10 Dicas para Homens que Tiveram o Pai Ausente

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Nos últimos dez anos, 1,7 milhões de crianças foram registradas apenas com o nome da mãe no Brasil. Provavelmente, muitas delas irão se juntar ao grande número de pessoas que não possuem uma figura paterna em suas vidas. Como se sabe, um pai ausente pode influenciar a vida inteira de uma pessoa, sendo necessário reconhecer e tratar as consequências dessa situação.

No caso dos homens, a ausência paterna, seja ela física ou emocional, pode ter desdobramentos tanto na segurança pública quanto na perpetuação desse ciclo de abandono. Apesar de esse ser um problema que afeta homens e mulheres, no caso deles a situação pode ficar mais grave devido à resistência a aceitar que o problema existe e a buscar ajuda profissional.

Os dez itens abaixo podem representar um ótimo ponto de partida para começarmos a lidar com os traumas que talvez estamos carregando desde a infância. Leia com atenção!

1. Entenda que a culpa não é sua

Em primeiro lugar, é importante que você aceite que a culpa NÃO é sua. Não há como você se responsabilizar pelas ações das pessoas adultas que tinham a obrigação de cuidar de você. Por mais que você possa ter internalizado a ideia de que você fez algo ou tinha alguma característica que levou ao abandono, não há como isso ser verdade. Você era apenas uma criança e precisava de pessoas adultas para cuidar de você, amá-lo de forma incondicional e guiá-lo de perto em seus primeiros anos de vida.

Também é importante lembrar que pessoas adultas não são perfeitas e com certeza estão travando as suas próprias batalhas. Inclusive, há muitos casos nos quais as pessoas não estavam preparadas para terem filhos e tiveram que lidar com essa responsabilidade de forma inesperada. Isso não serve para justificar o abandono ou a negligência, mas serve para contextualizar a situação e nos ajudar a entender as raízes do problema.

De qualquer forma, não faz sentido você se responsabilizar por situações trágicas e injustas que estavam muito além do seu controle. Porém, por mais que você não possa se responsabilizar pela saúde mental ou pela maturidade dos seus pais, você pode se responsabilizar pela sua própria maturidade emocional.

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2. Reconheça os efeitos que a ausência paterna tem em sua vida

Outro sentimento que pode ser internalizado por uma pessoa que teve um pai ausente é o de inadequação. Ao longo da vida, a pessoa pode ter a impressão de que ela é a única que não consegue formar vínculos afetivos saudáveis; a única que não consegue controlar os próprios impulsos; ou mesmo a única que não consegue ser feliz. Porém, muitas outras pessoas possuem ou possuíam essas mesmas dificuldades, que são perfeitamente superáveis.

É importante que você reconheça que essas características não são inexplicáveis, mas sim consequências de um processo de amadurecimento limitado e imperfeito. Algumas dessas consequências são:

  • Dificuldade para formar vínculos afetivos
  • Dificuldade para controlar os próprios impulsos
  • Muitas inseguranças e baixa autoestima
  • Indecisão e falta de direcionamento na vida
  • Maior tendência a desenvolver transtornos psicológicos
  • Maior tendência a se envolver em relações tóxicas
  • Maior tendência a comportamentos arriscados ou completa aversão ao risco

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3. Identifique o tipo de ausência do seu pai

Para entender o contexto da sua infância e do seu amadurecimento, é importante que você entenda quais foram os tipo de ausência em seu relacionamento com o seu pai. Alguns exemplos são:

