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10 Dicas Para Lidar com Membros de Seitas e de Grupos Similares

Ainda não existe uma forma certeira ou uma “receita mágica” para se lidar com amigos e familiares que se tornaram membros de seitas ou de grupos similares, como os de seguidores de teorias da conspiração. Porém, profissionais e outras pessoas que já tiveram que lidar com esse tipo de problema fazem várias recomendações sobre como ajudar a reverter a situação. Segue abaixo um resumo geral delas.

1. Não julgue e não ridicularize as crenças das pessoas

Quando uma pessoa próxima se torna obcecada com alguma crença política ou religiosa e passa a defender ideias cada vez mais irracionais, nossa tendência é tentar convencê-la de que ela está errada e de que aquilo está se tornando uma “loucura”. Porém, isso só vai ajudar a pessoa a se agarrar ainda mais à obsessão, levando-a a se considerar perseguida por “pensar diferente” e a tentar se afastar de quem não pensa como ela. Inicialmente, a confrontação por meio de fatos e evidências vai levar a um estado de dissonância cognitiva do qual a pessoa vai tentar sair da forma mais rápida possível, criando novas desculpas e novas explicações para as inconsistências apontadas.

2. Tente entender qual necessidade está sendo atendida

É muito mais produtivo tentar entender os motivos pelos quais a pessoa se agarrou com tanta força àquela obsessão. Na maioria das vezes, os membros de seitas ou de grupos radicais querem apenas se sentir parte de um grupo acolhedor ou de um movimento que pretende alcançar objetivos importantes, dando significado a suas vidas. Problemas pessoais como solidão e falta de perspectivas para o futuro podem empurrá-las tanto para grupos saudáveis quanto para grupos abusivos. De qualquer forma, entender a raiz do problema pode ser a chave para oferecer alternativas de interação e de acolhimento.

3. Faça o possível para não se afastar

Diante de alguém que se torna monotemático e agressivo, as pessoas tendem a se afastar. Existem hoje muitas histórias de relações familiares que se dissolveram por causa do radicalismo, com filhos e cônjuges preferindo cortar os laços a conviver com alguém radicalizado. Porém, isso apenas abre as portas para que as teorias da conspiração ou os líderes de seitas terminem de tomar conta da realidade da vítima, dificultando ainda mais o caminho de volta. Na medida do possível (e levando em conta suas próprias saúde mental e integridade física), é importante tentar se manter presente na vida da pessoa.

Se isso só for possível pela Internet, é importante que seja em mensagens e conversas privadas, e não em vídeos ou comentários públicos. Nesses casos, também é importante ter alguma forma de saber se é a própria pessoa que está do outro lado ou se ela está respondendo sob a tutela do grupo abusivo.

4. Mostre curiosidade e converse sobre vários assuntos

No caso de teorias da conspiração, vale a pena pedir para a pessoa explicar o assunto e apresentar as evidências, fazendo questionamentos pontuais e sem a intenção de confrontá-la. O importante é dar a oportunidade para que ela enxergue o tema sob um ponto de vista diferente e reflita mais sobre o assunto, mas sem causar a impressão de que você está concordando.

Em outros casos, como radicalismo político ou religioso, é melhor evitar o tema e focar em conversas sobre outros assuntos. Além disso, é possível que as motivações e preocupações da pessoa tenham aspectos genuínos, como a luta contra a corrupção ou contra os crimes de pedofilia. Nesses casos, pode-se mostrar que existem maneiras de lidar com esses problemas de forma mais saudável, ao invés de levar em conta boatos sem fundamentos encontrados na Internet.

5. Foque no que vocês possuem em comum

Uma forma de manter a convivência e ajudar a pessoa a manter o contato com outros aspectos da vida é focar nos assuntos e nas atividades que vocês gostam de compartilhar. Pode ser uma viagem para a praia ou para o campo, um passeio pela cidade ou uma visita a amigos ou familiares próximos ou distantes, ou quaisquer atividades durante as quais vocês possam ter bons momentos. É preciso ajudar a pessoa a se lembrar de que a vida não se resume aos assuntos com os quais ela está obcecada e que há outras experiências para serem vividas.

