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Crítica: Katla – 1ª Temporada

Katla, Islândia, 2021


Apesar do ritmo lento, Katla é uma série dramática que apresenta mistérios cativantes e resoluções perturbadoras

★★★★☆


Um vulcão em erupção. Uma cidade parcialmente evacuada. Tempestades de cinzas. Uma delegacia montada em uma igreja. Paisagens belas e frias. Esse é o clima geral da primeira temporada de Katla, série islandesa de drama e suspense. Ao longo dos oito episódios, fica claro que os realizadores estão muito mais interessados no drama do que no suspense, apesar do mistério apresentado pela trama ser extremamente cativante. O desafio aqui é um ritmo que se mantém lento até o fim, sem grandes conflitos ou resoluções explosivas. Ao invés disso, a série investe tudo o que tem no suspense – ou mesmo, no terror – psicológico.

katla 1Na pequena cidade de Vik, sob a sombra das cinzas do vulcão Katla, um pequeno grupo de personagens resiste aos efeitos de uma erupção que já dura um ano. Porém, a população local passa a aumentar quando pessoas completamente cobertas de cinzas começam a aparecer na localidade. São pessoas que fazem parte do passado dos habitantes e que já estavam mortas ou desaparecidas há um ou mais anos. Os principais afetados são a protagonista Grima (Guðrún Ýr Eyfjörð) e seu pai Thor (Ingvar Sigurdsson), além do geólogo Darri (Björn Thors), que está no local estudando a erupção.

Os elementos dramáticos de Katla são tão bem executados e desenvolvidos que a impressão que temos é que estamos assistindo a um drama islandês nos moldes de Um Dia Muito Claro e A Resistência de Inga. Assim como a série, esses filmes mostram personagens lidando com a perda e com o luto de forma sincera e inusitada. A grande diferença é que a produção da Netflix vai lentamente inserindo elementos sobrenaturais na história, materializando e revelando as origens “factuais” de certas lendas do folclore local.

Em determinado ponto, Darri oferece uma explicação que leva a série mais para o lado da ficção científica do que da fantasia, mas isso não faz muita diferença. O importante aqui é como os personagens reagem à volta de pessoas cujas perdas eles já haviam aceitado ou estavam lutando para aceitar. Enquanto alguns buscam explicações científicas, outros recorrem a interpretações religiosas. Há também aqueles que tentam simplesmente aceitar a situação e seguir em frente com a vida, o que se mostra mais fácil de falar do que de fazer.

Parte do ritmo lento se deve à lenta reação dos personagens, que demoram para reconhecer o absurdo da situação na qual estão ou não se abalam seriamente mesmo quando o reconhecem. Por exemplo, se uma pessoa está em casa e de repente um familiar falecido aparece em outro cômodo dizendo “estou com fome”, é de se esperar que a tal pessoa tenha uma reação, no mínimo, INTENSA. Porém, no caso dos personagens de Katla, as reações são equivalentes a uma expressão de surpresa seguida da pergunta: “ok, você quer comer o quê?” Talvez seja uma questão cultural, mas é tão estranho que chega a ser involutariamente cômico em alguns momentos.

Nesse sentido, um personagem bem problemático é Kjartan (Baltasar Breki Samper), esposo de Grima, que além de passar a temporada inteira completamente alheio aos dramas ocorrendo na família e na cidade, também parece incapaz de perceber as mudanças ocorrendo ao seu redor. Em determinado ponto, para que uma determinada cena funcione, ele parece ser completamente desprovido de visão periférica e memória de curto prazo, prejudicando seriamente a suspensão da descrença.

katla 2A narrativa não acelera mesmo depois que suicídios e assassinatos (além de uns dois casos de cárcere privado) começam a acontecer, ou mesmo quando alguns dos personagens se reúnem e admitem que estão lidando com os misteriosos reaparecimentos. Apesar de ter potencial para ser uma nova Dark (resenha aqui), a série não parece estar interessada em ter esse mesmo nível de popularidade, ficando mais sóbria e dramática, sem grandes aventuras. Consequentemente, isso também coloca em risco a possibilidade de uma segunda temporada, a depender da disposição da Netflix em continuar investindo na produção.

O que realmente aumenta nos episódios finais de Katla é o desconforto causado por algumas cenas, incluindo a que mostra um perturbador jogo de roleta russa. Os personagens chegam no limite do que eles podem suportar psicologicamente, resultando em algumas resoluções pacíficas e em outras quase traumatizantes. Os níveis de desconforto causados por essas cenas dependem de cada espectador, mas com certeza elas não são leves.