Crítica: Magnum – 1ª Temporada

Wonder Man, EUA, 2026



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★★★★☆


Depois das não tão calorosas recepções de séries como Mulher-Hulk e Invasão Secreta, é até uma surpresa que o MCU ainda invista em produções mais “experimentais”, como Magnum. Aqui, a franquia mais uma vez se afasta dos padrões narrativos das histórias de super-heróis e explora um outro lado do universo fantástico criado a partir de 2008. A trama está muito mais interessada em explorar os bastidores e os dramas do show business, se aproximando muito mais de comédias como Bojack Horseman e O Estúdio.

wonder man magnum e trevor

Apesar de ser extremamente (e inexplicavelmente) poderoso, Simon Williams (Yahya Abdul-Mateen II) não está nem um pouco interessado em se tornar um super-herói ou em fazer parte dos Vingadores. Sua ambição é a de se tornar um ator de sucesso em Hollywood, sonho que é compartilhado por inúmeras outras pessoas nesse distrito da cidade de Los Angeles. Seu grande desafio ao longo desses oito curtos episódios é o de conseguir o papel de Magnum em um novo filme do personagem, do qual ele é fã desde a infância.

A série faz um ótimo trabalho em representar as inseguranças e atribulações pelas quais pessoas como Simon passam na vida real. Obcecado em alcançar seu sonho, ele chega a demonstrar um nível acima do normal de narcisismo, apesar de não chegar a ser necessariamente maligno. Combinado com um exagerado perfeccionismo, ele acaba se tornando uma pessoa com quem é difícil trabalhar, pois sempre tem tantas sugestões de melhorias que acaba impedindo o fluxo normal do trabalho.

Parte de sua ansiedade vem do fato de que ele possui superpoderes, o que é muito mais um empecilho do que uma vantagem na sua profissão. A necessidade de esconder esse segredo dificulta a sua performance em testes de elenco, que podem envolver complicadas e improvisadas dinâmicas de grupo. É por isso que ele sempre tenta estar no controle total do personagem, que precisa ter psicologia e fronteiras bem definidas para deixá-lo seguro e confortável. Sem esses limites, ele não sabe o que pode acontecer.

wonder man magnum

Mas Magnum é acima de tudo sobre a amizade que se forma entre Simon e Trevor Slattery (Ben Kingsley), personagem que também é um ator e que já participou do MCU em filmes como Homem de Ferro 3 e Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis. Dessa vez, além de repetir a performance cômica (e de também estar escondendo um segredo), ele serve como uma espécie de mentor para Simon, compartilhando com ele a sabedoria e os aprendizados que acumulou ao longo dos anos.

É nesse relacionamento que a trama explora tanto as idiossincrasias da indústria cinematográfica quanto o significado mais profundo da arte à qual os dois personagens se dedicam. Superficialmente falando, tudo o que eles fazem é fingir serem outras pessoas nos palcos ou diante das câmeras. Porém, esse “fingimento” pode ser o grande responsável por transmitir as ideias e os sentimentos no centro de uma história.

Mais do que “fingidores”, esses são contadores de histórias que precisam entrar em contato profundo com si próprios para poderem canalizar sentimentos que, inicialmente, só existem no campo das ideias. São eles que dão corpo às experiências e às emoções descritas no papel, criando performances que podem levar os espectadores não apenas a compreender os personagens mas também a se envolver em suas jornadas emocionais.

Conforme Trevor afirma em determinado momento, suas atuações podem mostrar aos espectadores que eles não estão sozinhos; que suas dores e seus sofrimentos são compartilhados por outros; e que há pessoas que os entendem bem o suficiente para colocá-los na tela de formas que vão além do convincente e que podem alcançar o genuinamente comovente. Nessa veia, atuar acaba sendo uma forma de se compartilhar a experiência humana, seja com pessoas que já viveram aquelas situações ou com pessoas que só as conhecem por meio da representação artística.

Dentre os “experimentos” já feitos no MCU, Magnum é uma dos mais eficazes e interessantes. A série consegue equilibrar a excentricidade do estranho mundo de Hollywood com a essência humana dos artistas que fazem parte dela. Surpreendentemente, o episódio final não conta com uma grande batalha entre pessoas superpoderosas, mas sim com o personagem principal refletindo sobre a sua trajetória e finalmente entendendo que a fama e o sucesso não podem ser os elementos mais importantes de sua vida.