Crítica: A Favorita

The Favourite, Irlanda/Reino Unido/EUA, 2018


Comédia dramática explora a fragilidade humana nos corredores do poder

★★★★☆


A Favorita faz uma perfeita combinação entre sátira política e estudo de personagens. A história gira em torno das intrigas palacianas que ocorrem entre suas três protagonistas, evidenciando as consequências geopolíticas de ações tomadas com motivações quase sempre íntimas e pessoais. O resultado é uma narrativa que se mostra incrivelmente relevante diante da atual situação política do mundo e que, em seus melhores momentos, lembra o trabalho do satirista Armando Iannucci, responsável pelos filmes Conversa Truncada e A Morte de Stalin (crítica aqui) e criador das séries Veep e The Thick of It (comentário aqui).

O roteiro de Deborah Davis (que trabalhou nele desde 1998) e Tony McNamara apresenta uma versão ficcionalizada da corte da Rainha Anne (Olivia Colman) da Grã-Bretanha, uma monarca imatura e emocionalmente instável que durante a maior parte do tempo se comporta como uma criança mimada e de comportamento imprevisível. Diante de seu despreparo, quem realmente cuida dos assuntos de Estado é sua amiga e confidente Sarah Churchill (Rachel Weisz), Duquesa de Marlborough, de forma que a rainha sempre toma as decisões apontadas pela duquesa.

Esse equilíbrio é abalado com a chegada da Baronesa de Masham, Abigail Masham (Emma Stone), prima de Sarah. Apesar do título nobre, Abigail não faz parte da nobreza, já que seu pai perdeu todo o dinheiro da família apostando em jogos de cartas. Quando tinha quinze anos, o pai a perdeu em um jogo (!) e desde então ela vive uma realidade de abusos, estupros e pobreza. Quando se torna empregada na residência real, ela vê na frágil rainha uma chance de recuperar seu status, ainda que isso exija que ela vá além de seus limites morais.

Tem início então a batalha entre a astuta Sarah e a desesperada Abigail pelo favoritismo da rainha. Por mais que Sarah tenha muito mais influência e recursos, Abigail é uma pragmática e manipuladora sobrevivente, e jamais esquece da realidade que a espera caso saia derrotada desse duelo. Além disso, ela não precisa conquistar toda a corte ou toda a classe política, mas sim uma única pessoa.

De acordo com registros históricos, o embate entre as duas primas realmente ocorreu na corte da Rainha Anne, mas a maioria dos detalhes e eventos mostrados no filme são ficcionais. O temperamento instável e a saúde frágil da rainha também é confirmado por fontes históricas, assim como as inúmeras tragédias que a seguiram durante a vida, inclusive inúmeras gravidezes que terminaram em abortos espontâneos ou em natimortos.

A trama de A Favorita se passa durante a Guerra da Sucessão Espanhola e mostra como as relações entre as três protagonistas influenciaram o destino de milhões de pessoas e o futuro da Europa. Essa situação reflete a atual tendência mundial de se eleger líderes nacionais despreparados tecnica e emocionalmente para lidar com assuntos que podem afetar as vidas de centenas de milhões (ou mesmo bilhões) de pessoas.

O perigo de se ter um governante imaturo e impulsivo é que ele pode ser facilmente manipulado por quem estiver ao seu redor. Algumas pessoas podem achar que um governante impulsivo é difícil de ser manipulado, pois ele faz apenas o que lhe vier à mente. Porém, um manipulador razoavelmente bom é capaz de garantir que tal governante só tenha as ideias que lhe interessem. Isso lembra uma das falas do filme Operação Red Sparrow (crítica aqui): “Todo ser humano é um quebra-cabeça de carência. Se você se tornar a peça que falta, ele lhe contará qualquer coisa.”

Uma situação como essa é menos problemática quando os manipuladores em questão são burocratas competentes e realmente preocupados com os interesses da nação. Entretanto, nos dia de hoje, isso gera uma crise de representatividade, pois as pessoas tomando as decisões não são realmente as que foram eleitas para tal. Em outras palavras, quem tem poder sobre o governante é quem realmente exerce o poder.

Por outro lado, se os corredores do poder forem ocupados por burocratas despreparados e interessados em defender apenas os próprios interesses, então a nação está em grave perigo. Isso evidencia a forma como um líder errático pode deixar um país à mercê de um grupo de pessoas que nem sempre são escolhidas pelos motivos corretos. Ou seja, à mercê da sorte.

O exemplo mais óbvio de problemas como esses no mundo atual é a Casa Branca de Donald Trump, como evidenciado nessas manchetes: Equipe considera Trump uma criança, diz autor de livro sobre Casa Branca; Anúncio de sobretaxas mostra grau de desorganização da Casa Branca; Funcionário anônimo do governo Trump detalha caos na Casa Branca; Como o estilo volátil e imprevisível de Donald Trump faz sua própria equipe boicotar suas decisões.

Paralelos com o mundo atual à parte, A Favorita é um filme que diverte enquanto deixa evidente o talento do diretor Yorgos Lanthimos e do trio principal de atrizes, especialmente o de Olivia Colman.

Rachel Weisz e Emma Stone estão impressionantemente bem em seus papéis, mas Colman rouba a cena ao se entregar de corpo e alma a uma personagem trágica e “quebrada” física e psicologicamente, fazendo com que o espectador ria dela sem deixar de sentir o peso dos infortúnios pelos quais ela já passou. Pode-se dizer que esse é um filme sobre algumas das mulheres mais poderosas da História e de como suas experiências como mulheres definiram não apenas suas personalidades, mas também os destinos de milhões de pessoas.