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The Way Down: Fé e Manipulação

Uma forma pela qual as seitas controlam o que as pessoas pensam é bem simples: elas te ensinam a minimizar as partes da história que não se encaixam; te ensinam a negar as partes da história que não se encaixam. Elas operam dentro de um sistema de crenças que exige que, em alguns momentos, você seja brutal em nome de Deus. Minimizar, negar, reescrever a narrativa.

Ditas por um psicólogo, essas são as palavras iniciais do episódio final de The Way Down. Os dois últimos episódios da minissérie documental estrearam em abril de 2022, sete meses após o lançamento dos três primeiros. O motivo desse intervalo é bem óbvio: em 29 de maio de 2021, quando a minissérie já estava em pós-produção, a personagem principal da história e alguns dos coadjuvantes morreram em um acidente de avião. Dessa forma, os episódios finais vão mais fundo em como a seita criada por Gwen Shamblin Lara lidou com a morte de sua fundadora e de alguns outros líderes da organização.

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O acidente foi perturbador para os membros da Remnant Fellowship Church não apenas porque eles perderam sua grande líder, mas também porque tal acontecimento não se encaixava na lógica interna do grupo. Um dos argumentos que Gwen Shamblin utilizava para manter o seu “rebanho” era de que coisas ruins só aconteciam com quem era impuro e estava longe de Deus. Ela chegava a dizer para pessoas que queriam sair da igreja que, se elas fizessem isso, suas vidas seriam amaldiçoadas e nada mais daria certo. Sendo assim, como pode a própria líder ter sido vítima de um acidente de avião? Será que a pessoa que eles admiravam há anos era impura? Será que ela se tornou amaldiçoada e foi “derrubada” por Deus? É possível apenas imaginar o nível de dissonância cognitiva que se instaurou dentre o grupo.

É por isso que a reação inicial dos congregados foi… bom, não foi. No dia do acidente, os membros da Remnant preferiram seguir em frente como se nada tivesse acontecido, comemorando normalmente um grande casamento entre dois membros da igreja. As imagens da cerimônia são dignas de um conto de fadas, com pessoas felizes e sorridentes o tempo inteiro, como se elas não tivessem acabado de perder um grupo de pessoas queridas e adoradas por todas elas. Mas a negação também era uma das ferramentas de Shamblin: segundo ela, se alguma coisa estivesse causando infelicidade ou preocupação, a solução era simplesmente não pensar na tal coisa.

Porém, a minissérie também mostra que a morte dela foi um alívio para alguns dos fieis. Pessoas que só permaneciam na igreja por medo das represálias de Shamblin puderam finalmente colocar em ação seus “planos de fuga”. Além disso, ex-congregados que tinham medo de contar suas histórias se sentiram encorajados tanto pela morte da líder quanto pelo lançamento de The Way Down. Se sentindo menos sozinhas e isoladas, algumas dessas pessoas deram entrevistas para os episódios finais, enquanto entrevistados que já haviam aparecido nos episódios anteriores voltaram ainda mais determinados.

As novas participações servem para reforçar as denúncias feitas anteriormente, como a prática de exigir que as pessoas trabalhassem “em nome de Deus”, sem receber pagamento por todas as horas trabalhadas enquanto geravam retorno financeiro para a igreja. Também era exigido que as pessoas emagrecessem, pois estar acima do peso era considerado uma afronta à obra divina. As dietas sugeridas por Shamblin chegavam a causar inanição e a deixar sequelas na saúde das pessoas.

A minissérie também faz questão de abordar o julgamento que os espectadores fazem desses entrevistados. O lançamento dos três primeiros episódios de The Way Down gerou vários comentários de internautas questionando a inteligência dos seguidores e ex-seguidores de Shamblin, enquanto afirmam que eles mesmos jamais cairiam em algo assim. Mas o psicólogo Adam Brooks esclarece que qualquer pessoa está sujeita a isso, pois esses grupos se aproveitam dos momentos nos quais as pessoas estão mais vulneráveis para conquistar seguidores.

É justamente quando você está passando por momentos de dificuldade ou incertezas que o líder “certo” pode aparecer com a mensagem “certa”, oferecendo respostas e acolhimento. Em um momento tranquilo, talvez você jamais seguiria alguém assim. Em um momento de desespero, qualquer alívio pode parecer válido. A questão é que, depois do alívio e do acolhimento, o líder abusivo pode cobrar fidelidade e obediência totais dos novos seguidores, fazendo uso de ameaças e de punições para se manter no controle das pessoas psicologicamente fragilizadas.

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Esses últimos episódios de The Way Down também levantam algumas explicações possíveis para o acidente aéreo, que já era alvo de teorias da conspiração. Dentre as causas possíveis, uma das mais prováveis é a inexperiência de Joe Lara, esposo de Gwen, como piloto de jatos. O ex-ator já possuía por volta de vinte anos de experiência como piloto, mas apenas de aviões a motor e em voos visuais. Em voos à jato e orientados por instrumentos, ele era um novato.

Essa possibilidade é reforçada pelos repetidos alertas feitos pela ex-esposa de Joe, Natasha Pavlovich, que também é aviadora. Em meio a uma batalha legal pela guarda da filha, ela percebeu que Joe estava avançando rapidamente o nível de sua licença como aviador depois de se casar com Gwen em 2018, mesmo tendo passado vários anos sem pilotar. Em vários requirimentos, Pavlovich tenta proibir Joe de levar a criança nos voos pilotados por ele.

Diante de todo esse drama, fica até fácil se esquecer de que a igreja fundada por Shamblin teve suas raízes em um programa de perda de peso baseado em uma “dieta cristã”. Foi graças ao sucesso desse programa e da atenção midiática direcionada a ele que a líder conseguiu fundar sua própria igreja e sua própria teologia, chegando a romper laços com igrejas tradicionais. Sua obsessão com a aparência física e sua personalidade narcisista e controladora eram o principais pilares de uma seita religiosa que deixou cicatrizes físicas e psicológicas em muitas pessoas. Com a sua morte, como esse grupo pode seguir em frente?

Sobre isso, The Way Down deixa mais perguntas do que respostas. Oficialmente, a filha de Gwen, Elizabeth Shamblin Hannah, é a nova líder da igreja, mas há dúvidas sobre seu interesse e seu investimento na causa. O mais provável é que ela está deixando a gerência do dia-a-dia para os outros líderes da organização. Pode-se pressupor que enquanto houver pessoas suficientemente fanáticas ou beneficiadas pelas ideias de Gwen Shamblin Lara, a igreja deve seguir funcionando.

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