Crítica: Digger

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Digger, EUA, 2026



Trailer · Letterboxd · IMDB · RottenTomatoes

★★★☆☆


A sátira e a comédia de Digger não funcionam tão bem quanto o diretor Alejandro G. Iñárritu gostaria, apesar de, paradoxalmente, serem extremamente eficazes na transmissão das mensagens centrais do filme. A abordagem adotada pelo roteiro, que envolve bastante metalinguagem e alguns plot twists, é razoavelmente inovadora e bem interessante, adicionando camadas em uma trama que poderia ser bem menos ambiciosa. Se o resultado fica abaixo de todo o potencial que o filme tinha é porque Iñárritu pesa a mão tanto na caricatura (o que é proposital) quanto no tempo de duração do filme, que poderia ser uns vinte ou trinta minutos mais curto.

tom cruise como digger

Um campo de exploração de petróleo na Groenlândia explode e deixa uma geleira gigantesca flutuando no Mar do Norte. Se ela atingir o continente europeu, a energia liberada pelo impacto e a água liberada pelo derretimento do iceberg poderiam causar tsunamis e enchentes devastadoras para a Europa e para outras partes do mundo. Essa situação assustadora deixa muitas autoridades e muitos especialistas congelados de medo. Porém, o magnata do petróleo Digger Rockwell (Tom Cruise), dono do campo de exploração que causou o desastre, enxerga na crise uma oportunidade de sair ainda mais rico e poderoso.

Percebendo que dessa vez ele não vai conseguir se livrar da responsabilidade por suas decisões inconsequentes, Digger adota estratégias ousadas para “navegar” por essa crise. Uma delas envolve um discurso épico em uma versão caricata do parlamento europeu, no qual Digger aponta para a hipocrisia de todos aqueles que o criticam por continuar explorando petróleo enquanto o mundo já sofre com as consequências do aquecimento global. Em sua defesa, ele mostra que só continua a exploração porque as nossas sociedades continuam comprando e queimando combustíveis fósseis como se não houvesse amanhã.

Esse argumento é parcialmente válido, mas Digger “esquece” de lembrar o seu público de que foi a própria indústria do petróleo que sabotou o desenvolvimento e a adoção de fontes alternativas de energia. Se essas tecnologias alternativas tivessem recebido investimentos pesados desde os anos 1970, que foi quando os cientistas começaram a alertar sobre o aquecimento causado pela atividade humana, talvez hoje a adoção delas seria muito menos traumática. Porém, assim como alguns dos personagens da série Landman, os grandes defensores do petróleo continuam afirmando que nós não temos outra opção a não ser continuar queimando combustíveis fósseis até o ponto no qual a humanidade fique à beira da extinção.

A sátira e o pastiche de Digger tentam realçar o quão ridículas e imaturas são as decisões tomadas pelas pessoas no poder diante dessa situação, com homens adultos mostrando ter prioridades completamente distorcidas diante de uma crise que pode afetar as vidas de bilhões de pessoas e o próprio futuro da humanidade. Além de Digger, o presidente Compson (John Goodman) e seu gabinete de crise representam o que há de mais irracional na humanidade. Compson serve como uma sátira tanto de Donald Trump quanto de muitos outros narcisistas que se encontram nos altos escalões do poder e se importam apenas com seus próprios interesses.

digger e o doutro ganesh

Esses e outros aspectos fazem com que Digger tenha muitos pontos em comum com a comédia Não Olhe Para Cima, que satiriza a mesma realidade satirizada por esse novo filme. A grande diferença é que Digger possui um lado mais dramático, fazendo uso da metalinguagem para tecer um poderoso comentário sobre como a humanidade é capaz de processar tragédias como essa. Se nós precisamos que essas histórias sejam contadas com a ajuda de um humor tão sombrio quanto ridículo é porque contá-las com toda a gravidade e toda a seriedade que elas merecem seria demasiadamente depressivo, desanimador e desmoralizador.

No geral, nós preferimos não pensar em termos tão pessimistas e nos impactos que o nosso dia a dia tem sobre o planeta no qual nós vivemos. É mais fácil acreditar que alguém, em algum lugar, vai dar um jeito na situação e tudo vai ficar bem. Porém, esse alguém em algum lugar precisa de toda a ajuda e toda a colaboração possíveis para ter uma chance de realmente reequilibrar os nossos sistemas climáticos, se é que isso ainda é possível.

Infelizmente, Digger não consegue ser tão engraçado quanto tenta ser, apesar de ser muito bem-sucedido em entregar a sua mensagem. A trama acaba funcionando como uma espécie de continuação de produções como Sangue Negro e Syriana: A Indústria do Petróleo, mostrando o futuro que nos aguarda se continuarmos permitindo que homens como os personagens desses filmes tomem decisões que colocam em jogo o futuro da nossa espécie.


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