A melancolia do peregrino

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Depois de assistir várias adaptações em filmes e mini-séries, finalmente li o meu primeiro John Le Carré. Porém, O Peregrino Secreto, composto por curtas histórias de espionagem narradas pelo protagonista Ned, é muito menos uma aventura e mais um memorial. Uma homenagem, talvez, ao seu mais célebre personagem, George Smiley. Ou talvez uma homenagem a todos os homens e mulheres que lutaram na linha de frente da Guerra Fria. Ou mesmo uma homenagem ao período em si, com todas suas tramas de vida ou morte que agora parecem não ter muita relevância. Publicado em 1991, o livro parece pontuar o fim da guerra de espiões travada na segunda metade do século XX. É como se essa obra representasse um último olhar ao campo de batalha, lançado pelo último soldado, já de costas, a se retirar. Há alguma nostalgia, mas muito pouca sensação de dever cumprido. Há, acima de tudo, uma melancolia quase palpável no decorrer e ao fim de cada história, variando apenas em intensidade a depender do tom mais leve ou mais pesado do capítulo.

Essa melancolia não é exclusividade dessa obra do autor e já estava presente em todas as adaptações que assisti, seja no George Smiley de O Espião Que Sabia Demais, ou na trágica história de O Espião Que Veio do Frio, ou no frustrante desfecho de O Homem Mais Procurado. Há nessas histórias um aspecto vital que as aproximam perigosamente da realidade: nem sempre seus protagonistas conseguem o que querem. Dificilmente os protagonistas de Le Carré são caracterizados como os “heróis” ou “mocinhos” da história, reinando aí a ambiguidade moral, mas, por serem os protagonistas, é por eles que o leitor ou espectador torce, por assim dizer. Mas isso não impede que seus planos falhem completamente e eles voltem pra casa (quando sobrevivem) derrotados, esperando apenas a inevitável e humilhante punição de seus superiores. Mesmo suas vitórias veem acompanhadas de custos morais ou pessoais que colocam a coisa toda em perspectiva.

Esses aspectos estão presentes ao longo de toda a narrativa de O Peregrino Secreto. Ao se lembrar dos vários episódios, Ned vai também se lembrando de sua inocência, e de suas dúvidas, e da busca por significado que o perturbou durante parte de sua trajetória. Depois de uma vida no Serviço, Ned está olhando pra trás e admirando as coisas que fez, que viu, que viveu e que aprendeu durante o caminho. É isso o que torna O Peregrino Secreto mais do que uma obra de espionagem. Uma retrospectiva semelhante poderia ser feita sob o ponto de vista de praticamente qualquer pessoa, especialmente uma que teve uma movimentada vida profissional. A escrita de Le Carré toca não apenas ex-espiões, mas qualquer pessoa adulta que já tenha percorrido um bom pedaço da estrada da vida. A ambientação da história no mundo da espionagem torna a leitura muito instigante, ainda que sem deixar de ser bastante contemplativa, mas os temas centrais da obra são universais.

Nas primeiras histórias, Ned tem que lidar tanto com a banalidade de suas primeiras missões como com a banalidade de um erro cometido por um amigo e suas trágicas consequências. Nas histórias seguintes, já com responsabilidades maiores, ele desenvolve suas habilidades como agente do Serviço, seja gerenciando uma rede de espionagem, lidando com uma suposta deserção do lado inimigo ou caindo e sendo torturado nas mãos da “oposição”. Esse último evento tem um desfecho incomum e ele acaba voltando para o serviço, ainda que com uma perspectiva mais ampla do que anteriormente, pois agora sabe o que é estar no lugar dos informantes que ele costuma gerenciar.

Um tempo depois ele passa por uma crise da meia idade e percebe que está em busca de algo que não entende bem o que é. Ele percebe a gravidade da situação quando, em uma viagem a Beirute, convida para um encontro uma pessoa que parece ter ligado por engano para seu quarto de hotel. Depois que o encontro não se concretiza, ele percebe o quão carente e ansioso por uma conexão humana ele realmente está, o que é um grande risco em seu tipo de trabalho. Em uma das histórias, um funcionário do Serviço é levado não apenas a trair o país, mas também a perder a própria sanidade devido a um tipo semelhante de alienação. Inclusive, essa é a história mais longa do livro, e contém um longo e genial interrogatório que é tão implacável quanto trágico e melancólico para os envolvidos.

Ned é casado e tem um ótimo relacionamento com seus colegas, mas não deixa de sentir uma certa solidão. Ele tenta aplacá-la com um caso extra-conjugal, mas isso também não é o suficiente. É apenas quando conhece o agente Hansen que ele entende o que está procurando. Nessa história, conhecemos a trágica trajetória de Hansen, e de como ele abandonou o Serviço, o país, o ocidente e tudo mais em nome de um amor maior do que ele mesmo ou qualquer ideologia. Ainda que ele não tenha nada parecido, essa história acalma as ansiedades e o tumulto que havia em Ned, levando-o de volta à normalidade. São nesses momentos mais humanos que a genialidade de Le Carré brilha sem igual.

Mais do que histórias de espiões, temos aqui histórias de seres humanos e das coisas pelas quais eles passam na vida. Le Carré é conhecido por ser um ex-agente da inteligência britânica que se tornou um dos maiores e mais respeitados autores do Reino Unido, porém suas histórias refletem não apenas seu trabalho como espião, mas também sua conturbada trajetória pessoal, marcada por muitos problemas familiares causados pelo seu pai, um conhecido vigarista com várias passagens pela prisão em várias partes do mundo. O autor transmite sua melancolia por meio de seus personagens, e nos identificamos com ela quando paramos pra pensar nas curvas feitas pela vida até chegarmos no ponto em que estamos; ou como seria a vida se algum detalhe do passado fosse diferente ou um evento X não tivesse ocorrido. São reflexões que, mais cedo ou mais tarde, são feitas pela maioria das pessoas.

Por fim, depois de um fracasso em uma outra missão (narrada em A Casa da Rússia), Ned é “extraditado” para a unidade de interrogadores, e é nesse posto que se passam as últimas histórias. No último capítulo, que funciona em parte como um epílogo, Ned narra sua aposentadoria e sua última “missão”. A três dias da data oficial de sua aposentadoria, o chefe do Serviço ordena que Ned use sua experiência e seus cabelos brancos para tentar convencer um milionário britânico a não contrariar os interesses da Coroa. A conversa que ele tem com o milionário serve de gancho para a obra seguinte do autor, O Gerente Noturno, e explicita de forma brutal um dos tipos de ameaça com a qual o Serviço teria que lidar dali pra frente. A simplicidade da Guerra Fria havia acabado: não há mais um inimigo claro com objetivos simetricamente diferentes contra o qual lutar; não há mais a “oposição” e seus truques de espiões. Dentre extremistas religiosos espalhados pelo mundo em células completamente independentes e milionários inescrupulosos, fica claro que uma nova era está surgindo para o Serviço.