Modo Noturno:

What If…? Explorando o Multiverso (Por Episódio)

* Contém SPOILERS da série What If…?

As possibilidades são infinitas, mas a primeira temporada de What If…? tem apenas nove episódios. Neles, o MCU se distancia ainda mais da segurança de suas fórmulas enquanto dobra a aposta em uma de suas grandes especialidades: a ação.

1. E se… a Capitã Carter fosse a primeira Vingadora?

Uma das principais limitações das séries lançadas anteriormente pelo MCU é a falta de ação e adrenalina. Porém, esse primeiro episódio de What If…? mostra que a série não está de brincadeira. A Capitã Carter (Hayley Atwell) luta e se move de uma maneira que o Capitão América em live action jamais foi capaz. De forma relativamente sutil, o episódio mostra o que o soro tomado pelo franzino Steve Rogers (Josh Keaton) poderia fazer com uma soldada que já era formidável em muitos sentidos.

A Rogers, sobra o papel de sidekick, se tornando o Bucky da Capitã Carter com a ajuda de um traje de Homem de Ferro criado por Howard Stark (Dominic Cooper) bem antes do nascimento de seu filho, Tony Stark. Além disso, a história mantém o romance entre Carter e Rogers, o que subverte o estereótipo de gênero que diz que o homem deve ser mais alto e mais forte do que a mulher em um relacionamento heterossexual (especialmente entre pessoas cisgênero).

2. E se… T’Challa se tornasse o Senhor das Estrelas?

O segundo episódio de What If…? mostra o poder da comunicação empática e da racionalidade. Ao ser levado para o espaço, T’Challa (Chadwick Boseman) consegue não apenas alterar a natureza dos Saqueadores, mas também fazer o próprio Thanos (Josh Brolin) mudar de lado. Isso ocorre porque ao invés de partir para a briga e criar inimigos, T’Challa provavelmente foi capaz de desarmar as situações mais conflituosas e estabelecer visões em comum que serviram como alicerce para negociações e acordos. Ele deve ter mostrado que é muito mais vantajoso agir de forma colaborativa e construtiva do que de forma conflituosa e destrutiva.

Thanos é o exemplo perfeito disso porque, apesar de manter suas ideias genocidas, ele experimenta fazer as coisas de um jeito diferente. T’Challa provavelmente lhe mostrou que havia outras formas de ajudar aos habitante do Universo, sem precisar matar metade deles. É claro que isso não teria dado certo se Thanos não estivesse disposto a ouvir ou se T’Challa tivesse simplesmente tentando impor sua própria visão. Se ele tivesse apenas rejeitado o ponto de vista de Thanos, o resultado poderia ser bem diferente.

3. E se… o mundo perdesse seus heróis mais poderosos?

O mistério de assassinato do terceiro episódio vem cheio de referências ao passado do MCU e aos suspenses do cinema. A principal dessas referências é ao filme Seven: Os Sete Crimes Capitais, com a história sendo dividida entre os acontecimentos de cada dia da semana (mostrados de forma semelhante aos letreiros de Capitão América: Guerra Civil) e com Nick Fury (Samuel L. Jackson) perguntando a Loki (Tom Hiddleston): o que tem na caixa? (quem conhece o filme vai entender…)

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A trama desse episódio também lembra a minissérie em quadrinhos Deadpool Massacra o Universo Marvel, na qual Deadpool perde os poucos parafusos que ainda tinha e usa toda a sua inteligência e invencibilidade para matar todos os heróis e vilões da editora, incluindo o Quarteto Fantástico, os Vingadores, os X-Men e o Homem-Aranha. Ao fim, ele começa a pular entre universos, levando-o a matar o Vigia Uatu (interpretado por Jeffrey Wright em What If…?) e até os próprios escritores da história, além de prometer que vai atrás dos leitores.

A minissérie teve duas continuações, nas quais Deadpool continuou viajando pelo multiverso, matando diferentes versões dos personagens da Marvel e dos personagens da literatura que os inspiraram. Na última minissérie, o arco se encerra com um grande conflito entre diferentes versões do próprio Deadpool, uma espécie de “Deadpool no Deadverso”.

4. E se… o Doutor Estranho perdesse seu coração ao invés de suas mãos?

No filme Doutor Estranho (crítica aqui), o renomado neurocirurgião Stephen Strange (Benedict Cumberbatch) perde quase completamente o movimento de suas mãos e recorre ao universo da magia para tentar uma cura. Porém, o aprendizado amplia seus horizontes e o faz enxergar as infinitas possibilidades para a sua existência, levando-o a deixar de lado a obsessão que o colocou nesse caminho. Mas e se essa obsessão não fosse tão fácil de abandonar?

