O Singelo Presente da Garota do Tambor

Nós entendemos o porque de você ter criado uma ficção mais dramática para a sua vida. Uma ficção que cai bem em entrevistas e audições; em fóruns políticos com seus chamados amigos. Uma ficção que combina mais com você do que a ordinária e suburbana realidade. E nós a amamos por isso, pois também somos assim.

Em um típico romance de John Le Carré há sempre um mestre-espião, seus subalternos diretos e os agentes gerenciados por eles. O mestre-espião vai calmamente movendo as peças no tabuleiro, se adaptando a cada movimento do adversário e nova informação revelada. É apenas nos capítulos finais de cada livro que o jogo de fumaça e espelhos culmina na rápida (e, muitas vezes, anticlimática) conclusão da missão, seja ela um sucesso ou uma tragédia. O prato principal não é o enfrentamento com os adversários da vez, mas sim as curvas no percurso até chegarmos até eles.

É por isso que o ritmo da narrativa da minissérie The Little Drummer Girl, baseada no livro A Garota do Tambor, pode ser desafiador para muitos espectadores. Os grandes adversários só são apresentados nos dois últimos dos seis episódios dessa adaptação, enquanto nos quatro primeiros acompanhamos os elaborados jogos políticos e psicológicos para se chegar até eles. Uma das principais características que um mestre-espião deve ter é a paciência, e o mesmo é exigido do espectador.

The Little Drummer Girl é dos mesmos realizadores de outra minissérie baseada em uma obra de Le Carré, o premiado sucesso O Gerente da Noite, dirigido pela dinamarquesa Susanne Bier. Para esse novo trabalho, os produtores chamaram o renomado diretor sul-coreano Chan-wook Park, que é um assumido fã de Le Carré e tem “A Garota do Tambor” como obra favorita dentre os trabalhos do autor. E a escolha se mostrou acertada: enquanto a narrativa é claramente respeitosa ao estilo do escritor, o visual é marcado pela ousadia de Park, conhecido por filmes como Oldboy e A Criada (crítica aqui). Essa é a quinta minissérie da BBC baseada nas obras de Le Carré (além de O Gerente da Noite, as outras são Tinker Tailor Soldier Spy, Smiley’s People e A Perfect Spy) e ela não poderia ter ficado em melhores mãos.

O uso de cores marcantes e contrastantes em cenários, locações e figurinos torna essa nova minissérie um luxuoso banquete para os olhos. Combinado com um elegante e, às vezes, retrô trabalho de câmera, a cinematografia transporta o espectador para os anos 1970, lembrando filmes como A Conversação e O Conformista. Quando se combina esses elementos com uma montagem que também foge do convencional, tem-se como resultado uma representação cinematográfica perfeita para se contar um história que se passa principalmente nos labirintos psicológicos percorridos pelos seus personagens.

Teatro de Guerra

O mestre-espião da vez é Marty Kurtz (Michael Shannon), um agente da Mossad que está caçando terroristas palestinos e seus colaboradores na Europa. Para isso, ele recruta a atriz britânica Charmian “Charlie” Ross (Florence Pugh) e conta com a colaboração do espião israelense Joseph/Gadie Becker (Alexander Skarsgård) para treiná-la e ajudá-la a construir uma ficção.

Charlie é a recruta ideal para Kurtz. Suas posições de esquerda e ligações com radicais palestinos a tornam a candidata perfeita para a personagem que ele tem em mente. Mas são suas habilidades que a tornam especial: Charlie apresenta para seus amigos e contatos profissionais uma versão de seu passado muito mais dramática e traumática do que a realidade, vivendo cada instante de sua vida como se essa ficção fizesse parte do que ela é. Não se trata apenas da história em si, mas do nível de detalhamento e das reações emocionais que a garota é capaz de produzir quando é obrigada a se “lembrar” de seu triste passado.

Em outras palavras, ela é uma mentirosa inata, incansável e detentora de uma memória invejável. Uma perfeita atriz e uma perfeita espiã. Ideal para interpretar a namorada e grande amor do terrorista Michel (Amir Khoury), mesmo que o contato real entre os dois tenha sido extremamente limitado e ela jamais tenha visto seu rosto. Entretanto, ela precisa convencer a rede terrorista de Michel de que os dois estão perdidamente apaixonados, uma ficção da qual sua vida irá depender depois que ela se infiltrar dentre os combatentes palestinos.

