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Crítica: Belfast

Belfast, Reino Unido, 2021


Trailer · Filmow · IMDB · RottenTomatoes

★★★★☆


Quem estiver esperando grandes surpresas na trama de Belfast já pode ir ajustando as expectativas. Escrito e dirigido por Kenneth Branagh e inspirado em suas próprias experiências, o filme está interessado apenas em contar uma história otimista e emocionante sobre uma infância tão atípica quanto feliz. O enredo é bem previsível, mas isso não diminui a beleza e o impacto de uma produção que emana um trágico sentimento de nostalgia em cada olhar e em cada cena, sempre marcados por uma fotografia estonteantemente bela.

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Para todos os efeitos, a infância de Buddy (Jude Hill) é perfeitamente normal, a não ser por ela se passar em uma Irlanda do Norte que estava prestes a explodir em um sangrento conflito. A situação sociopolítica da região deveria ser apenas o pano de fundo de sua história, mas sua família começa a ser cada vez mais afetada pela tensão social e pelos problemas econômicos, o que é agravado pelo fato de que seu pai (Jamie Dornan) trabalha fora do país e só viaja para casa a cada duas semanas. Com a piora da situação, ele e a mãe (Caitriona Balfe) passam a discutir a possibilidade de deixarem Belfast.

Para o pai, essa possibilidade está se tornando uma necessidade, pois ele está sendo pressionado a se juntar ao conflito armado. Para a mãe, a ideia é quase impensável. Ela não apenas nasceu e cresceu na cidade, mas também conta com toda uma rede de apoio que a ajuda a criar Buddy e seu irmão mais velho Will (Lewis McAskie). Porém, esse lugar extremamente familiar também está se tornando extremamente hostil para a família, especialmente por eles serem protestantes que moram em uma rua católica de um bairro majoritariamente protestante. Para eles e para os vizinhos, isso não é um problema; para os protestantes que querem “limpar” a vizinhança, isso é inaceitável.

Enquanto isso, Buddy parece estar tendo uma infância normal. Belfast faz questão de mostrar como sua visão de mundo, que também é a visão adotada pela narrativa, é influenciada pelos filmes e séries que ele assiste. Como consequência, a trama traça paralelos entre os conflitos urbanos presenciados por ele e clássicos do faroeste como Matar ou Morrer e O Homem Que Matou o Facínora, sendo que Buddy sempre vê seu pai como o heroico cowboy. Até a trama de Jornada nas Estrelas, que lida com a exploração de mundos distantes, e um trabalho escolar sobre a ida do homem à Lua ajudam o garoto a processar a possibilidade de terem que deixar Belfast.

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O ponto de vista infantil lembra produções como Indomável Sonhadora e Jojo Rabbit, mas a trama possui ecos muito mais óbvios de Cinema Paradiso. Em vários sentidos, esse é o Cinema Paradiso de Kenneth Branagh, pois também mostra parte do surgimento de seu interesse pelo cinema. Além disso, é difícil não se lembrar da sitcom Derry Girls durante Belfast, pois a série também conta uma história sobre inocência e amadurecimento na assustadora realidade da Irlanda do Norte durante os conflitos armados.

Tudo isso faz com que assistir a Belfast seja como assistir a uma memória do próprio Branagh, que passou por situações bem semelhantes durante a sua infância. A idealização que ele faz de seus pais e dos heróis do cinema e da TV é um claro sinal disso, realçando a impressão de que essa seria a história que Buddy contaria depois de crescer. Isso lembra uma das falas iniciais do filme Grandes Esperanças (1998): “Eu não vou contar a história do jeito que aconteceu. Eu vou contá-la do jeito que eu me lembro.”

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