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Crítica: Kimi – Alguém Está Escutando

Kimi, EUA, 2022


HBO Max · Trailer · Filmow · IMDB · RottenTomatoes

★★★☆☆


A trama de Kimi: Alguém Está Escutando não apresenta nada realmente grandioso ou surpreendente, mas com ela o diretor Steven Soderbergh consegue mais uma vez realizar um ótimo exercício de suspense enquanto aborda temas relevantes para nossos tempos. Alguns dos exemplares anteriores desse subgênero do cineasta são filmes como Contágio (sobre uma pandemia), Terapia de Risco (sobre a indústria farmacêutica) e A Lavanderia (sobre a indústria da lavagem de dinheiro). O recente Nem Um Passo em Falso também se encaixa parcialmente nessa categoria, já que desemboca em uma trama sobre a indústria automobilística e seus impactos ambientais.

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Dessa vez, o comentário está mais na linha de documentários como O Dilema das Redes e Privacidade Hackeada. A protagonista Angela Childs (Zoë Kravitz) é uma tecnóloga que trabalha escutando os áudios de usuários da assistente virtual Kimi (que é feita nos moldes de Alexa, Siri e do Google Assistente) e sugerindo melhorias ao algoritmo de aprendizado. Porém, quando ela escuta um áudio que indica claramente que um crime foi cometido, suas tentativas de alertar as autoridades são recebidas com resistência por parte da empresa para a qual ela trabalha.

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Um dos aspectos que tornam Kimi realmente assustador é que o trabalho de Childs e as violações de privacidade apresentadas não estão muito longe da realidade. Em 2019, o Facebook se envolveu em mais um escândalo quando foi revelado que a empresa contratava pessoas terceirizadas para escutar e transcrever os áudios enviados pelo Messenger, aplicativo de mensagens da plataforma. No geral, o filme faz um ótimo trabalho na representação da fragilidade dos dados que milhões de usuários enviam diariamente para essas plataformas.

A trama representa fielmente a forma pela qual as violações de privacidade podem acontecer. Por mais que as práticas e políticas oficiais dessas empresas tentem garantir que os dados de usuários sejam tratados de forma cuidadosa e sigilosa, tudo o que certos funcionários precisam fazer para acessar informações íntimas é… querer. Não é à toa que Edward Snowden, que era um administrador de sistemas terceirizado pela NSA, conseguiu copiar e distribuir informações confidenciais às quais ele sequer deveria ter acesso.

Um dos tipos de ocorrência vazados por Snowden e reportados pela imprensa era a chamada LOVEINT, que se tratava de funcionários da agência de espionagem utilizando as tecnologias para colher dados sobre interesses amorosos do presente e do passado. Esse é apenas um dos exemplos de como esses amplos conjuntos de dados podem ser utilizados de forma inapropriada.

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Kimi também se assemelha a filmes mais sérios sobre as tramoias arquitetadas por grandes corporações, como Conduta de Risco e Syriana: A Indústria do Petróleo. Além disso, a narrativa consegue fazer um ótimo uso das tecnologias digitais integradas com o suspense, com Soderbergh mais uma vez incorporando uma pegada hitchcockiana a uma trama do Século 21. Isso aproxima o filme da ótima minissérie Clickbait, cujo sexto episódio é protagonizado por um personagem que possui um trabalho semelhante ao de Childs.

A trama de Kimi também se destaca por integrar a pandemia de COVID-19 na história, com o isolamento social contribuindo para o problema de agorafobia da protagonista. Esse último detalhe nos lembra imediatamente do filme A Mulher na Janela, cuja premissa sobre uma mulher agorafóbica que testemunha um crime resulta apenas em uma anacrônica e previsível coletânea de clichês. Em Kimi, o típico clima de paranoia e instabilidade mental funciona de forma muito mais satisfatória, a ponto de ter momentos que lembram o clássico A Conversação.

Apesar de se alongar demais na introdução, Kimi: Alguém Está Escutando oferece uma boa dose de suspense e imprevisibilidade uma vez que a trama finalmente engata. O final apresenta momentos de terror absoluto e descamba para uma resolução um tanto quanto exagerada, envolvendo múltiplos assassinatos. Ainda assim, além de ser um ótimo exercício de suspense, a trama serve como uma ótima plataforma para a demonstração dos talentos de Zoë Kravitz.

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