Crítica: Han Solo – Uma História Star Wars

Solo: A Star Wars Story, EUA, 2018


Filme não fica à altura do universo Star Wars, mas é uma ótima aventura

★★★☆☆


Se tivesse sido lançado no final da década de 1980 ou início dos anos 1990, Han Solo: Uma História Star Wars talvez teria alcançado o status de cult. Porém, para os padrões de 2018, essa ótima aventura está fadada a cair no esquecimento tanto nos próximos anos quanto logo depois da sessão. A narrativa tem um ritmo fantástico e as cenas de ação são boas o suficiente, mas nada aqui atinge um nível “Star Wars” de grandiosidade. Não há nada terrivelmente ruim, mas também não há nada inesquecivelmente bom.

Talvez os envolvidos tenham sentido o peso dessa popular franquia, a começar pelo ator Alden Ehrenreich, interprete de Han Solo. Apesar de o diretor Ron Howard dizer que o objetivo do estúdio nunca foi o de fazer uma imitação de Harrison Ford, a situação chegou a um ponto no qual um professor de atuação foi contratado para ajudar Enrenreich a se aproximar mais do Han Solo original. Nesse tipo de situação, fazer uma releitura do personagem é quase sempre o ideal. Porém, nesse caso específico, uma vez que Ford “completou” o cínico e esquentado Han Solo com muito de sua própria personalidade, o resultado poderia ficar mais interessante se o novo ator tentasse interpretar o personagem “Harrison Ford interpretando Han Solo”.

O trabalho de Ehrenreich não foi facilitado pelo roteiro. Ao invés de compor uma versão de Han Solo diferente do contrabandista que conhecemos em Star Wars: Uma Nova Esperança, a escrita deixa a impressão de que o personagem sempre foi daquele jeito. Por isso, o Han Solo visto no final é praticamente o mesmo que vimos no início da projeção, com muitas mudanças em seu mundo exterior e pouca evolução interior. Se houve alguma tentativa de contrastar o Solo de Ehrenreich com o de Ford, a narrativa não a deixa clara. Além disso, nem o roteiro e nem ator parecem compreender a veia cômica do personagem, que basicamente não funciona aqui.

A interpretação de Ehrenreich foi apenas um dos problemas enfrentados pela produção. Originalmente, o filme estava sendo dirigido pela dupla Phil Lord e Chris Miller, mas os dois foram demitidos depois que as diferenças criativas entre eles e os produtores se tornaram insustentáveis. Ron Howard assumiu o comando em junho de 2017 e acabou refilmando 70% do material, o que fez o custo da produção subir para fantásticos 250 milhões de dólares. Talvez seja por isso que o estúdio não parece ter investido tanto em marketing. Ou talvez eles perderam a fé no produto que estavam prestes a lançar.

O que faltou de carisma para o protagonista foi compensado por seus coadjuvantes. O Beckett de Woody Harrelson não é nada mais que uma das versões alternativas do próprio ator, e isso é mais do que o suficiente. Emilia Clarke faz de Qi’ra, interesse romântico de Solo, uma mistura de mocinha com femme fatale cuja evolução poderia ser interessante de acompanhar. Já Paul Bettany injeta uma dose extra de selvageria e sadismo a seu Dryden Vos, elevando um vilão caricato a um dos elementos mais interessantes da trama.

Mas quem está perfeito em seu papel é Donald Glover como Lando Calrissian. Esse é o papel dos sonhos do ator e essa admiração transparece na tela. Com uma estilosa e já icônica interpretação, Glover aumenta suas chances de aparecer em outros filmes da franquia, como no anunciado sobre Boba Fett ou mesmo em um possível filme solo do personagem. Sua co-piloto é a droide L3-37, interpretada de forma hilária pela atriz e escritora Phoebe Waller-Bridge, cujo estilo e temáticas habituais caem como uma luva para a personagem. Já Chewbacca (Joonas Suotamo) mais uma vez aparece como mero coadjuvante, mesmo essa sendo a oportunidade perfeita para ir mais fundo no passado do personagem. Porém, como já disse antes, nem o protagonista teve um tratamento tão profundo assim.

Apesar de representar uma oportunidade perdida de ir mais fundo em todos esses personagens, Han Solo: Uma História Star Wars diverte de forma leve e descompromissada. Mesmo os fãs mais fiéis, que vão ficar decepcionados com um tratamento tão superficial desses ícones da cultura pop, podem se divertir com essa interessante aventura, desde que adéquem suas expectativas. Esse é um ótimo “filme pipoca” que seria melhor ainda se não carregasse o peso da franquia Star Wars e de alguns de seus mais amados personagens.

Comentários Com Spoilers

A maior surpresa de Han Solo: Uma História Star Wars é a aparição de Darth Maul (Ray Park/Sam Witwer), Lord Sith que aparentemente havia morrido em Star Wars: A Ameaça Fantasma. Quem (como eu) não acompanha as séries animadas da franquia, não sabia que o vilão sobreviveu a seu duelo com Obi-Wan Kenobi (Ewan McGregor) e entrou no mundo do crime. Na série, o Sith vai em busca de vingança depois de quase morrer em uma das melhores batalhas de sabre de luz de toda a franquia. Aqui, ele aparece em uma cena rápida, que deixa aberta a possibilidade de sua aparição em outros spin-offs.

Em seu ato final, o filme mostra como Solo teve um papel vital no surgimento da Aliança Rebelde, o que faz a conexão tanto com a trilogia original quanto com o outro spin-off já existente, Rogue One: Uma História Star Wars (crítica aqui). Isso acaba dando uma melhor justificativa para esse filme de Solo: já que ele não desenvolve personagens, pelo menos adiciona mais detalhes nessa narrativa construída ao longo de várias décadas e com várias gerações de fãs.