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Crítica: Samurai X – A Origem

Rurôni Kenshin: Sai shûshô – The Beginning, Japão, 2021


Drama, romance e política se misturam no melhor dos filmes da saga Samurai X nos cinemas

★★★★★


Tanto no mangá quanto no anime, Samurai X conta as bem-humoradas aventuras do espadachim andarilho Kenshin Himura (Takeru Satoh) e de seu divertido grupo de amigos. A história só ficava um pouco mais séria quando eles precisavam lidar com inimigos do passado do protagonista, que era um temido assassino durante o Bakumatsu. Sua ingenuidade e sua promessa de jamais matar novamente garantiam que a história ficasse leve o suficiente para o público infanto-juvenil, com pouco sangue nas telas e nas páginas dos quadrinhos. Porém, com classificação indicativa de 18 anos, Samurai X: A Origem mergulha o espectador no sanguinário passado de Kenshin, explorando toda a violência e parte da complexidade da situação política que o levou a ficar conhecido Battousai, o Retalhador.

samurai x a origem 1No cinema, os quatro filmes anteriores (que tinham classificação de 14 ou 16 anos) resumem a trajetória do espadachim pacifista com muita ação e aventura, mostrando a luta do protagonista contra os “demônios” do seu passado, sejam eles físicos ou psicológicos. Por outro lado, Samurai X: A Origem está muito mais interessado no drama do que na ação, mostrando o surgimento de alguns daqueles “demônios” e as condições que o fizeram prometer jamais matar novamente. A violência brutal está presente, mas ela está longe de ser o principal aspecto da produção. Esse não é um filme sobre um herói derrotando um vilão, mas sim sobre um jovem idealista cometendo erros que jamais poderão ser corrigidos.

Sua vontade de fazer a diferença o leva a ser usado por um dos lados de uma disputa política. Ele luta pelos monarquistas que pretendem acabar com a ditadura militar e feudal do Xogunato Tokugawa e restaurar o poder da dinastia imperial japonesa. Seus principais inimigos estão no shinsengumi, uma tropa especial do xogunato encarregada de proteger a cidade de Kyoto. É a disputa entre os dois grupos que traça o destino de Kenshin e o faz se aproximar ainda mais da mulher que transformaria a sua vida.

O trágico romance entre Kenshin e Tomoe Yukishiro (Kasumi Arimura) é a trama principal de Samurai X: A Origem, fazendo com que o filme se encaixe no subgênero dos romances em tempos de guerra. Essa história já havia sido contada no aclamado OVA Rurouni Kenshin: Tsuiokuhen (também conhecido como Rurouni Kenshin: Trust & Betrayal) e é adaptada de forma altamente fiel e satisfatória nesse novo filme. Tanto Kenshin quanto Tomoe são pessoas que tiveram suas vidas marcadas pela violência e que, diante de uma nova e inesperada paixão, precisam rever os objetivos que eles estavam tentando alcançar e os métodos que utilizavam para isso.

samurai x a origem 2O que torna esse filme muito melhor do que os outros é que ele não precisa se apressar para encaixar todas as subtramas e personagens do mangá, mantendo o foco nas tramas políticas e no romance. Com design de produção e trilha sonora altamente imersivos, o diretor Keishi Ohtomo dá ao público e aos personagens tempo para refletir sobre os acontecimentos, permitindo que o relacionamento central se desenvolva de forma natural e convincente. O impacto da trama só é parcialmente prejudicado pelas escolhas feitas no filme anterior, Samurai X: O Final (crítica aqui), que inclui algumas das cenas mais marcantes dessa prequela como flashbacks.

Samurai X: A Origem deve decepcionar apenas quem estava esperando mais um intenso filme de ação no universo de Samurai X. A ação está presente, mas a maior parte das mais de duas horas de duração é preenchida com um romance sensível e emocionante. A origem da famosa cicatriz em forma de X que o herói carrega no rosto é tão intensa que é capaz de aumentar a dramaticidade de todos os filmes anteriores, servindo como um lembrete não apenas das vidas que o herói tirou mas também das histórias de amor e felicidade que sua espada interrompeu.