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Crítica: Wasp Network

Wasp Network, França/Brasil/Espanha/Bélgica, 2019


Filme é uma grande decepção e desperdiça uma fantástica história real de espionagem e intrigas políticas

★★☆☆☆


O aspecto mais impressionante de Wasp Network é como o diretor Olivier Assayas conseguiu desperdiçar uma incrível história de espionagem. O estilo quase episódico da narrativa do diretor pode funcionar muito bem no drama Acima das Nuvens (comentário aqui), mas aqui ele resulta em um amontado de cenas desconexas que dificilmente compõem uma narrativa. O que poderia ser um instigante mistério que se transforma em thriller político acaba sendo uma fria e entediante exposição de acontecimentos.

O mais frustrante em relação a essa produção é perceber que o material fonte lhe dá potencial para ser um novo clássico do cinema ou da televisão. As possibilidades são quase ilimitadas. O filme poderia ser um novo épico de três horas de Martin Scorsese ou uma minissérie no estilo de Chernobyl (comentário aqui) ou Wild Wild Country (comentário aqui). Mesmo O Espião, uma mediana minissérie do Netflix também inspirada em uma história real, consegue ser mais envolvente que Wasp Network. Seria possível, inclusive, realizar uma abordagem no estilo Narcos e contar a história ao longo de várias temporadas.

O material também oferece a possibilidade de uma abordagem no estilo de John Le Carré, o escritor que consolidou o gênero da literatura de espionagem. As duas mais recentes adaptações de seus trabalhos, as minisséries O Gerente da Noite e The Little Drummer Girl (resenha aqui), são ótimos exemplos de como se adaptar histórias complexas em poucos episódios. Mesmo filmes como O Espião Que Sabia Demais e O Homem Mais Procurado conseguem capturar e resumir a complexidade de suas obras em apenas duas horas de projeção.

Porém, o estilo narrativo de Wasp Network fica devendo até para representações caricatas do mundo da espionagem, como as de Feito na América e Operação Red Sparrow (crítica aqui). Os momentos que realmente capturam a atenção do espectador o fazem graças à pura intensidade dos fatos que estão sendo representados, e não à narrativa em si. E esses momentos só chegam na segunda metade do filme.

Depois de uma hora de marasmo e de um mistério insosso e desnecessário, a Rede Vespa dos Cinco Cubanos finalmente é apresentada ao espectador, mas de forma dolorosa. De repente, uma narração em off surge do nada e explica de forma didática e embaraçosa o que não foi mostrado na primeira metade do filme, funcionando como um desajeitado plot twist. Essa até é uma ideia interessante, mas muito mal executada.

O que torna essa história tão fantástica é a complexidade e a ousadia da rede de espiões montada pelo governo cubano em solo norte-americano. Apesar de não estar à altura dos esforços de contra-espionagem do FBI, a operação foi um grande exemplo de tradecraft por parte das forças de segurança da pequena ilha. Por exemplo, um dos ativos se torna um agente triplo, trabalhando para o governo cubano enquanto colabora com os grupos de dissidentes e também com o FBI.

Em outro ponto, os organizadores da operação se mostram preocupados com a solidez dos disfarces que estão sendo criados. Isso levanta questões sobre as quais o filme poderia, pelo menos, especular: como e há quanto tempo essas capacidades foram desenvolvidas pelo governo cubano? Dados que eles já possuíam muito mais know how, houve colaboração com os soviéticos? Essas mesmas técnicas de infiltração já eram utilizadas contra a dissidência interna? O quão inabalável era a fidelidade dos agentes e como eram selecionados?

A história também lida com um complexo cenário geopolítico, com grupos de dissidência política (como o Alpha 66, o CANF e o Brothers to the Rescue) utilizando de terrorismo, mercenários e atividades criminosas (como o tráfico internacional de drogas) para combater o autoritário regime cubano. No fim, o filme apresenta a Rede Vespa como um (questionável) esforço de contra-terrorismo promovido pelo governo de Fidel Castro, apresentando vários dos problemas éticos e morais comuns em outras operações de infiltração.

Dada que a versão de Wasp Network apresentada na 43ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo já é uma melhoria em relação à versão que foi durante criticada no Festival Internacional de Cinema de Veneza, não é de se esperar que essa adaptação tenha salvação. Claramente, Assayas não era o nome mais indicado para uma produção como essa, o que é um desperdício de seu talento e também das dedicadas atuações de atores como Penélope Cruz, Gael García Bernal, Wagner Moura e Edgar Ramírez, dentre outros.

* Assistido na 43ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo