Crítica: A Agência – 2ª Temporada

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The Agency, EUA, 2024



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★★★★★


Talvez exista um exagero de subtramas na segunda temporada de A Agência. Porém, esse exagero é fidedigno com a complexa realidade geopolítica que a série tenta representar. Há aqui mentiras dentro de mentiras e operações dentro de operações, com múltiplos lados tentando manipular uns aos outros para avançar os próprios interesses. No centro desse redemoinho de jogos de espiões, há um brilhante agente secreto que se torna um brilhante traidor; e um mestre-espião que tem as suas habilidades postas à prova conforme vai desvendando a verdadeira natureza de seu subordinado.

a agência - bosko, henry e marciano conversando em um escritório

Para ajustar as expectativas dos espectadores, é bom deixar claro que A Agência não é uma série de ação. Os eventos mostrados aqui ocorrem principalmente em escritórios, em salas de reunião, em corredores de órgãos públicos e em pontos de encontro estratégicos. As maiores batalhas travadas durante os episódios utilizam palavras e olhares como munição, sendo dignas de séries clássicas de espionagem como The Sandbaggers e Tinker Tailor Soldier Spy, que foram lançadas ainda durante a Guerra Fria.

Se a primeira temporada mostra como o protagonista Brandon Cunningham/Marciano (Michael Fassbender) se tornou um traidor, a segunda o mostra tentando conciliar a sua condição de agente duplo com as lealdades que ele ainda sente pelo seu país e pelos seus colegas. No escritório da CIA em Londres, ele ainda é respeitado como um agente de primeira linha, com níveis de conhecimento e de criatividade que fazem a diferença no dia a dia da agência. Paralelamente, ele passa a vazar informações altamente sensíveis para o MI6, na esperança de que essa outra agência o ajude a resgatar o amor de sua vida das mãos de um dos lados da atual Guerra Civil Sudanesa.

A paixão de Marciano por Samia Zahir (Jodie Turner-Smith) parece ser uma espécie de maldição nas vidas dos dois. Foi esse sentimento que o deixou confuso e paranoico ainda no início da primeira temporada, levando-o a tomar atitudes que prejudicaram as vidas de todos ao seu redor, principalmente a de Samia. Agora, Marciano tenta desfazer o estrago que ele mesmo causou, sendo que seus métodos podem causar ainda mais problemas tanto para ele quanto para agentes de campo que não têm nada a ver com a situação.

O principal sinal disso é como ele toma a frente da operação que estava sendo conduzida por Naomi (Katherine Waterston) e redireciona a agente Danny/Gremlin (Saura Lightfoot-Leon) para um outro alvo. Ela está profundamente infiltrada no Irã, e o seu novo alvo vem acompanhado de alguns riscos óbvios e de alguns riscos que ainda são completamente desconhecidos.

Na frente africana, a série encontra um vilão mais convencional em Vernon Crawford/Viking (Clayne Crawford), um sádico ex-fuzileiro naval dos EUA que se torna um mercenário a serviço dos russos. Suas operações na região se aproveitam da ausência dos EUA para angariar fundos e assumir o controle de estratégicas reservas minerais de terras-raras.

a agência - naomi e henry conversando no escritório

Por mais que esteja envolvido na caçada a Viking na República Centro-Africana e na infiltração de Gremlin no Irã, a verdeira prioridade de Marciano é libertar Samia dos sudaneses, que agora contam com a ajuda de espiões dos Emirados Árabes. Para tal, ele utiliza os recursos de suas missões oficiais como moeda de troca com os britânicos, já que o MI6 promete fazer o máximo possível para garantir a segurança de Samia desde que continue recebendo informações valiosas.

É aí que os instintos de Henry Ogletree (Jeffrey Wright), vice-diretor do escritório de Londres, começam a fazer a diferença. Por um lado, os vazamentos de informações operacionais parecem estar ocorrendo a partir do círculo de confiança dele no escritório. Por outro lado, as ações e os movimentos de Marciano vão ficando cada vez mais questionáveis. Por mais que ele ainda não consiga conectar todos os pontos, a estranheza causada pelas atitudes de Marciano vai se tornando uma suspeita; conforme o tempo passa, essa suspeita vai se transformando em uma certeza, por mais que ele ainda não tenha evidências concretas.

O que dificulta o trabalho de Henry é o fato de que todas as respostas buscadas por ele estão muito mais próximas do que ele poderia imaginar. Enquanto procura um traidor dentre os elos mais fracos da organização, é justamente o elo mais forte que está vazando informações. E enquanto ele tenta identificar se as informações estão sendo vazadas para russos, para iranianos ou para chineses, a realidade é que os oponentes nesse caso estão dentre os aliados britânicos, com os quais os americanos têm a famosa Relação Especial. Dessa forma, ele demora para chegar na conclusão de que o seu melhor agente está vazando informações confidenciais para um dos seus aliados mais próximos.

a agência - segunda temporada - marciano falando ao telefone

Em meio a isso tudo, Marciano parece ainda estar agarrado a fantasias românticas que ignoram a realidade da situação. Por mais que ele consiga garantir a segurança de Samia, foi ele quem a colocou em perigo em primeiro lugar. E por mais que ela retorne em segurança, tanto ela quanto ele são pessoas diferentes agora. Como os eventos traumáticos mostrados aqui vão afetá-la no longo prazo? E sem a máscara da identidade de “Paul Lewis”, quem exatamente seria Marciano? Desde que voltou de sua missão de cinco anos no Sudão, Marciano ainda está vivendo atrás de máscaras e de mentiras que ele consegue manter com uma facilidade que impressiona até mesmo os seus colegas.

Dado que esse é um homem capaz de passar anos vivendo uma vida de fachada e sustentando inúmeras mentiras repetidamente, o que sobra se ele tentar abandonar todas essas máscaras? Será que ainda existe um Brandon Cunningham por trás delas? Será que a traumatizada Samia seria capaz de amar esse Brandon da mesma forma que amou Paul Lewis? Assim como em muitas outras histórias de espionagem, essas questões de identidade acabam ficando no centro da trama de A Agência. São questões extremamente íntimas e, até mesmo, filosóficas que podem ter grandes repercussões geopolíticas.

Os dez episódios da segunda temporada de A Agência passam rápido e cobrem uma grande quantidade de acontecimentos, sempre com uma narrativa que jamais fica arrastada. Alguns do momentos de suspense e algumas das reviravoltas são de tirar o fôlego, mas talvez os grandes destaques sejam os diálogos afiados e alguns dos dramas humanos. De qualquer forma, a série é um prato cheio para os fãs das clássicas histórias de espionagem, além de lembrar exemplares mais recentes como A Fronteira Oriental e a segunda temporada de Histórico Criminal.


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