No quarto episódio de What If…?, o que Strange perde é o amor de sua vida, a doutora Christine Palmer (Rachel McAdams), e a obsessão que ele tem é a de evitar a sua morte. Consequentemente, decisões equivocadas são tomadas e o personagem vai longe demais em sua busca por desfazer um Ponto Absoluto na linha do tempo. Ele vai até o fim, mas os resultados são ainda mais trágicos do que ele esperava. Além de ser o primeiro no qual há interação entre um dos personagens e o Vigia que narra a série, esse episódio pode ter relações com a saga principal do multiverso, especialmente com o filme Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa.

Para começar, a Anciã (Tilda Swinton) divide a linha do tempo mas mantém as duas ramificações no mesmo universo, levando o Dr. Estranho a coexistir com uma outra versão de si próprio. Algo assim já havia sido mostrado na série Loki e provavelmente é o que vai acontecer no próximo filme do Aranha, que trará outras versões e outros vilões do herói. O trailer do filme dá a entender que os problemas começam justamente quando Peter Parker/Homem-Aranha (Tom Holland) pede ao Doutor Estranho que desfaça um determinado evento na linha do tempo, levando a consequências imprevisíveis.

Além disso, especula-se que pode haver um envolvimento do (agora polêmico) vilão Mephisto, já que o Dr. Estranho do Mal absorveu muitas criaturas mágicas para poder acumular poder. O motivo da polêmica em relação a Mephisto é que jornalistas que cobrem os bastidores dessas produções haviam recebido a informação de que o vilão apareceria no MCU, o que fazia de WandaVision (crítica aqui) a produção ideal para isso. Porém, as previsões não se confirmaram. Pode ser que ele jamais apareça ou pode ser que ele apareceu justamente nesse episódio de What If…?, como uma das criaturas absorvidas pelo Dr. Estranho do Mal.

As duas imagens abaixo são da mesma criatura:

mephisto 1

mephisto 2

Além disso, o vilão já apareceu várias vezes nos quadrinhos no formato de uma serpente. E advinha qual foi um dos seres absorvidos?

mephisto 3

Ou seja, lá vamos nós de novo no bonde da especulação fragilmente embasada.

5. E se… Zumbis?

Se o principal objetivo de What If…? é imaginar os personagens da Marvel em situações completamente diferentes e imprevisíveis, a série está tendo um grande sucesso até agora. Sem as amarras da continuidade do universo principal do MCU, esse quinto episódio transforma vários dos super-heróis em assustadores zumbis. Os poucos heróis sobreviventes fazem o melhor que podem, enfrentando versões zumbificadas do Capitão América, do Gavião Arqueiro e do Falcão, além de uma aterrorizante Feiticeira Escarlate (Zumbi Escarlate?).

Muitos dos típicos acontecimentos das histórias de zumbi são incorporados aqui, inclusive a aparição de um sobrevivente que não é tão aliado quanto os outros sobreviventes esperavam. O episódio também faz claras referências a filmes como Zumbilandia e Invasão Zumbi (crítica aqui), com uma montagem que mostra as “regras” para se sobreviver em um apocalipse zumbi e com os heróis tendo que lidar com zumbis a bordo de um trem. O resultado é divertido e empolgante, deixando o público curioso para ver o Thanos zumbi em ação na segunda temporada (se é que os episódios realmente terão continuações).

6. E se… Killmonger tivesse resgatado Tony Stark?

No filme Pantera Negra (crítica aqui), um dos motivos pelos quais o vilão Killmonger (Michael B. Jordan) se destaca é que ele usa de manipulação e desinformação para desestabilizar o reino de Wakanda antes de tentar conquistá-lo. É um plano muito bem executado e que só não vai para a fase seguinte porque ele não sabia que o rei T’Challa (Chadwick Boseman) havia sobrevivido. Porém, imagine se ele tivesse colocado um plano semelhante em movimento dez anos antes, com a ajuda da influência e da inteligência do bilionário Tony Stark (Mick Wingert) e com a participação das forças armadas dos EUA. Esse é o enredo do sexto episódio de What If…?.

Assim como no filme, Killmonger tem um plano dentro de um plano dentro de outro plano. Não há limites para as mentiras que ele é capaz de contar e para as pessoas que ele é capaz de matar em rumo ao seu grande objetivo. E dessa vez, não há nenhuma surpresa capaz de tirar seu plano dos trilhos. Pelo menos, não por enquanto. O episódio termina com Shuri (Ozioma Akagha), que ainda é criança nessa época, formando uma aliança com Pepper Potts (Bett Hoyt) para tentar expor e derrotar o vilão. Espera-se que eles bolem um plano absurdamente genial, pois Killmonger segue sendo um dos vilões mais inteligentes e impiedosos do MCU.

