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Coronavírus, Aquecimento Global e Cinto de Segurança

Robert MacNamara é conhecido até hoje pela sua atuação como Secretário de Defesa dos EUA durante a Guerra do Vietnã, sendo parcialmente responsabilizado pelas muitas vidas perdidas desnecessariamente durante o conflito. Porém, o economista também foi o responsável por uma medida que salvaria muitas vidas no futuro: a introdução do cinto de segurança nos veículos automotores.

No início dos anos 1950, a indústria automobilística dos EUA começava a se preocupar com a altíssima taxa de mortalidade em acidentes de trânsito, levando-as a temer que os consumidores diminuíssem significativamente a compra e o uso de automóveis. MacNamara foi encarregado pela Ford de entender o porquê de tantas mortes e de pensar em uma solução para o problema. Inicialmente, ele recomendou melhorias nos painéis e no volante, que poderiam ferir gravemente os ocupantes durante um acidente.

Porém, a melhor solução seria evitar que as pessoas fossem arremessadas de um lado para outro dentro dos carros. Isso o levou a recomendar a instalação de cintos de segurança, equipamento que já estava em uso em aviões. Mas, como nada é perfeito, a adoção do cinto pelo público seria bem mais complicada. Para começo de conversa, a Ford não estava interessada em anunciar o novo equipamento como uma vantagem e incentivar o seu uso, pois o público poderia entender que o uso de carros não é uma experiência segura, associando-o com a possibilidade de perder a vida.

Além disso, tanto os funcionários da própria Ford quanto o público em geral viam o equipamento como um inconveniente ou como um insulto. Muitas vezes, ao ver os passageiros colocando os cintos de segurança, o motorista ficava com a impressão de que eles não confiavam em suas habilidades ao volante, se esquecendo de que acidentes acontecem independentemente do nível de perícia do condutor.

Ou seja, o que era para ser uma medida de segurança, era vista como uma ofensa pessoal. Instalar os cintos nos carros foi a parte fácil; mudar o comportamento das pessoas foi quase impossível. Seriam necessárias várias décadas para que o uso do cinto de segurança se tornasse socialmente aceitável, e até hoje é necessário incentivar o seu uso por meio de multas e de outras medidas.

Algo semelhante vem ocorrendo durante a pandemia de COVID-19. Enquanto muitas pessoas veem as medidas de contenção do vírus como incômodos necessários, muitas outras os veem como ataques pessoais. Algumas das reações fazem parecer que usar uma máscara de proteção é a pior coisa que pode acontecer com alguém. Não importa o quão incisivos e racionais sejam os argumentos a favor do uso do equipamento, muitas pessoas ainda preferem correr o risco de se contaminar a alterar o próprio comportamento para lidar com a situação.

Um dos motivos pelos quais essa mudança é tão difícil é que ela foi exigida de forma bem repentina. Estratégias como o modelo transteórico de mudança de comportamento envolvem longos períodos de preparação até a ação realmente ser tomada. No caso da pandemia, muitas pessoas foram pegas completamente de surpresa, apesar dos cientistas estarem há anos alertando que uma pandemia como essa poderia começar a qualquer momento.

Isso lembra os alertas que são feitos há décadas sobre a ameaça do aquecimento global. Ao invés de alterarem suas matrizes energéticas, as grandes empresas do setor preferiram esconder os resultados preocupantes e continuar fazendo negócios normalmente. Assim como muitas pessoas durante a pandemia, as corporações preferiram agir de forma a obter retornos no curto prazo enquanto desprezavam as ameaças de longo prazo. Agora, as previsões que os cientistas fizeram ao longo desse tempo começam a se concretizar, restando apenas medidas de controle de danos e tentativas desesperadas de reverter a situação.

Assim como no caso de alguns políticos e empresários durante a pandemia, as petrolíferas preferiram “investir” em desinformação, a ponto de contratar pseudo-cientistas inescrupulosos para jogar dúvidas sobre as verdadeiras descobertas científicas. Uma vez que os “cientistas” pagos para discordar publicavam suas mentiras, as empresas as utilizavam para justificar seu posicionamento, tipicamente dizendo que “não há consenso científico sobre o tema”. Essa mesma estratégia foi utilizada por diferentes tipos de negacionistas ao longo da pandemia, seja os que afirmam que as máscaras não funcionam ou seja os que defendem o uso de medicamentos sem eficácia comprovada como “curas” para a doença.

As medidas tomadas pelas petroleiras são tão irracionais quanto a recusa do uso do cinto de segurança ao longo dos anos e das máscaras de proteção ao longo da pandemia. Vale lembrar que “empresas” não tomam decisões; quem as toma sempre são as pessoas responsáveis por elas, que no fim das contas não são nada mais do que frágeis e limitados seres humanos.