6. Incentive a pessoa a buscar outras fontes de informação

Historicamente, duas ordens (ou “recomendações”) que os líderes de seitas dão aos novos membros é que eles se afastem das outras pessoas em suas vidas e que eles só acreditem nas “verdades” que a seita defende. Para garantir o domínio total sobre as vítimas, o líder precisa se tornar a única fonte de informação dos seguidores, proibindo o uso de dispositivos como celulares, rádios e televisores. Isso reduz a capacidade de pensamento crítico da vítima, que, depois de um tempo, não terá parâmetros com os quais comparar os ensinamentos do “mestre” e a vida no grupo.

No caso das pessoas radicalizadas online, isso ocorre quando a comunidade ou o “líder supremo” afirma que apenas o grupo radical revela a verdade, taxando de mentirosas todos as pessoas e organizações que “ousem” discordar deles. Dessa forma, a vítima se torna refém de uma única fonte de informação mesmo tendo acesso ao universo de conteúdo disponível na Internet. Além disso, os grupos abusivos e as teorias da conspiração oferecem “respostas” tão simples quanto erradas para os problemas complexos que preocupam as pessoas.

7. Tente encontrar ex-membros do mesmo grupo

Uma forma de descobrir o que realmente pode funcionar é identificando o que funcionou para outras pessoas. É claro que isso também não oferece garantias, já que o que funcionou para uma pessoa pode não funcionar para outra. De qualquer forma, conversar com ex-membros pode ser muito útil para entender a natureza do problema e planejar medidas que talvez funcionem no caso específico com o qual você está lidando. Inclusive, mostrar que há pessoas que estão saudáveis mesmo depois de saírem do grupo é mais uma forma de deixar claro que outros estilos de vida são aceitáveis.

8. Questione a visão idealizada do grupo

Todo relacionamento amoroso que se torna abusivo começa com uma fase cheia de amor e felicidade, com o lado ruim só se revelando meses ou até anos depois. Se o abusador se mostrar problemático já nos primeiros dias, a outra pessoa dificilmente começaria o relacionamento. E uma vez que a vítima já passou por bons momentos e construiu uma história ao lado do parceiro ou parceira, ela acredita que os momentos ruins são apenas dificuldades que precisa suportar para voltar a ser feliz. Toda essa lógica também é válida para os grupos abusivos, que inicialmente “bombardeiam” a vítima com amor e aceitação, mas depois passam a cobrar obediência e submissão.

Com comparações como essa é possível mostrar para a pessoa (de forma não-confrontacional) que ela não está em uma situação saudável e que precisa deixar isso para trás. Talvez dicas de como sair de um relacionamento abusivo também podem ser úteis.

9. Ajude a pessoa a lidar com as incertezas e com a ansiedade

As regras claras e as verdades absolutas oferecidas pelo grupo podem ter um efeito tranquilizador sobre os membros, que abraçam o “conforto” (ou a ilusão) de ter alguém supostamente sábio no controle de suas vidas. As teorias da conspiração oferecem um “conforto” semelhante, já que as simples “explicações” oferecidas por elas deixam a vítima com a ilusão de que ela entende como o mundo realmente funciona e que ela é especial por acreditar nisso. Em outras palavras, as seitas, as teorias da conspiração e o radicalismo político oferecem a elas uma visão de mundo mais controlada e definitiva, desprovida de incertezas.

Ajudar a pessoa a aceitar as incertezas e a lidar com elas de forma saudável pode ser vital na recuperação. A ansiedade que a pessoa sentia antes de entrar no grupo pode voltar, e é preciso ter medidas a postos para isso. As dicas disponíveis aqui podem ser bem úteis.

10. Tenha paciência

Nenhuma dessas dicas oferece uma “bala de prata” para resolver o problema. O máximo que se pode conseguir é dar início a um processo de recuperação, que certamente levará tempo e exigirá muita paciência. Se possível, convoque a ajuda de pessoas próximas para lidar com a situação, informando-as sobre as abordagens sugeridas acima. Lembre-se que essas dicas não representam uma “receita mágica”, mas podem servir como uma fonte de ideias e inspiração.

Fontes e complementos:

Então, o que aprendemos? Que um delírio é uma ideia. Que uma ideia pode ser contagiosa. Que seres humanos são animais que buscam padrões, o que significa que preferimos ideias que se encaixam em um padrão. Em outras palavras, nós não acreditamos naquilo que vemos; nós vemos aquilo no que acreditamos. E quando estamos estressados, ou nossas crenças são desafiadas, quando nos sentimos ameaçados, as ideias que temos podem se tornar irracionais. Um delírio levando a outros enquanto a mente humana luta para manter sua identidade. E quando isso ocorre, o que começa como um ovo pode se tornar um monstro.
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