7. E se… Thor fosse filho único?

Depois de uma sequência de episódios trágicos e sombrios, o sétimo episódio de What If…? é inteiramente dedicado à comédia. Um Thor (Chris Hemsworth) que não cresceu ao lado de Loki (Tom Hiddleston) se mostra ainda mais imaturo do que o Thor de seu primeiro filme. Pelo menos, ao invés de declarar guerra aos inimigos de Asgard, essa versão do Deus do Trovão está mais interessada em dar uma festa de proporções… intergaláticas. Infelizmente, o local escolhido é o frágil e “primitivo” planeta Terra, que está longe de ser capaz de aguentar a festança. Felizmente, a doutora Jane Foster (Natalie Portman) é mais uma vez capaz de “se entender” com o filho de Odin.

O episódio é claramente inspirado em filmes sobre festas descontroladas, como Se Beber Não Case, Projeto X: Uma Festa Fora de Controle e A Última Ressaca do Ano (crítica aqui), mas o grande destaque é uma épica batalha entre Thor e a Capitã Marvel (Alexandra Daniels), que é chamada para evitar a destruição do planeta. A luta nos lembra outras grandes batalhas entre super-heróis no MCU, como Thor contra o Homem de Ferro (The Avengers: Os Vingadores), Hulk contra o Homem de Ferro (Vingadores: Era de Ultron), Thor contra Hulk (Thor: Ragnarok, crítica aqui) e o Homem de Ferro contra o Capitão América (Capitão América: Guerra Civil), além do rápido confronto entre os Guardiões da Galáxia e alguns dos Vingadores em Vingadores: Guerra Infinita (crítica aqui).

8. E se… Ultron tivesse vencido?

O oitavo episódio de What If…? é grandioso em diversos sentidos. Primeiramente, as batalhas são espetaculares e ocorrem em proporções nunca antes vistas nem no MCU e nem em outros universos de super-heróis. Em segundo lugar, o Vigia (Jeffrey Wright) finalmente é retirado de sua zona de conforto e precisa se envolver seriamente nos acontecimentos. Esse envolvimento resulta na batalha mais grandiosa de todas, na qual o Vigia e Ultron (Ross Marquand) lutam através dos múltiplos universos do multiverso.

Esse episódio consolida a série como uma das melhores do MCU, talvez a melhor. As séries lançadas até agora tinham uma espécie de “fronteira” entre a história e a ação, com a trama sendo explicada por meio de diálogos e a ação servindo apenas para resolver os problemas. Em What If…?, a ação e a trama se integram de forma muito mais satisfatória, com as batalhas servindo tanto para prover momentos e visuais altamente empolgantes quanto para avançar a narrativa sendo apresentada. Com isso, a Marvel realmente leva seu universo compartilhado para outro patamar.

Outra grande novidade é que, assim como os primeiros filmes do MCU culminaram em The Avengers: Os Vingadores, os primeiros sete episódios de What If…? culminam nessa história compartilhada. Inicialmente, achava-se que a série ofereceria apenas algumas interessantes versões alternativas dos eventos do MCU, mas o que fica cada vez mais claro é que ela está indo na direção de um “Vingadores do Multiverso”, com a equipe sendo formada pelos heróis das diferentes realidades que foram apresentadas até agora. Dessa forma, a série não é apenas um conjunto de “material extra”, mas sim a primeira grande história do MCU que ocorre ao longo de múltiplas realidades, preparando o espectador tanto para os eventos de Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa quanto para os de Doctor Strange in the Multiverse of Madness.

9. E se… o Vigia quebrasse seu juramento?

Em apenas trinta minutos, o episódio final da primeira temporada de What If…? apresentou uma das batalhas mais épicas do MCU. Foi tão épica que até merecia um episódio mais longo. Essa era a oportunidade perfeita para a Disney+ lançar o primeiro longa metragem em animação do MCU, o que provavelmente atrairia ainda mais assinantes para o serviço. No geral, essa primeira temporada foi muito bem-sucedida em reproduzir a construção de uma equipe de heróis, assim como ocorreu durante os primeiros filmes desse universo compartilhado.

A presença do Doutor Estranho (Benedict Cumberbatch) do quarto episódio garante que os “Guardiões do Multiverso” formem uma equipe bem mais poderosa do que os Vingadores como nós os conhecemos. Ainda assim, o Ultron (Ross Marquand) que ameaça as realidades do multiverso é absurdamente poderoso. O grupo jamais consegue derrotá-lo em um conflito direto, recorrendo ao plano articulado pela Viúva Negra (Lake Bell) no episódio anterior para tirar as Joias do Infinito do poder do vilão.

O que essa série de nove episódios mostra é que a Marvel tem uma fantástica oportunidade de expandir o MCU para o universo da animação. Cada um desses episódios poderiam ter sido filmes com noventa minutos de duração, indo mais fundo nas possibilidades que cada um deles explorou. Como episódios de meia hora, eles funcionaram muito bem ao focar no ingrediente principal do MCU: as cenas de batalha entre heróis e vilões com superpoderes ou super-habilidades.

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