  • Ausência física completa: Seja por falecimento, por abandono familiar ou por qualquer outro motivo, seu pai não estava fisicamente presente durante a sua infância e talvez você jamais o conheceu pessoalmente. Isso torna o seu pai em uma figura misteriosa e pode te deixar com a impressão de ele jamais teve influência sobre a sua vida. Mas essa ausência também pode ser considerada uma influência que ele teve sobre você.
  • Pai emocionalmente distante: Há também o pai que pode até estar presente durante uma pequena ou uma grande parte do tempo, mas que não consegue estabelecer um relacionamento emocional com o filho. Isso pode ser causado por uma alta carga horária de trabalho ou por uma indisponibilidade emocional dele. É um tipo de pai que até pode cumprir suas obrigações práticas e prover segurança material, mas que não é capaz de aprofundar o relacionamento e prover acolhimento, interesse genuíno ou conexão emocional profunda.
  • Pai inconsistente: Esse é um tipo de pai que é capaz de ser o melhor pai do mundo nos momentos em que aparece na vida do filho, mas que de repente pode desaparecer por bastante tempo sem maiores explicações. Se o filho não sabe se verá o pai novamente daqui a dias, daqui a semanas ou daqui a meses, isso cria uma situação instável na qual a criança tem as suas expectativas repetidamente frustradas e aprende que não pode contar com o amor e a atenção vindos da figura paterna.
  • Pai autoritário ou autocentrado: Já o pai autoritário está muito mais interessado em moldar o filho para que a criança se torne exatamente o que ele quer que ela seja, deixando em segundo plano preocupações sobre a saúde emocional dela. Pode ser que o pai acabe utilizando o filho para tentar compensar por suas próprias frustrações ou sonhos não realizados, o que o leva a tratar a criança como uma “propriedade” que serve para atender às suas necessidades emocionais e para projetar a sua autoimagem.
  • Pai “amigão”: Nesse caso, o pai não está realmente interessado em ser uma figura paterna, mas sim em ser um “colega” do filho, como se eles estivessem em pé de igualdade em termos de maturidade. Semelhante ao tipo anterior, ele pode estar tentando compensar por limitações em sua própria vida. Consequentemente, a criança fica sem alguém para verdadeiramente guiá-la e estabelecer limites ou uma noção de disciplina. Algo comum nesses casos é que as crianças são forçadas a amadurecer de forma precoce.

Esses são apenas alguns tipos e muitos outros podem existir. Independente de seu pai se encaixar ou não nas descrições acima, é importante que você entenda o “estilo” que ele tem ou tinha.

4. Tenha cuidado ao adotar novas figuras paternas

A ausência paterna também pode resultar em jovens e adultos que estão sempre em busca de aprovação e de figuras de autoridade que irão lhes dizer o que fazer. Como não se consideram capazes de tomar decisões e de lidar com os problemas da vida, essas pessoas podem acabar indo em busca de mentores, parceiros ou lideranças políticas/religiosas que, de forma consciente ou inconsciente, serão vistas como figuras paternas.

Em muitos casos, o mentor escolhido pode até ser uma pessoa sincera e altruísta que realmente irá ajudar no amadurecimento de quem o escuta. Porém, em muitos outros casos, o suposto “líder” ou “mentor” pode utilizar de sua influência sobre pessoas inseguras para obter vantagens pessoais, sejam elas de natureza financeira, política ou até mesmo sexual.

É isso o que acontece, por exemplo, nos casos de seitas abusivas e de influencers da Internet que se aproveitam das inseguranças de homens jovens, como mostrado recentemente no documentário Louis Theroux: Por Dentro da Machosfera.

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5. Seja o mestre dos seus sentimentos e das suas ações

Sem uma figura paterna para desafiá-los, para estabelecer limites e para mostrá-los como canalizar a própria raiva, muitos homens podem acabar ficando a mercê de sentimentos explosivos e desregulados. Seja por meio de brincadeiras, de esportes ou de outros tipos de atividades físicas, é o pai quem geralmente incentiva o garoto a ir além dos próprios limites e o ajuda a lidar de forma madura tanto com o sucesso quanto com a frustração.

Se você cresceu sem isso, você agora tem a oportunidade de fazer por você mesmo o que o seu pai não pôde. Ao analisar seus próprios sentimentos e a forma como você reage a eles, você será capaz de recuperar o controle sobre a sua vida e calcular o que você precisa fazer para alcançar os seus objetivos. A ideia é que você não pode ser um “escravo” dos seus impulsos emocionais, mas sim um mestre sobre eles e sobre as suas ações e atitudes.

A partir do momento que você for capaz de controlar a si próprio, você será capaz de controlar a maioria das situações ao seu redor. Além disso, você será capaz de canalizar os seus sentimentos para atividades mais saudáveis ou produtivas, ao invés de, por exemplo, direcionar a sua raiva e a sua frustração para as pessoas que não as merecem.

