Modo Noturno:

A Série Watchmen e os Juízes de Toda a Terra

* Contém SPOILERS da série Watchmen (2019)

Lon­ge de ti fazer tal coisa: matar o justo com o ímpio, tratando o justo e o ímpio da mesma maneira. Longe de ti! Não agirá com justiça o Juiz de toda a Terra?
– Gênesis, 18:25

Assim como a obra original, a série Watchmen (2019) veio acompanhada de textos complementares que dão mais contexto e profundidade para os eventos principais. Dessa vez, esse material veio na forma da Peteypedia, um site disponibilizado pela HBO com o conteúdo (em PDFs e JPGs) produzido e coletado pelo personagem Dale Petey (Dustin Ingram), um agente do FBI com formação em História e fixação em heróis mascarados. Um resumo geral em português pode ser lido aqui.

Com dois ou três textos disponibilizados após cada episódio, a coletânea ajuda a entender qual o status atual dos heróis originais diante dos olhos do mundo. Enquanto acredita-se que o Dr. Manhattan/Jon Osterman/Cal Abar (Yahya Abdul-Mateen II) ainda está construindo castelos em Marte, o recluso Ozymandias/Adrian Veidt (Jeremy Irons) só foi dado como desaparecido em 2012 (quem assistiu a série sabe que ele deixou a Terra em 2009) e presumido morto em 2019 (documento aqui).

Daniel Dreiberg/Night Owl II e Laurie Blake/Juspeczyk/Silk Spectre II/A Comediante (Jean Smart) foram presos em 1995 pelo assassinato de Timothy McVeigh (documento aqui). Isso mesmo: no universo da série, a dupla (ex-casal) de heróis conseguiu evitar o Atentado de Oklahoma City, um dos maiores atos de terrorismo da História dos EUA. Enquanto Blake fez um acordo e se tornou agente do FBI e membro da Força Tarefa Anti-Vigilantes, Dreiberg segue encarcerado.

Lá fora, na distância
Um gato selvagem rosnou,
Dois cavaleiros se aproximavam,
E o vento começou a uivar.
– Bob Dylan, All Along The Watchtower

Mas, inicialmente, o legado mais importante para a série foi o do quinto mascarado. A história original terminou em uma nota “otimista”, com a possibilidade dos crimes de Ozymandias serem expostos graças ao diário de Rorschach (dado como desaparecido depois de sua fuga da prisão), já que Juspeczyk, Dreiberg e Manhattan se tornaram coniventes com os crimes cometidos. Porém, ao mandar o livreto para o tabloide de extrema-direita que costumava ler, o resultado é bem diferente daquele esperado pelo anti-herói.

Uma vez que o jornal é conhecido pelas posições extremistas (e tem um ar geral de fake news), a história contada no diário não é levada a sério e se torna uma teoria da conspiração seguida apenas por pessoas (mais ou menos) desajustadas. Dentre esses, estão os supremacistas brancos que dão origem à Sétima Kavalaria.

O discurso moralista e conservador de Rorschach é facilmente apropriado pelo grupo, que usa a máscara do anti-herói como símbolo. É claro que o fato de que eles concordam com as posições de Rorschach não significa que Rorschach concordaria com as posições de supremacia racial deles. Inclusive, um problema semelhante ocorre entre Jesus Cristo e muitos dos seus seguidores, que projetam no Nazareno muitas de suas ideias e preconceitos.

Eu sou um irmão para dragões,
E um companheiro para corujas.
Minha pele é negra sobre mim,
E meus ossos são queimados pelo calor.
– Jó, 30:29-30

Um dos maiores destaques da série é a história de origem de Hooded Justice/Will Reeves (Jovan Adepo/Louis Gossett Jr.). No universo de Watchmen, o surgimento dessa misteriosa figura nos anos 1930 fez com que uma onda de heróis mascarados tomasse os EUA, alterando assim a História do Século XX. O impacto de sua aparição é comparável apenas ao surgimento do Dr. Manhattan algumas décadas mais tarde.

Sua história de origem segue o padrão de super-heróis icônicos como Batman e Superman, com dois momentos que definem o herói: um na infância (morte de seus pais para Batman e destruição de seu planeta para Superman) e outro na vida adulta (quando seus traumas ou algum novo evento traumático os levam a assumir suas identidades heroicas).

No caso de Reeves, há também a influência de Bass Reeves, o primeiro agente federal negro da História dos EUA, além de uma abordagem mais realista. Cord Jefferson, um dos escritores da série, afirmou nessa entrevista:

Meu pensamento sobre isso foi: na década de 1930, quem estaria buscando justiça fora de um tribunal? O super-herói mais ridículo é o Batman, pois a ideia de que um bilionário de pele branca não consegue justiça e então precisa ir pras ruas em uma roupa de morcego é maluquice, certo? Pois um bilionário branco pode fazer basicamente o que ele bem quiser. Eu estava pensando: Que tipo de pessoa sonharia em ser um super-herói? Quem gostaria de ser um vigilante mascarado? Fez perfeito sentido que seria uma pessoa de cor. Então, eu tive a ideia de que ele foi linchado por seus colegas da polícia.

Damon Lindelof, criador da série, inseriu a temática racial depois de ler um artigo na revista The Atlantic que lhe conscientizou sobre eventos quase esquecidos da História dos Estados Unidos. Episódios como o Massacre de Tulsa de 1921, o linchamento de Jesse Washington, o linchamento de Will Brown e o Verão Vermelho de 1919 (série de ataques que deixou aproximadamente 1000 mortos, a grande maioria negros) são geralmente referidos como “distúrbios raciais”, termo guarda-chuva que não deixa claro quem são os culpados e quem são as vítimas desses eventos.

