Top 10 2013 – 3° lugar: Um Corpo que Cai

SPOILERS, cara.

3. Um Corpo Que Cai (1958)

Sim, mais Hitchcock. Além dos já citados na Parte 1 desse post, ainda esse ano fiquei impressionado com a profundidade psicanalítica de Marnie – Confissões de uma Ladra e com o fantástico thriller de espionagem (e propaganda pró-americana) Cortina Rasgada. Desse último, alguns momentos dignos de nota:

  • Em uma casa na zona rural da Alemanha Oriental, um físico nuclear americano e uma dona de casa alemã são obrigados a confrontar um experiente agente da Stasi. O físico e a dona de casa não se conhecem e nem um dos dois fala a língua do outro. Tudo o que eles tem é o que está disponível na cozinha. Temos então uma das cenas de assassinato mais angustiantes do cinema. Desesperados, eles improvisam como podem e o agente tem seu sofrimento prolongado por vários minutos por puro amadorismo de seus executores. Ao fim, você está tão ofegante quanto os assassinos.
  • Em uma das cenas de maior tensão do filme, o físico americano precisa extrair uma fórmula de um físico alemão sem que esse último saiba que está sendo enganado, e isso enquanto o campus é evacuado por agentes da Stasi à procura do americano. O tempo é mínimo e a informação é vital. Temos então uma cena de suspense com dois professores diante de um quadro resolvendo equações. No último instante, a resolução é escrita no quadro, o americano a decora e sai correndo. Como se resolver equações de física nuclear já não fosse emocionante o suficiente…

Mas é em “Um Corpo que Cai” que Hitchcock se supera. Sua primeira reação é pensar que essa também é uma tragédia a la Almodóvar, mas então você se lembra que Almodóvar é que foi influenciado por Hitchcock, e não o contrário. E é então que você reconhece em “Um Corpo que Cai” a origem de boa parte dos maneirismos do diretor espanhol. Esse filme é uma das sementes de seu trabalho.

Um ex-policial, que adquiriu um patológico medo de alturas após um evento traumático, é contratado por um empresário para seguir sua esposa. A mulher desaparece durante as tardes e quando chega em casa não consegue explicar o que andou fazendo. O desenvolvimento aqui é lento. Por alguns dias, ele a segue pela cidade. Um florista. Uma pousada. Um museu. Um quadro. Repetidamente. Em determinado ponto, a Golden Gate e uma tentativa de suicídio. É aí que eles se aproximam. Mas há algo muito estranho aqui. Todos os dias, ela refaz aqueles passos, como um ritual. No museu, ela senta diante de um quadro e o encara fixamente por um bom tempo.  Ela não sabe porque. Todas essas atividades estão ligadas à uma mulher do passado, pintada no citado quadro. A história toma conotações sobrenaturais: estaria ela sendo possuída por um espírito do passado? Não há outra explicação. Ela sabe de coisas que só a mulher retratada no antigo quadro poderia saber. Quando ela se junta ao ex-detetive para tentar desvendar esse mistério, os dois se apaixonam e o clima de romance toma conta da narrativa.

Nesse primeiro ato, o suspense não está na antecipação do que vai acontecer. Não há tempo para se preocupar com isso, pois você nem tem certeza do que está acontecendo. Não apenas isso, mas você está ciente de que não sabe o que está acontecendo. Você sabe que está olhando apenas para a superfície da água. Você não quer saber o que vai acontecer, mas sim o que está abaixo da superfície. O que vai acontecer parece óbvio.

Mas algo surpreendente acontece. Uma tragédia sem aviso mexe com os medos mais profundos do protagonista. Um tempo depois, após um colapso nervoso causado pelo evento, ele tenta seguir a vida. Algo nele ainda procura o que foi perdido, mas, mais cedo ou mais tarde, ele teria que se conformar e seguir vivendo. O problema é que ele encontra algo. Mais do que nunca, o espectador não sabe o que está acontecendo e como isso pode ser possível. O lado sobrenatural toma conta e você pensa nas possibilidades de vida após a morte e reencarnação. Mas a seguir, todas as perguntas são respondidas ao espectador. E são respostas óbvias, o que apenas demostra o poder dessa narrativa, pois você é levado a descartar sua racionalidade e aceitar que está assistindo um thriller sobrenatural. É revelado que um crime foi cometido, mas, à essa altura, isso é o de menos, apenas o pano de fundo. Afinal, não temos aqui um suspense policial, mas sim um “suspense romântico”. Não se trata de esclarecer o crime e pegar o bandido, mas de que futuro eles terão.

Ao contrário do primeiro ato, nesse segundo você sabe exatamente o que está acontecendo, até os mínimos detalhes, mas, impressionantemente, é mantido o mesmo nível de suspense. A situação do “novo” casal é angustiante: nosso protagonista é tomado por uma poderosa obsessão e não mede esforços para tentar adaptar a realidade ao seu redor ao que ele deseja; enquanto isso, ela é refém das próprias mentiras e teme que se revelar toda a verdade irá perder tudo o que eles têm ou que poderiam ter. A trama é um tanto cruel. Quanto mais você quer que tudo seja esclarecido e que eles se resolvam, mais a obsessão cresce, tornando-se psicologicamente violenta. O suspense aqui está no dia-a-dia do casal. Compras. Cabeleireiro. Jantar. Tudo cada vez mais sufocante. Por fim, ao invés de um hollywoodiano final feliz, a verdade é descoberta e a violenta obsessão se torna uma violenta frustração. Parafraseando Marx, aqui a história também se repete, mas na primeira vez como farsa e na segunda como tragédia. Ao espectador resta imaginar o estrago que essa segunda tragédia fará na psique do protagonista, se ele terá condições de explicar a situação às autoridades e, principalmente, se elas acreditarão nele. Além disso, fica a impressão de que aquele crime que tínhamos como pano de fundo, depois de tudo acabado, pode ser considerado um crime perfeito.

Desde que o assisti, toda vez que me pergunto qual seria o melhor filme de todos os tempos, esse “Um Corpo que Cai” é um dos 3 ou 4 que inicialmente me vem à mente. Talvez essa análise não o faça jus, mas é uma experiência e tanto.