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Crítica: 007 – Sem Tempo Para Morrer

No Time to Die, Reino Unido/EUA, 2021


Sem Tempo Para Morrer se desvia ligeiramente da fórmula e oferece uma melancólica despedida para o James Bond de Daniel Craig

★★★★☆


O recente Viúva Negra (crítica aqui) utilizou a fórmula da franquia 007 para dar uma despedida apropriada para a personagem-título, fazendo referências implícitas e explícitas ao mais famoso espião do cinema. 007: Sem Tempo Para Morrer faz algo equivalente, mas com uma abordagem muito mais grandiosa e muito mais melancólica do que o filme da Marvel. A despedida de Daniel Craig do papel de James Bond surpreende tanto por se manter extremamente fiel à fórmula quanto por se desviar completamente dela nos momentos mais dramáticos.

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O roteiro de 007: Sem Tempo Para Morrer é tão fiel à fórmula da franquia que parece ter sido “montado” a partir das “peças” presentes nos filmes anteriores. Há a volta de vilões do passado, os conflitos entre Bond e M (Ralph Fiennes), o cientista inescrupuloso que ajuda o vilão, os capangas implacáveis e excêntricos, a participação de Felix Leiter (Jeffrey Wright), o carro indestrutível, uma arma de destruição em massa roubada do governo, os equipamentos fornecidos por Q (Ben Whishaw), Bond abandonado em uma situação mortal, Bond na Jamaica, Bond na base secreta do vilão, Bond em alto mar à bordo de um bote salva-vidas e muitos outros elementos e referências.

Porém, a produção se destaca pelo que ela traz de novo. Para começar, o clima melancólico é estabelecido nas cenas de abertura e é mantido até os momentos finais, tirando muito da leveza característica da franquia. Os quatro outros filmes estrelados por Craig já eram menos leves do que as encarnações anteriores do personagem, mas aqui o lado dramático atinge seu pico. Isso destoa do que se espera de uma história de 007, mas ao mesmo tempo combina muito bem com o clima de despedida dessa entrada. Enquanto a maioria dos filmes de Bond deixam o espectador com um sorriso nos lábios, esse poderá deixá-lo com lágrimas nos olhos.

Além disso, o romance entre Bond e Madeleine Swann (Léa Seydoux) é mais profundo do que qualquer um vivido anteriormente pelo personagem. Apesar de Swann não ser tão carismática quanto a falecida Vesper Lynd (Eva Green), ela e Bond possuem uma conexão romântica que não se enfraquece mesmo com o passar dos anos. A química entre o casal é significativamente melhorada pelo uso da canção No Time to Die como um tema romântico. Essa música combina muito bem tanto com o clima melancólico da trama quanto com a natureza trágica do relacionamento entre eles.

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Outra grande novidade é a presença de um novo 007. Após a aposentadoria de Bond, esse código de identificação é passado para a agente Nomi (Lashana Lynch), que é tão capaz e tão confiante quanto seu antecessor. Lynch já havia roubado a cena em alguns dos momentos dramáticos de Capitã Marvel (crítica aqui), e em 007: Sem Tempo Para Morrer ela está impecável tanto nos momentos de ação quanto nos de comédia. Nomi e a agente Paloma (Ana de Armas) se mostram tão fantásticas que provavelmente vão deixar o público curioso por mais de suas aventuras. Elas oferecem a oportunidade perfeita para a franquia se expandir em outras direções, seja no cinema ou na TV.

Quem não se destaca é o vilão de Rami Malek, que, apesar de ameaçador, é subutilizado. Um dos motivos pelos quais Sem Tempo Para Morrer possui incríveis 163 minutos de duração é para que Blofeld (Christoph Waltz) e a organização Spectre sejam substituídos por Safin (Malek) e sua nova organização, e ainda assim o novo vilão não tem todo o desenvolvimento necessário. Ao fim, ele acaba sendo mais um vilão genérico que serve apenas como desculpa para que Bond saia da aposentadoria e viva mais uma aventura. Bond o descreve muito bem como “apenas mais um homenzinho raivoso em um longa linha de homenzinhos raivosos”.

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Isso só não é mais problemático porque 007: Sem Tempo Para Morrer foi projetado para ser um show de Daniel Craig. Por mais que outros personagens também se destaquem, eles jamais roubam os holofotes do homenageado. Não é comum que os intérpretes de Bond tenham direito a uma despedida de luxo como essa, mas ela certamente é melhor do que simplesmente trocar de ator depois de uma entrada ruim na franquia. No caso de Pierce Brosnan, seu último Bond foi a “bomba” 007: Um Novo Dia Para Morrer. No caso de Craig, poderia ter sido o altamente questionável 007 Contra Spectre.

007: Sem Tempo Para Morrer pode não ser o mais divertido dos filmes de 007, mas com certeza é o mais emocionante deles. Enquanto 007: Cassino Royale é o que tem as melhores cenas de ação e 007: Operação Skyfall é o mais exemplar dos filmes com Craig, Sem Tempo Para Morrer é uma espécie de Vingadores: Ultimato (crítica aqui) para sua encarnação como o personagem. O filme traz de volta algumas ótimas memórias da franquia e dá um final tão explosivo quanto inesquecível para essa versão do herói.

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