É por isso que Lindelof colocou o Massacre de Tulsa no centro da ação. Esse é o evento traumático da infância de Reeves. O bairro de Greenwood, na cidade de Tulsa (Oklahoma) é sua Krypton: ele é enviado para fora em um veículo seguro enquanto seu mundo é destruído e seus pais assassinados. Sozinho, traumatizado e enraivecido, ele parte em busca de justiça; e quando não a encontra, ele coloca um capuz, tal qual um cavaleiro do Ku Klux Klan.

Tigre, tigre
Queimando brilhante,
Nas florestas
Da noite,
Qual mão ou olho imortal
Poderia enquadrar sua temível simetria?
– William Blake

Ao adotar os métodos dos seus algozes, Reeves entra na temática central de Watchmen: quem vigia os vigilantes? Qual a diferença entre um policial mascarado e um vigilante? Quem garante que o admirado grupo de heróis mascarados não passa de uma grande jogada de marketing? O que impede um herói mascarado de se tornar um vilão mascarado? O que acontece quando o abismo olha de volta?

O massacre de policiais racistas promovido por Reeves foi festejado por muitos espectadores, mas, apesar de catártico, aquele foi seu pior momento. Ali, ele se torna o inimigo que está tentando combater, inclusive com a justaposição de seus atos com o massacre de Tulsa, além da forma como ele asfixia o policial que o pendurou pelo pescoço. Sua explosão de raiva pode até ser psicologicamente justificada, mas não corresponde a uma forma de justiça.

O mesmo vale para a forma como a polícia mascarada da série trata a população branca e pobre: porque acreditam que a morte do chefe Judd Crawford (Don Johnson) foi causada pela Sétima Kavalaria, os policiais tratam todos os membros da população branca (e pobre) como suspeitos em potencial, prendendo sumariamente e torturando conforme consideram necessário (ou conforme precisam extravasar sua raiva). Na vida real, esse é basicamente o tratamento que parte da população negra e pobre recebe diariamente em países como Estados Unidos e Brasil.

No Hallowe’en, os velhos fantasmas ficam entre nós,
Com alguns, eles falam,
Para outros, eles ficam tolos.
– Eleanor Farjeon, Hallowe’en

E uma das participantes dessa violência é a detetive Angela Abar/Sister Night (Regina King), neta de Reeves. Em sua intrépida luta por justiça, ela também perde a perspectiva e passa dos limites mais de uma vez. Sem saber, ela já está do lado do inimigo que pretende combater. Mas Reeves lhe passa todo o seu conhecimento e toda a sua experiência para que ela não repita os seus erros e consiga combater as injustiças sem cometer injustiças.

Ela também herda os poderes do Dr. Manhattan, o que faz a série terminar em uma nota otimista, com a esperança de que ela será uma “deusa” mais ativa e responsável que seu antecessor. Mas talvez esse seja um final tão ingênuo quanto o da graphic novel, pois ele parte do pressuposto de que todos (ou quase todos) os problemas da humanidade são passíveis de resolução por meio da aplicação benevolente de uma força implacável e imensurável.

Mas o que dá a Angela o direito de usar esse poder absoluto para moldar o destino da humanidade? Sob qual autoridade Ozymandias se viu no direito de matar milhões de pessoas em nome de uma elusiva paz mundial? Que autoridade teriam Joe Keene (James Wolk) ou Lady Trieu (Hong Chau) para moldar a humanidade conforme suas ideias de perfeição? Quem são eles para decidir quem vive e quem morre? O que dá a qualquer um deles o direito de agir como juízes de toda a Terra?

Seria um mundo mais forte,
Um mundo mais forte e amoroso,
No qual morrer.
– John Cale, Sanities

O universo de Watchmen não é sobre heróis e vilões, ou sobre o bem contra o mal. Tanto a série quanto a obra original tratam de pessoas que se enxergam como heróis, justiceiros ou salvadores da humanidade. Os conflitos aqui são entre lados com visões de mundo diferentes, cada um tentando atingir uma espécie de supremacia ideológica. Eles buscam poder absoluto não para derrotarem seus inimigos, mas sim para executarem suas visões sem serem questionados.

Para eles, o outro lado sempre será o vilão, e toda violência contra os vilões sempre será justificada. Além disso, há sempre a falsa nobreza de estar disposto a sacrificar as vidas dos outros em nome das próprias ideias.

O conceito de heroísmo tem sido colocado em cheque desde os tempos da Epopeia de Gilgamesh, personagem que pode ser considerado o primeiro super-herói. Sua história foi contada muito antes da escrita do Velho Testamento e já abordava as consequências negativas de se ter um semi-deus como governante, a ponto dos deuses enviarem uma criatura tão forte quanto ele para mantê-lo ocupado.

Em determinado ponto do episódio final de Watchmen (2019), Ozymandias diz: “Qualquer pessoa que busque alcançar o poder de um deus deve ser, à qualquer custo, impedida de obtê-lo.” Durante a maior parte dos nove episódios, Angela jamais dá sinais de que está em busca de poder absoluto. Porém, na cena final, ela ingere propositalmente o ovo que lhe dará os poderes do Dr. Manhattan. Quem vigiará as suas ações?