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6. Observe o sofrimento e as estratégias das outras pessoas

Como dito antes, você não é a única pessoa que sofre com as consequências da ausência paterna e do sentimento de inadequação. Observar e conversar sobre como as outras pessoas lidam com isso pode servir para ajudá-lo a lidar com suas próprias limitações. O ideal é fazer isso com a ajuda profissional de um psicólogo ou psicanalista, mas também é possível evoluir se você for capaz de refletir de forma calma e sincera sobre a sua vida e sobre as suas ações.

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7. Revise o passado e a formação da sua identidade

É bem possível que parte dos traumas causados pela ausência paterna já façam parte da sua personalidade e de quem você é. Talvez você justifique parte de suas atitudes com frases como “eu sou assim mesmo” ou “comigo é 8 ou 80”, dando a entender que essas são características definitivas que você possui. Mas como você ficou “assim mesmo”? Por que você não é capaz de lidar com as muitas nuances que podem existir entre 8 e 80?

Além de rever as suas ações, revisitar o passado e entender o contexto da sua infância pode ajudá-lo a rever a sua própria identidade. Por mais velho que você seja, nada disso é imutável ou está escrito em pedra. Cada momento no qual você ainda vive oferece uma oportunidade de fazer ou de ser algo diferente, permitindo que você experimente um pouco de todas as pessoas que você poderia ter sido ou que ainda pode ser.

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8. Não é uma questão de imagem ou de projeção de poder

Todo esse processo de autoconhecimento e transformação não se trata de uma questão de imagem. Não há como você “fingir” ou “imaginar” que teve um pai presente e se comportar da forma que você acha que uma pessoa assim se comportaria. Se você fizer isso, pode acabar se colocando em situações para as quais ainda não está preparado e passando por ainda mais momentos traumáticos.

Além disso, há pessoas que tentam compensar pela insegurança e pela baixa autoestima se comportando de formas altamente pretensiosas e agressivas, já que é assim que elas acham que pessoas seguras e confiantes se comportam. Porém, pessoas seguras e confiantes de verdade geralmente se comportam de forma calma, discreta e humilde, já que elas sabem que não precisam subir o tom de voz para exercer autoridade e que não precisam ser a autoridade máxima em todas as situações.

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9. Interrompa o ciclo de ausência e negligência

Talvez a melhor forma de superar os efeitos causados pela ausência do seu pai é sendo diferente dele em sua vida adulta. Afinal, seu pai também pode ter tido uma infância incompleta e desprovida de afeto. O mais comum é que ele não tenha sido um pai ideal justamente por também não ter tido um pai presente, o que o deixou incapaz de cuidar de forma satisfatória do próprio filho. Se possível, faz sentido perguntar a ele (ou a outros familiares) sobre isso.

Mesmo que não tenha filhos, você pode amadurecer o suficiente para servir como uma figura paterna tanto para você mesmo quanto para outras pessoas. Mais uma vez, não se trata de “fingir” ser o pai de alguém, mas de compartilhar o seu aprendizado com outras pessoas e de ajudá-las a lidar com os próprios sentimentos e com as próprias dificuldades.

Esse aprendizado não é uma via de mão única, já que ajudar outras pessoas com seus processos de amadurecimento também vai servir para dar sequência ao seu próprio processo de aprendizado. Ninguém chega a um nível “final” de conhecimento ou de maturidade, já que sempre há algo novo que podemos aprender ou uma nova direção para a qual podemos evoluir.

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10. O processo de amadurecimento é uma longa maratona

Por fim, é importante entender que nenhuma das revisões e transformações sugeridas acima irão acontecer de uma hora para outra, exigindo tempo e paciência de cada um de nós. Além disso, esse percurso não é uma linha reta, podendo ter altos e baixos ou idas e vindas. O mais importante é não permitir que os “baixos” e as “vindas” nos desanimem a ponto de queremos desistir do processo.

Algo que uma figura paterna poderia ter nos ensinado e que nunca é tarde demais para aprendermos é que nós caímos para poder aprender a nos levantar.

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