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Crítica: Ruptura – 1ª Temporada

Severance, EUA, 2022


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★★★★☆


Minha mãe era ateia. Ela costumava dizer que há uma boa notícia e uma má notícia sobre o inferno. A boa notícia é que o inferno é apenas um produto da mórbida imaginação humana. A má notícia é que, geralmente, o que os seres humanos conseguem imaginar, eles conseguem criar.

Imagine chegar no trabalho e, em um piscar de olhos, já estar na hora de sair do trabalho. As oito (ou mais) horas se passaram, mas você não se lembra de ter passado por elas. Em sua vida pessoal, você não precisa lidar com nenhuma preocupação ou estresse causados pela sua vida profissional. Para a maioria das pessoas, isso pode ser um paraíso. Porém, imagine a experiência de sua “versão profissional”: sem memórias de uma vida pessoal, quando você sai do trabalho, em um piscar de olhos, você está de volta ao trabalho. Essa é a premissa de Ruptura.

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Tanto a “versão pessoal” quanto a “versão profissional” do protagonista Mark (Adam Scott) parecem estar satisfeitas com essa situação. Enquanto as horas de trabalho servem como “férias” para o Mark de fora, o Mark de dentro se esforça para encontrar satisfação e propósito no misterioso trabalho que ele e seus colegas “rupturados” realizam. Ao longo dos nove episódios da primeira temporada, essa situação se altera em meio a muito suspense, terror psicológico e uma boa dose de um ácido humor.

Além de lembrar os temas levantados em filmes como O Conformista e Brazil: O Filme, Ruptura também tem paralelos com séries mais recentes, como Black Mirror e Homecoming. As semelhanças com essas outras produções ocorrem inclusive em termos estéticos, com a arquitetura e as cores do ambiente de trabalho servindo para compor o clima opressivo dessas tramas. Por exemplo, assim como em O Conformista e Homecoming, mesmo os ambientes amplos e abertos transmitem uma sensação de claustrofobia tanto para os personagens quanto para o espectador.

Em Ruptura, a extrema separação entre vida pessoal e vida profissional é mostrada como uma forma de limitar a humanidade dos personagens. Na série, os escritórios da Lumon se tornam uma espécie de prisão de trabalhos forçados nas quais os personagens se colocam. É como se eles não sentissem empatia por si próprios, já que não terão memórias das muitas horas trabalhadas ao longo dos dias. Graças a isso, eles também não precisam se preocupar com as implicações éticas e morais do trabalho realizado lá dentro, não se responsabilizando por suas próprias ações no ambiente de trabalho.

Por outro lado, as versões que estão do lado de dentro e só conhecem a vida profissional se veem na obrigação de encontrar sentido e felicidade no trabalho, pois isso é tudo o que elas têm. Sem a opção de sair do escritório ou pedir demissão, os “internos” podem apenas imaginar as vidas que levam do lado de fora enquanto se esforçam para cumprir metas e ganharem pequenas recompensas. É uma situação que lembra os trabalhadores chineses mostrados no documentário Indústria Americana, que são incentivados a dar sentido a suas vidas por meio da “missão” de fabricar para-brisas para carros.

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Tanto Ruptura quanto Indústria Americana levantam questões metafísicas sobre uma existência que precisa ser parcialmente dedicada a subsistência. Mesmo se não houvesse os maçantes trabalhos nas fábricas e escritórios, as pessoas ainda precisariam dedicar parte de suas vidas na tentativa de garantir abrigo e alimentação para si próprios e para suas famílias. E mesmo que não tivessem que se preocupar com esses “detalhes”, elas teriam que dar um jeito de substituir essa mentalidade, que já ela está codificada em nosso DNA. Na série Succession, por exemplo, uma bilionária família ainda encontra (ou cria) situações estressantes e problemas para resolver mesmo sem ter que se preocupar com subsistência.

Ruptura encerra uma ótima primeira temporada com um fantástico episódio final, que é muito revelador e extremamente gratificante. Apesar das revelações feitas, esses nove episódios levantaram muito mais questões do que as que foram respondidas. Isso deixa espaço para mais momentos de suspense e para o aprofundamento dos temas tratados, indo ainda mais fundo na devoção quase religiosa que os funcionários têm pelo fundador da empresa e na diferença entre quem você é quando está no trabalho e quem você é quando está no “mundo real”.

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