Os Patriotas do Tipo Vichy

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A Batalha de Verdun foi a mais longa (durou praticamente 10 meses) e uma das mais sangrentas batalhas da Primeira Guerra Mundial, se tornando um símbolo da determinação francesa e da capacidade de destruição de uma guerra. Nela, o exército francês evitou uma invasão alemã ao norte da cidade de Verdun. Dentre os vários comandantes que participaram da ação do lado francês, um ficaria conhecido como O Leão de Verdun: o então general Philippe Pétain.

Após o fim do conflito, em 1919, Pétain receberia a patente de marechal e se tornaria um dos mais respeitados heróis de guerra da História francesa. Além dos triunfos estratégicos, foi ele quem, ainda durante a citada batalha, conseguiu recuperar a moral das tropas francesas e controlar diversos motins que haviam sido iniciados por soldados descontentes com os rumos estratégicos do conflito, que envolvia ataques praticamente suicidas por parte da infantaria.

Pétain em 1919, aos 63 anos de idade.

Vinte anos depois, em 1939, Pétain se encontrava em uma posição política, como embaixador francês na Espanha. Porém, o início da Segunda Guerra Mundial e uma nova invasão da França pela Alemanha mudariam completamente o destino do herói de guerra. Já na casa dos 80 anos de idade, ele foi chamado de volta ao país para fazer parte de um novo governo, na esperança de que o seu envolvimento renovaria o sentimento de patriotismo e o espírito de resistência do povo francês.

Porém, após a derrota francesa na Batalha da França, Pétain foi um dos membros do governo que, diante da precariedade da situação, apoiava um armistício com a Alemanha. Quando Churchill recomendou que os franceses continuassem a resistência em um combate de guerrilha, Pétain respondeu que não valeria à pena reduzir Paris a ruínas em nome de uma vitória que jamais chegaria. E assim, enquanto o general Charles de Gaulle deixou o país para formar o governo alternativo da França Livre, Pétain se tornou o líder do governo colaboracionista da França de Vichy.

Inicialmente, essa decisão de Pétain e de outros colaboracionistas pareceu ser extremamente estratégica, evitando mais destruição no país e mais derramamento de sangue. Além disso, os membros desse novo governo acreditavam que a Alemanha sairia vencedora ao final do conflito, o que faria dessa colaboração uma forma de garantir o futuro e a independência do país.

O armistício assinado em junho de 1940 deixou a França dividida em duas partes. A metade norte continuaria sob a ocupação da Alemanha Nazista, enquanto a metade sul seria controlada pelo governo francês estabelecido na cidade de Vichy.

Pétain encontrando Hitler em 1940, aos 84 anos de idade.

Na prática, a França de Vichy foi um Estado fantoche que beneficiou significativamente os nazistas. Sem ter que se preocupar com uma completa resistência militar, as forças alemãs poderiam concentrar seus esforços em outras de suas frentes expansionistas. Além disso, os desconexos grupos que formaram a insurgência da Resistência Francesa precisavam suportar tanto a repressão alemã quanto a repressão da polícia e das milícias do governo de Vichy.

Esse governo também era extremamente autoritário, chegando a trocar o lema do país de “Liberdade, Igualdade e Fraternidade” para “Trabalho, Família e Pátria”. Pétain havia se tornado um ditador com poderes absolutos sobre o Estado e ideologicamente alinhado com a Alemanha Nazista, por mais que estivesse interessado em manter a França como um país independente. Ele também deu início a um culto de personalidade, se colocando no centro do poder e se apresentando como uma figura quase messiânica.

O alinhamento ideológico com a Alemanha Nazista se destacava em termos de antissemitismo, com a França de Vichy realizando uma terrível perseguição dos judeus do país, tanto os franceses quanto os estrangeiros. Em determinado ponto, os judeus foram proibidos de possuírem negócios e tiveram a sua participação na vida pública severamente limitada. Essas medidas, obviamente, tinham o apoio da parte antissemita e racista da população francesa.