Joseph a ajuda na criação dessa ficção ao interpretar uma versão alternativa de Michel enquanto o imaginário casal viaja pela Europa. Emulando os trajes, trejeitos e costumes do terrorista, o agente israelense dá a Charlie memórias reais às quais ela pode recorrer quando precisar recontar sua grande história de amor. Porém, para interpretar a terrorista apaixonada ela precisa realmente se apaixonar pelo outro personagem, e é aí que tem início sua confusão: já que ele é a face que ela conhece como sendo seu amante ficcional, até que ponto ela estaria se apaixonando por Joseph? À medida que o tempo passa, as linhas entre as personagens (inclusive a sua) e os interpretes vão ficando cada vez menos claras para a atriz.

Uma outra fonte de confusão mental é o seu posicionamento político. Kurtz a recrutou justamente porque ela já havia mostrado simpatia pela causa palestina, mas agora ela está trabalhando para agentes do Estado sionista. Esse é um dos motivos pelos quais Joseph teme que uma vez que vá para o outro lado, ela jamais volte. Inclusive, ele próprio tem suas dúvidas sobre se está do lado certo do conflito.

O histórico do conflito israelo-palestino é vital para a trama. Enquanto o Massacre de Munique serve como motivador para os israelenses, a família de terroristas palestinos que eles caçam viveu em primeira mão a Guerra da Independência de 1948 (que o lado árabe chama de al-Nakba, A Catástrofe, e durante a qual ocorreu o massacre de Deir Yassin) e a Guerra dos Seis Dias em 1967 (também conhecida como an-Naksah, A Derrota). Se de um lado há a luta do historicamente perseguido povo judeu para ter uma nação onde possa estar seguro, do outro há a luta dos árabes palestinos que ocupavam as terras que foram tomadas por Israel com a ajuda de potências ocidentais.

Conexões

É provável que o interesse do diretor Chan-wook Park por essa adaptação seja mais do que o acaso. Em seu Segredos de Sangue, a adolescente India tem que lidar com a ameaça de seu tio Charlie, uma premissa semelhante a de A Sombra de uma Dúvida, uma das obras-primas de Alfred Hitchcock. No filme de Hitchcock, cuja obra inspirou Park a se tornar diretor, tanto a jovem garota (que, inicialmente, está dominada pela ficção que ela mesmo criou sobre o tio) quanto o tio se chamam Charlie. Escrevi sobre esse e outros paralelos entre as duas obras nesse que é o primeiro post do Blog Infinitividades.

O tema da confusão mental causado pelo trabalho de espionagem é recorrente na obra de Le Carré (que na imagem acima faz uma participação especial no terceiro episódio da minissérie, como o fez em O Gerente da Noite), abordado também em romances como Um Espião Perfeito, Sempre um Colegial e O Peregrino Secreto (comentário aqui). O motivo disso provavelmente é a própria experiência do autor quando esteve a serviço do MI6. Seu trabalho era se infiltrar em grupos de esquerda e tentar identificar agentes soviéticos em universidades britânicas. Segundo ele, essa é uma atividade que pode ser degradante e diminuir o senso de identidade de uma pessoa.

Inicialmente inspirada na irmã do autor, é possível identificar outras características dele na composição de Charlie. A ficção que ela criou sobre o passado de sua família corresponde a realidade do passado do escritor: seu pai, Ronnie Cornwell, foi um estelionatário com diversas passagens pela prisão e que morreu deixando várias dívidas para a família. O autor, que já era famoso quando isso aconteceu, arcou com os custos do funeral, apesar de não ter comparecido. Foi durante sua infância e juventude com Ronnie que ele aprendeu a mentir e criar histórias, habilidades que viria a usar tanto como espião quanto como escritor.

Suas habilidades como atriz e improvisadora também são as únicas coisas que Charlie pode oferecer a seus recrutadores. Na tradicional canção natalina O Menino e o Tambor (The Little Drummer Boy), um menino pobre fica sabendo do nascimento do rei Jesus, filho de Maria, mas não tem como presenteá-lo com itens dignos do título. O garoto pede então a permissão de Maria para tocar seu tambor em homenagem ao recém-nascido, sendo este seu presente para ele.