos. Um exemplo perfeito disso é como muitas pessoas já abraçaram os chamados “tratamentos precoces” como solução para a pandemia. Se você apresentar dados que mostram que esses remédios não são eficazes contra a doença, elas vão refutar essas informações e apresentar argumentos como: funcionou para mim (o que não é possível verificar ou comprovar); existem estudos que mostram que são sim eficazes (e que geralmente possuem problemas ou limitações metodológicos); muitos médicos defendem esses tratamentos (o que também não significa que eles funcionem).

Essa situação dos médicos que ignoram os resultados científicos mais robustos lembra o trágico destino do médico húngaro Ignaz Semmelweis. Na Viena do século 19, Semmelweis tentava entender porque a taxa de mortalidade por infecções pós-parto era significativamente diferente entre duas clínicas. Os dois estabelecimentos apresentavam condições semelhantes, mas um deles tinha uma taxa de mortalidade bem mais alta. Como a ciência da época ainda não conhecia a existência de microrganismos como vírus e bactérias, suas principais ferramentas eram estudos estatísticos e tentativas de isolamento do fator que causava a diferença.

Foi apenas depois de uma contaminação acidental que levou à morte de um médico que Semmelweis desenvolveu uma teoria de “envenenamento cadavérico”, que dizia que “partículas de cadáveres” levadas pelos médicos estavam infectando as mulheres. Na época, era comum o profissional sair de uma operação ou de uma autópsia e ir direto para um parto sem realizar nenhuma higienização. Depois que ele instaurou uma política de lavagem de mãos entre autópsias e partos, a taxa de mortalidade por infecções pós-parto diminuiu em 90% na clínica onde o problema era mais grave. Esses resultados eram reproduzidos em todos os lugares que adotavam as medidas.

Ainda assim, sua descoberta foi amplamente ignorada (evitamento), rejeitada (reforço do próprio ponto de vista) ou ridicularizada (trivialização), sinais de que muitos médicos não conseguiam lidar com a própria dissonância cognitiva. Para muitos, a ideia de que eles eram os responsáveis por aquelas contaminações seguidas de morte era um insulto e uma afronta (negação de responsabilidade). Logo eles, que possivelmente haviam feito o Juramento de Hipócrates e haviam prometido salvar vidas, seriam os responsáveis pelas mortes (autoafirmação)? Porém, outros médicos adotaram as medidas de higiene (mudança de comportamento), especialmente em Londres, onde resultados semelhantes já haviam sido obtidos.

Depois de ser rejeitado pela comunidade médica vienense, Semmelweis voltou para a Hungria, onde suas ideias continuaram causando controvérsia. Anos mais tarde, ele começou a sofrer de problemas nervosos e morreu quatorze dias depois de ser internado em um manicômio, provavelmente por consequências de ferimentos causados pelos guardas da instituição. Suas conclusões só seriam amplamente aceitas depois que o trabalho de Louis Pasteur consolidou a teoria microbiana das doenças.

No caso da COVID-19, quem seriam os injustiçados? Seriam os médicos que defendem os “tratamentos precoces” ou os médicos e cientistas que não os aceitam? Outra forma de fazer esse questionamento é: qual grupo está sendo guiado por evidências confiáveis e reproduzíveis, e qual está sendo guiado pela vontade de oferecer uma “cura milagrosa” para a pandemia? O leitor também pode refletir: eu acredito nas medidas e tratamentos defendidas por epidemiologistas ou nas medidas e tratamentos que me causam menos incômodos práticos e psicológicos?