Também foram presos e/ou enviados para campos de concentração os apoiadores de De Gaulle, os maçons, os povos ciganos e os comunistas do país. Refugiados estrangeiros que estavam desempregados (inclusive alemães que haviam fugido do regime nazista) e membros não-franceses da Legião Estrangeira também foram presos e perseguidos.

Dessa forma, fica claro que a França de Vichy não foi uma mera “concessão estratégica”, mas sim um Estado fascista (ou quase fascista) que se aproveitou da ocupação alemã para perseguir os franceses que eram considerados “inferiores” ou “indesejados” pelos membros do governo. Limitado a uma visão distorcida e idealizada do passado, Pétain queria que o país voltasse a uma suposta “pureza” racial, ideológica e religiosa que jamais existiu.

E assim, um dos maiores heróis de guerra da História da França se tornou um de seus maiores traidores.

Pétain em 1945, aos 89 anos de idade, em seu julgamento por alta traição.

Em 1942, a França de Vichy deixou de servir ao seu propósito estratégico para os nazistas, já que as forças Aliadas conseguiram ocupar as colônias francesas na África. A Operação Anton concretizou a ocupação nazista dessa parte da França que era supostamente independente, apesar do governo de Vichy ainda existir como fantoche dos alemães.

Em 1944, conforme as forças Aliadas avançavam, Pétain tentou se distanciar dos crimes cometidos por uma das milícias colaboracionistas e escreveu uma carta criticando os “excessos” cometidos. O colaboracionista de extrema-direita Joseph Darnand teria ironizado esse posicionamento de Pétain, dizendo que ele “deveria ter pensado nisso antes”.

No mesmo período, Pétain se recusou a seguir ordens de Hitler e chegou a ser preso pelos alemães. Após a libertação de Paris, ele se recusou a fazer parte de um novo governo colaboracionista formado fora da França.

Por fim, em 1945 Pétain voltou para a França e foi julgado como um traidor. Ele recebeu a pena de morte, mas, devido ao seu passado heroico e à sua idade avançada, sua sentença foi comutada para uma prisão perpétua. Apesar de sua saúde ter começado a se deteriorar, as autoridades temiam que sua libertação (ou comutação de pena para uma prisão hospitalar) seria extremamente mal vista e criticada pela população francesa.

Pétain morreria em 1951, aos 95 anos de idade, em uma residência particular.

A grande lição deixada pela trajetória de Philippe Pétain é de que todo colaboracionismo será castigado. Por mais que acreditasse que estava defendendo os interesses do país ao ser submisso e subserviente aos alemães, ele foi apenas um idiota útil para os interesses nazistas. Suas ilusões de independência foram destruídas assim que seu governo deixou de ser útil para os interesses da potência invasora. Sua obediência a Hitler foi “recompensada” com desrespeito e humilhações.

Já o povo que um dia o amou passou a não suportar a ideia de sua libertação por motivos humanitários. Em 2018, o presidente da França Emmanuel Macron causou uma grande polêmica ao elogiar Pétain como um “grande soldado” na Primeira Guerra Mundial, apesar de suas “escolhas funestas” durante a Segunda Guerra. Um deputado afirmou: “Pétain não pode ter sido acusado de alta traição, sentenciado à degradação nacional e à morte em 1945 e ‘ao mesmo tempo’ receber uma homenagem nacional em 2018.”

Ao se alinhar com interesses estrangeiros para realizar um plano pessoal de poder e reprimir os compatriotas que ele considerava “inferiores”, Pétain conseguiu apenas ajudar uma potência invasora a se aproveitar dos recursos e da passividade de seu país. Paris foi poupada de bombardeios aéreos e do fogo da artilharia, mas o sangue dos franceses ainda foi derramado. A diferença é que ao invés de caírem no campo de batalha defendendo a pátria, muitos foram perseguidos e mortos de forma cruel e covarde, inclusive mulheres e crianças.

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