Modo Noturno:

WandaVision: Traumas e Realidades Alternativas no Universo Marvel

* Contém SPOILERS das séries WandaVision e Legion

O oitavo episódio de WandaVision consolida a série como o esforço mais dramático e ousado feito pelo Universo Cinematográfico Marvel (MCU). O curioso formato narrativo cria mais dúvidas do que certezas ao longo de uma jornada pelas várias eras da televisão dos EUA e pelos traumas de uma personagem que perdeu todos os seus entes queridos. Isso pode não corresponder às expectativas de boa parte dos espectadores, mas mostra a disposição de Kevin Feige em seguir expandindo seu universo de forma bem planejada e muito bem desenvolvida.

A série mostra como as perdas sofridas pela poderosa Wanda Maximoff/Feiticeira Escarlate (Elizabeth Olsen) culminam em um colapso nervoso que altera a realidade da pequena cidade de Westview e “ressuscita” o grande amor de sua vida, Visão (Paul Bettany). A Westview de Maximoff é inspirada nas clássicas sitcoms americanas que se tornaram populares em todo o mundo ao longo das últimas décadas. Porém, parte dessa nova realidade é composta pelos habitantes originais da cidade, que estão sob o domínio mental da feiticeira e foram desprovidos de seu livre arbítrio.

Isso faz com que WandaVision possua muitos paralelos com a série Legion, que também é baseada em um personagem da Marvel mas que não faz parte do MCU. Na primeira temporada, o poderosíssimo mutante David Haller (Dan Stevens), filho do Professor Charles Xavier (Harry Lloyd), descobre que muitos dos problemas que ele teve ao longo da vida foram causados pelo Shadow King (Navid Negahban), um mutante maligno que se instalou em sua cabeça quando ele ainda era bebê. Na segunda (resenha aqui), após a remoção do vilão, Haller tenta abraçar seu papel como super-herói, mas seu comportamento vai ficando cada vez mais tóxico.

Na terceira temporada (resenha aqui), Haller entra em negação em relação ao seu comportamento e se torna líder de uma seita cujos membros estão viciados nas sensações mentais que o telepata é capaz de causar. Ele também fica obcecado com um plano de viajar no tempo e derrotar o Shadow King no passado, alterando a realidade e evitando o relacionamento abusivo que marcou a sua vida. O que ele não percebe é como ele mesmo se tornou um abusador, justificando os próprios atos como consequências do que sofreu sob a influência do vilão e se negando a assumir a responsabilidade por eles.

Assim como Maximoff, Haller também manipula a realidade e as pessoas ao seu redor para que o mundo fique exatamente como ele acha que deve ser. A diferença é que ele recorre a uma técnica mais convencional, já que a criação de seitas é típica de indivíduos que sofrem de Complexo de Messias ou de Transtorno de Personalidade Narcisista. Curiosamente, foi em um filme sobre esse assunto, intitulado Martha Marcy May Marlene, que a atriz Elizabeth Olsen fez sua estreia no cinema. O drama mostra a história de uma jovem mulher que foge de uma seita e tem dificuldades para se readaptar à vida em sociedade, já que nem ela nem sua família sabem como lidar com os traumas causados tanto pelos abusos sofridos quanto pelos abusos que ela ajudou a cometer.

Além dos temas em comum, as duas séries brincam com a linguagem televisiva, mudando a proporção da tela e oferecendo intrigantes viagens pelas realidades criadas pelos seus personagens. Enquanto Maximoff viaja pela História da televisão e pelo espaço de suas próprias memórias, os personagens de Legion passam por experiências quase alucinógenas em lugares como o “plano astral”, os “corredores do tempo” e o “tempo entre o tempo”. Dentre as muitas participações especiais planejadas para o futuro do MCU, a aparição do David Haller de Dan Stevens seria muito bem-vinda.

Isso seria possível porque WandaVision é apenas o capítulo inicial de uma aparente trilogia que aborda o caos no multiverso e que trará personagens de outras franquias cinematográficas, semelhante ao que foi feito na fantástica animação Homem-Aranha no Aranhaverso (crítica aqui). A história terá continuidade nos próximos filmes do Homem-Aranha (Tom Holland) e do Dr. Estranho (Benedict Cumberbatch), que devem contar com a participação da Feiticeira Escarlate. O conceito já havia sido introduzido em Doutor Estranho (crítica aqui), quando a Anciã (Tilda Swinton) conduz o protagonista por um “pesadelo psicodélico” acompanhado pelo seguinte discurso:

Você acha que sabe como o mundo funciona? Você acha que esse universo material é tudo o que existe? O que é real? Quais mistérios se escondem além do alcance dos seus sentidos? Nas raízes da existência, a mente e a matéria se encontram. Os pensamentos moldam a realidade. Esse universo é apenas um de uma quantidade infinita. Mundos sem fim. Alguns benevolentes e cheios de vida. Outros cheios de malícia e fome. Lugares sombrios onde forças mais antigas que o tempo se encontram vorazes… e no aguardo. Quem é você nesse vasto multiverso, senhor Estranho?

Em WandaVision, Maximoff já se mostra capaz de moldar a realidade de acordo com seus pensamentos graças a sua Magia do Caos. Nos próximos capítulos (tanto da série quanto do MCU), veremos como ela se tornará a chave para o multiverso.