Crítica: Paradise – 2ª Temporada

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Paradise, EUA, 2025 – 2026



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★★★★☆


A segunda temporada de Paradise se afasta da fórmula utilizada na primeira e adota uma abordagem um tanto ousada para continuar a história, o que pode desagradar parte dos espectadores. Ao invés de se concentrar apenas nos dramas e mistérios que ocorrem dentro do gigantesco abrigo pós-apocalíptico no centro da trama, a narrativa também passa a explorar as vidas dos seres humanos que sobreviveram do lado de fora. Isso nos provê algumas subtramas que abordam diferentes cenários e nos oferecem várias reflexões sobre a experiência humana.

paradise poster 2ª temporada

A grande novidade aqui é que a humanidade pós-apocalíptica não é mostrada como se resumindo a grupos de pessoas desesperadas e dispostas a fazer qualquer coisa para garantir a própria sobrevivência. Ao contrário de obras pós-apocalípticas que partem do pressuposto de que os momentos difíceis vão trazer à tona apenas o que há de pior nos seres humanos, a trama da segunda temporada de Paradise nos lembra que os instintos mais básicos da humanidade também nos levam à cooperação, à solidariedade e à formação de comunidades.

As subtramas de novos personagens como Annie (Shailene Woodley), Gary (Cameron Britton) e Link (Thomas Doherty) evidenciam a complexidade da experiência humana, já que eles chegam a essa situação apocalíptica já trazendo os traumas de suas vidas “normais”. Dessa forma, não se trata apenas de como eles lidam com essa nova situação traumática, mas também de como seus traumas do passado afetam suas reações a essa nova realidade. Enquanto Link se torna um líder, Annie continua tentando se manter isolada do mundo e Gary enxerga a possibilidade de ter algo que ele nunca teve em sua vida passada.

Junto com a jornada do protagonista Xavier (Sterling K. Brown) fora do abrigo subterrâneo, esses personagens protagonizam histórias de esperança e cooperação em um momento no qual a humanidade se encontra no limite da sobrevivência. Porém, a trama também realça como seus traumas podem levar aos comportamentos violentos mais comuns em histórias pós-apocalípticas, com o medo, a solidão, o egoísmo e o ressentimento afetando as escolhas feitas por alguns deles em determinados momentos.

É possível dizer que a trama da segunda temporada de Paradise nos lembra de que esse cenário considerado “pós-apocalíptico” não é nenhuma novidade para a humanidade. Antes de existirem grandes civilizações, existiam comunidades nômades de seres humanos que começaram a se assentar em determinados locais a partir do desenvolvimento da agricultura, ficando cada vez maiores e mais organizadas. Além disso, muitas dessas grandes civilizações sofreram grandes colapsos, exigindo que os sobreviventes mais uma vez se organizassem a partir do que havia restado.

paradise sinatra e xavier

Os traumas desses novos personagens nos lembram dos traumas que motivam a antagonista Samantha/Sinatra (Julianne Nicholson), já que fica claro na primeira temporada que uma grande tragédia marcou a sua vida e moldou a sua dura personalidade. Xavier também é um personagem que está disposto a ir até as últimas consequências para salvar a sua família, mas a diferença é que ele não abre mão de seus escrúpulos e não está disposto a ignorar o sofrimento das pessoas que encontra pelo caminho. Samantha, por outro lado, por mais bem intencionada que ela seja, toma atitudes que podem resultar em novas catástrofes.

Apesar de não possuir um episódio tão cheio de suspense e terror quanto o inesquecível sétimo episódio da primeira temporada, essa temporada de Paradise conta com diversos momentos dramaticamente marcantes e grandiosos. Se a primeira temporada era ancorada em um mistério de assassinato, essa segunda se ancora nos dramas individuais de vários personagens, dando a cada um deles a oportunidade de protagonizar as suas histórias. Isso é válido inclusive para Teri (Enuka Okuma) e Jane (Nicole Brydon Bloom), cujos passados são sobrepostos com suas atuais situações.

Talvez a temporada peque por ter personagens demais e subtramas demais, mas elas são muito bem desenvolvidas e alguns delas são encerradas antes dos episódios finais. Além disso, os dois últimos episódios conectam todas as linhas narrativas de formas altamente satisfatórias, sendo marcados por grandes reencontros e grandes revelações. Apesar de haver um gancho para uma próxima temporada (o que inclui alguns novos conceitos de ficção científica), a trama não deixa pontas soltas em relação ao que foi estabelecido nessas duas primeiras.

Mais ambiciosa e mais dramaticamente relevante, essa nova temporada de Paradise consegue superar a primeira em muitos quesitos, mostrando que o risco corrido pelos realizadores valeu a pena. Para a terceira temporada, espera-se que o ritmo e o nível dramático estabelecido aqui seja mantido, já que eles são altamente compatíveis com o novo desafio enfrentado pelos personagens: o de reconstruir a civilização fora do confortável abrigo, a partir das ruínas da civilização anterior.


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