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Coronavírus: Aqueles Que Se Foram

Recentemente, o Brasil atingiu a marca de 250 mil mortes causadas pela pandemia de COVID-19. São 250 mil histórias de vida interrompidas por um mesmo patógeno em um intervalo de aproximadamente um ano. São mais mortes do que as provocadas pelo tsunami no Oceano Índico em 2004 e, possivelmente, mais do que as provocadas pelo catastrófico terremoto de 2010 no Haiti. Esse massacre segue em curso, mas ainda assim muitas pessoas seguem acreditando que não há pandemia ou que a pandemia já acabou. Assim como os mortos, elas também parecem ter abandonado a nossa realidade.

Enquanto muitas pessoas seguem cansadas das medidas de isolamento social, muitas outras preferiram entrar em negação e acreditar em versões alternativas da realidade para lidar com a situação. Incentivadas por figuras públicas que adotaram posições negacionistas e que espalham desinformação, elas abraçaram o “time da negação” da mesma forma que se torce para um time de futebol. Isso basicamente as impede a mudar de opinião tanto sobre a pandemia quanto sobre os políticos negacionistas que elas apoiam, apesar das muitas derrotas que a realidade impõe sobre eles.

Quando o seu time do coração perde, você muda de time? Não, talvez o amor até aumente diante da adversidade. Afinal, é uma relação marcada por sentimentos que a maioria das pessoas não consegue nem explicar. É algo visceral e irracional, que teve início quando você ainda era criança ou, nos casos mais tardios, adolescente. O time passa a se tornar parte de sua identidade e você acredita que deve a ele uma certa lealdade. Mudar de time seria como abandonar uma parte de você mesmo. E muitas pessoas trazem esse mesmo tipo de devoção para o cenário político, que deveria ser marcado pelo pragmatismo e pela racionalidade.

A devoção exacerbada a figuras quase messiânicas também causa o surgimento de seitas. Geralmente, elas surgem quando as pessoas abandonam o senso crítico e passam a acreditar em líderes ou gurus de forma irracional, entregando para eles o controle de suas escolhas e de suas vidas. É criada uma “lógica alternativa” que ignora todas as informações exteriores ao grupo e só leva em conta a realidade fantasiosa criada internamente. Como já estão operando sob uma “lógica irracional”, o uso de argumentos racionais não surte efeito sobre essas pessoas.

É o que está ocorrendo dentre os seguidores da teoria da conspiração QAnon. Enquanto seitas convencionais geralmente precisam de um espaço físico, os adeptos do QAnon precisam apenas do ambiente virtual da Internet para espalhar mentiras e conquistar novos seguidores. Apesar de ter surgido a partir de uma série de mensagens em um fórum online em 2017, o grupo não tem um líder específico e já se tornou “autossuficiente”, com novas mentiras sendo criadas por novos membros o tempo inteiro. Em 2020, mentiras relacionadas com a pandemia ajudaram o grupo a crescer mundialmente.

A situação do QAnon já ficou tão séria que grupos de apoio a ex-adeptos estão sendo criados e famílias estão sendo destruídas. A obsessão dos adeptos está provocando divórcios e fazendo filhos cortarem relações com os pais. As vítimas do QAnon são, em sua maioria, pessoas idosas ou de meia idade que passam horas na Internet obcecadas com as novas “revelações” feitas pelo grupo. Quando os familiares próximos não embarcam na teoria, elas se sentem isoladas e desacreditadas, causando um estresse quase constante e provocando rompimentos.

Além das teorias da conspiração, as pessoas também fogem da responsabilidade sobre a pandemia por meio de raciocínios tortuosos, como dizer que “o vírus só infecta quem se preocupa”, “só vai morrer quem tiver que morrer” ou “se morreu, é porque estava na hora”. Essas últimas racionalizações geralmente transferem a responsabilidade para figuras divinas e estão relacionadas com os estilos religiosos de enfrentamento, que se dividem em:

  • Autodireção: “Baseia-se na premissa de que Deus dá às pessoas liberdade/recursos para dirigirem as próprias vidas”.
  • Delegação: “O indivíduo passivamente espera que Deus solucione os problemas, outorgando-lhe responsabilidade”.
  • Colaboração: “Indivíduo e Deus são ativos, havendo co-responsabilidade e parceria na resolução de problemas”.
  • Súplica: “O indivíduo tenta ativamente influenciar a vontade de Deus mediante rogos/petições por Sua divina intervenção”.
  • Renúncia: “O indivíduo escolhe ativamente renunciar à sua vontade em favor da vontade de Deus. (…) Difere do estilo delegação no aspecto ativo da escolha e do estilo súplica pelo caráter de renúncia à vontade de Deus, em vez da tentativa de influenciá-la.”

Os estilos delegação, súplica e renúncia nem sempre são negativos, pois existem situações nas quais realmente não há nada o que as pessoas possam fazer. Esse não é o caso da pandemia de COVID-19, para a qual já sabemos o que funciona e o que cada pessoa pode fazer para colaborar com o controle da doença. Nesse caso, se negar a tomar as medidas de prevenção e simplesmente “entregar nas mãos de Deus” é uma atitude puramente irresponsável. Aqui, vale o antigo lema: Deus ajuda aqueles que ajudam a si mesmos.

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